quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013


O medo

Vou-me. Não é de ti que me afasto ou estaria a afastar-me da verdade. É para não correr esse risco que eu me vou, antes que comece a encetar buscas onde não estás ou dê por mim a olhar para alguém que tu nunca vais ser.
Se esta não é a nossa dimensão, apesar de termos começado aqui a reencontrar quem somos, que sentido haveria em insistir no engano do medo e da culpa, agora que o ultrapassámos.
Eu não quero retornar para o medo, para a ideia que posso enganar ou ser enganado, quando é sempre de mim próprio que fujo.
Poderia dizer-te, antes de ir, que te amo acima de tudo, mas porquê, se não há mais nada para além deste amor? Ter medo é reconhecer que há. E são esses pensamentos que eu não quero mais permitir sob pena de me negar a mim próprio.
Vou, mas não vou para longe. É da mentira que eu me afasto, da irrealidade, dos sonhos assustados, dos abraços envergonhados, cabisbaixos, como se fossem indignos.
Se eu quero conhecer o amor, não posso ter medo. O medo não irá, nunca, conhecer o amor.



DuArte

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013


Como explicar? 

Como explicar a quem não entende ou a quem não transporta consigo este "terrível" gene, esta sensação de vazio que se apodera de nós nestes dias de Inverno sem cor, esta inexplicável dificuldade em simplesmente acordar?

Como explicar a quem acorda todos os dias à mesma hora e repete todos os dias o mesmo local de trabalho, as mesmas pessoas e os mesmos rituais, que o simples facto de trabalhar sete dias seguidos no mesmo sítio já é suficiente para me sentir incomodada?

Ou, como explicar que a simples visão do arco-íris, ontem, após a chuva ter parado, me fez desatar a chorar...?


Carmo Miranda Machado

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013


Espejo de letras muertas 

Odios como lápidas acogen
y rozan letras de combate
a veces razón, otras sin pena;
llorando en pantano que no es edén
ni pesadilla que yo entienda. Yo, solo yo, que soy
Y tu que siento entre mis piernas olvidadas...
¡olvido de gruesa fantasía!
¡olvido de amores que revierto!
¡olvido de fuertes que no besan la vida!

¡Dibuja-me alas de ángel caído
que me llenen de colores!
Odios que ríen en el cárcel
derrumbando los cuerpos propicios
por los caminos de mi cuerpo.

Y la alegría que se me ahorra...
como pájaro herido que no sabe escribir
canciones de dolor, ni siquiera
prosas de amor.


Joshua Magellan

 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Provocatio


Sempre mais

Deixo pedaços de mim por todos os sítios onde passo, em todos os amigos que amo, a todos os amantes que tenho. Partilho-me e tenho cada vez mais, sempre acrescentada de tudo o que vivo…


Missanga

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Crónica Benzodiazepina


Aos senhores da furda!

Isto que estamos presenciando é que não pode continuar. Isto termina fatalmente por um crime ou por uma revolução”
Júlio de Vilhena (1907) 

Esta é a democracia de uma Europa encarcerada num redil de teutões. A democracia da europa-quintal daquela senhora com ar de nazi mascarado de demo-tecno-crata. Da eurocracia e dos milhões gastos por Bruxelas. Esta é a democracia do faz-te-à-vida, do atropela quem quiseres para chegar a um lugar destacado na roubalheira nacional ou até europeia. Esta é a democarcia dos neo-liberais, dos privados, dos capitalistas. Dos especuladores e dos arrivistas. Esta é a democracia dos corruptos, dos acumuladores de riquezas à custa do erário público e da fome do povo. Dos que roubam milhões impunemente, em proveito próprio. Esta é a democracia dos ladrões de cartola, dos que roubam sem pistola. Dos que ameaçam, dos que prejudicam, dos que mandam a polícia carregar sobre os que não estão de acordo. Esta é democracia onde se discutem pintelhos, onde se manda tomar no cu sem pedir factura. Onde cada um dos mandadores tem um papel de seda para limpar a cara de cu de quem toma ares de poder. Esta é a democracia da refundação do fascismo, da implosão do estado social. Do desespero e da pobreza, da raiva cada vez menos contida. Da constituição ultrajada e do sonho socialista desfeito. Esta é a democracia dos cavacos, do bolo-rei colado aos dentes, dos mexericos entre-dentes. Esta é a democracia dos lobies obscuros, dos apadrinhados e dos padrinhos. Dos tachos e dos arranjinhos, para os filhos, para os netos, para os afilhados e para os sobrinhos. Esta é a democracia dos boçais, da Maria e do senhor Silva. Dos Jotinhas que desde imberbes aprendem a sugar nas maminhas do Estado. Este é o triunfo dos porcos. Eles são os senhores da furda, e a seu cargo e desmando têm uma larga vara de leitões de engorda. Esta é a democracia dos senhores da porcaria. Dos incompetentes. Dos bandos de malfeitores de banca, dos traficantes de favores do avental e da obra divina. É o reino onde já não há rei nem roque e tudo está posto em cheque. Esta é a democracia da selva. Do coelho armado em caçador, da ervas daninhas que se dizem relvas. Esta é a democracia dos indigentes políticos. Esta é a democracia possível, dizem eles. Pois, isto, isto não é nenhuma democracia. Nem a sua aparência, ao menos. Não é a minha democracia, não é a nossa democracia. Esta não é a democracia que vinha no menu quando votámos. Esta não é a democracia de ninguém. Esta não é a Democracia: esta é a cracia do demo, um poder satânico e maléfico. Esta massa viscosa e de mau odor, não é sequer um débil ensaio de uma democracia. Numa Democracia o povo manda e não é explorado por um governo de malas artes. Numa verdadeira Democracia estes políticos serão julgados pelos graves crimes que já cometeram e continuam a cometer contra o seu povo. Contra os que confiaram neles.
Só no patíbulo – e edificada sobre os vossos cadáveres –, senhores da furda*, se fará a Democracia, a verdadeira Democracia! E por último, vos digo que sigais o conselho do culto secretário desavindo: Ide tomar no cu para longe, enquanto ainda tendes pescoço! Basta! 

*Furda – curral tipíco da Beira Baixa onde vivem os bácoros. 


Joshua Magellan

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013


A vida é um milagre 

Mesmo quando tudo se desmorona à nossa volta, os entes queridos partem, os familiares adoecem irreversivelmente, as relações se deterioram e morrem, os outros nos parecem subitamente estranhos e o mundo continua a agredir-se ilimitadamente. Sinto em mim uma vontade visceral de ir em frente, de derrubar barreiras, de enfrentar as minhas tantas fraquezas.
É algo de epidérmico. Basta acordar e ver um raio de sol para que me sinta renascer. Basta depois procurar o mar, observá-lo por breves instantes ou um tarde inteira para que perceba a magia que é estar. AQUI. AGORA. HOJE. E então regresso, cabelos ao vento, música no máximo, cantando o mais alto que puder, para que lá em cima, quem nos olha, perceba que valeu a pena. Porque tudo, sempre, vale a pena!


Carmo Miranda Machado

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


Se só o presente existe...

Se só o presente existe, então, todos os instantes, passados ou futuros, têm de estar a acontecer em simultâneo. Tinha piada se assim fosse, aliás, tal como acontece no cinema. No cinema a história aparece-nos no ecrã, mas aquilo que vemos são apenas sombras projectadas pela luz a atravessar uma película. A acontecer alguma coisa, foi antes, na cabina do projeccionista, e aí, já está tudo previsto. Se tivéssemos vontade, poderíamos pedir ao projeccionista, e ele mostrar-nos-ia que todos os instantes estão, desde logo, disponíveis dentro da bobine. Se quiséssemos, poderíamos ver o filme de trás para a frente, aos saltos, ou do meio para os lados. Não há nada que o impeça. Aparentemente, nos filmes, tal como na vida, a nossa escolha é a de que a história nos seja apresentada de forma mais ou menos linear.
Isto remete-nos para uma outra questão. Quando vemos um filme, apesar de termos liberdade para escolher o que ver em cada instante, ainda assim, não podemos fugir do seu argumento. Ou seja, a história é aquela e não temos como fugir dela. Para que a história fosse outra, teríamos de pedir ao projeccionista para trocar de bobine.
Voltando ao filme da minha vida, ao aceitar o presente como único tempo existente, arrisco também afirmar que, afinal, o livre arbítrio não passa pelo que decido fazer em cada instante, mas pela escolha da parte da vida que quero ver agora. A vida já está lá, do princípio ao fim. Para que o argumento da minha vida fosse outro, teria de ir algures à minha mente, trocar o sistema de pensamento que aceitei como meu, e mudar aquilo que não me canso de projectar. Sem isso, ainda que possa escolher o que ver em cada instante, a história de fundo será sempre a mesma. É uma seca. 


DuArte

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Palavras Versadas


raiz

já falámos de mais
e de mais é uma árvore sem tempo
de florir

as estações sobrevoam-nos com asas prateadas
de aves formidáveis e rápidas
que nos povoam os sonhos
sem adormecer
e nós partimos do inverno enquanto dormimos
rachamos a noite em silêncio
ao encontro da memória ágil e quente
que nos aprende a voar
sem a ciência de um rumo dizível
e nos cerca
como uma casa de sombra que brilha
por dentro da sombra
de uma mansão maior que se apaga
no interruptor da primavera

já falámos de mais
e de mais é uma árvore sem vento
de partir

há aves que ficam
à espera
do seu tempo obscuro
quando todas as penas condenam ao sol
e migram
há estações que desfalecem e se vergam
à brisa derradeira
viciantemente fresca da solidão
no cair das folhas

o lugar plantado que somos tem uma só porta
um só chão incerto
onde se abre uma fenda de incerteza
na construção da raiz

mandei-te a chave por um pombo-correio
esquece a primavera


Renato Filipe Cardoso

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Provocatio

 

Do espanto 

Dizem que à medida que crescemos vamos perdendo a capacidade fantástica de nos espantarmos com o mundo. Porém, eu ainda me espanto, muitas vezes. Sobretudo com pessoas, para o bem e para mal. E com as cores impossíveis de um poente, quase sempre.


Missanga

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Crónica Benzodiazepina


FELICIDADE

Por vezes, penso que sou feliz. Hoje, por exemplo, acordei com sol, o que à partida é meio caminho andado para a felicidade; celebrei o aniversário da minha mãe, o que também me deixa radiante; e até consegui, com relativa facilidade, antever uns dias de férias. Possuo, desta forma, e de acordo com as mentes mais pragmáticas, todos os ingredientes necessários para a dita cuja.
Ora bem, a verdade é que tenho dias. Como a Cecília Meireles, tenho fases, tal como a lua. E tanto posso acordar com a sensação de que as torres gémeas voltaram a cair, como com a ideia de que tudo é fácil, porque para mim tudo é possível.
Uma vez confessei sentir-me feliz. Foi um desabafo, num daqueles dias em que acordo plena de energia e grata ao universo por existir. E leve. Extremamente leve (o que para mim é um grande sinal de felicidade). Mas alguém me disse (não me lembro já quem) para ter cuidado com o que dizia. É verdade que há pessoas que cultivam a tristeza. Mas, não é bem o meu caso. Nada me agrada mais que umas boas gargalhadas decorrentes de uma boa dose de non sense. E tenho, felizmente, alguns amigos/amigas peritos nisso. Confesso, porém, que há dias em que sinto escurecer por dentro. Mas faço sempre o possível (e o impossível) por renascer no dia seguinte, logo de manhãzinha.


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

PALAVRA EXPERIMENTAL (XVI)


Af(l)orismos

O povo diz: “Se queres ver o teu corpo, abre o teu porco”;

Digo eu: Se não queres ser visto pelo teu povo, fecha o teu corpo;

Sejamos: Se queres fazer viver o teu corpo, vive como um porco;

Diz que se diz: Se queres vender o teu corpo, há sempre um porco que compre;

Eles dizem: Se queres ver onde está o porco, pergunta quem manda no povo;

Dizemos nós: Se queremos manter o corpo, lá teremos de abrir o porco.

E o povo, pá, faz o que diz o São Martinho: Mata o seu porquinho e festeja com cravos e vinho...


Joshua Magellan

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

TUDO POR AMOR - 14 de Fevereiro de 2013


DIA DOS NAMORADOS

o amor
passou-se no tempo em que não havia medo.
não havia paredes subidas.
as manhãs eram remotas como rosas.
os ontens uma mitologia condigna.
a pátria era tão labiríntica quanto uma lágrima.
tão imprevisível quanto o ofício de um deus.
o amor passou-se no tempo em que ainda não tinha nome,
em que os segundos eram uma espécie de sangue,
e a tarde podia ser uma só palavra
na órbita de uma outra palavra.
o amor passou-se neste poema para pessoas sós,
passou-se como mera reprodução de um tempo
em que não havia corpos, logo
corações distantes.
mas ainda assim o amor existe: mesmo sendo
um ontem, mesmo sendo uma lágrima,
mesmo sendo uma rosa esquecida
num quarto azul.


Sylvia Beirute

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


Dualidades: eu e o outro que ama 

Existem dois em mim. Um deles é uma decepção. Ele nada sabe: não sabe estar, não sabe dizer, não sabe escrever, não faz a mínima ideia do que quer que seja. E talvez fosse essa a sua única virtude, porque, ao assumir-se vazio, deixou espaço para o outro que agora te apresento. Este tem tudo e, ainda assim, nada tem nada que tu não tenhas, nem poderá ser alguma coisa que tu também não sejas. Dele vem a paz, a possibilidade do Amor, porque quem tem tudo pode atrever-se a amar, estar ainda mais atento àquilo que já é seu, estendendo ao outro o que também é dele, acrescentando de nós ao que é nosso, a quem somos, e, quem sabe, a outros que se atrevam a amar connosco o que também é deles.
Este, que agora te digo, ele pouco falará de si, a menos que aprendas a escutá-lo também em ti. Será que te atreves a isso? Escutar no teu silêncio o meu silêncio?
É que nunca poderei ouvir-te ou olhar para ti de outra forma. Posso ver coisas que não és, escutar coisas que não dizes, posso imaginar-te noutras tantas que entretanto já se cruzaram comigo. Mas é a ti, quem eu quero, só assim poderei conhecer, dentro, onde me falas tão docemente com o teu silêncio.



DuArte

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Palavras Versadas


no crepúsculo do sonho

entras devagar
na casa
caiada de fresco
ternas reminiscências
(assim me pareceram na infância)
travestidas de risos e brancuras
de doces olhares
(assim me pareceram, de cores garridas)
desabam agora com o fim do dia
madeiras apodrecidas
tardes fúngicas
eclodem em apoteótica loucura
como alucinações
imagens silvantes e frias
pressentidas
naquelas manhãs que não amanheciam e se transformavam
em dias, em meses, em anos
e tu beliscavas-te uma, outra e outra vez
até que o sangue jorrava das tuas veias frágeis
e teimavas, teimavas em não acreditar
que tinhas sido sempre tu
sonâmbula
que tinhas traçado o caminho de todos os naufrágios
não, não abras a janela
não deixes que a luz se derrame sobre a vergonha
deixa que o tempo pare
ao imaginar por um momento
que todos os amores são possíveis
não toques em nada, fica imóvel
não respires
finge que se trata de um acto solene
deixa que as correntes do passado tomem o sono
e que em posição fetal
entre o amarfanhado morno dos lençóis
me abandone.


Catarina Pina

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Provocatio


A sua mensagem foi publicada com sucesso!

Recebeu aquela mensagem centenas de vezes. Não podia estar enganado quanto ao seu real "sucesso". Na suposição deste, continuou a escrever as mesmas merdas - que ninguém lia - durante séculos. Até que foi banido para as páginas em branco, quando um crítico iletrado descobriu a sua falta de talento e o denunciou a um proeminente e severo "e-ditador".


Joshua Magellan

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Crónica Benzodiazepina


Celebrar a vida

Uma das coisas que me atrai na filosofia budista é a sua relação com a morte, o modo como vivem com a consciência de que ao nascermos iniciamos de imediato o percurso que nos levará a esse fim inevitável. No ocidente, a não ser que sejamos muito prematuramente confrontados com a morte, crescemos com a sensação de que esta é algo que só acontece aos outros, aos desconhecidos. Crescemos com a sensação de que somos imortais e sentimento só passa quando, por fim, vemos a morte acontecer perto de nós.
Para os tibetanos a morte é tão natural como a vida, é mesmo a sua continuação. Crescem sabendo que a vida é apenas uma passagem e pensar na morte é para eles tão natural como respirar. Consequentemente, valorizam a vida de um modo totalmente diferente. Vivem-na serenamente, alheando-se de mesquinharias.
No espaço de um ano perdi três pessoas muito importantes para mim. Não conseguirei nunca ter a postura da filosofia tibetana, porque não foi enraizada no meu espírito. Contudo, a aceitação, conseguir ultrapassar o desespero, ajuda. Não é fácil. Estas três mortes fizeram-me repensar muitos aspectos da minha vida. Saber que caminho para um fim, faz-me querer viver mais plenamente, mais intensamente. Não quero com isto dizer que preciso de viver tudo o mais depressa possível. Apenas que tudo aquilo que me proponho fazer, seja fruto de vontade inequívoca. Quando me voltar a apaixonar, mesmo já tendo experimentado o desalento e a dor, entregar-me-ei sem reservas a essa paixão e correrei os riscos que tiver de correr. Estou com os amigos e familiares que amo sempre por inteiro. Deixei de fazer fretes, porque simplesmente não me apetece. Quando algo ou alguém me faz infeliz ou magoa, reclamo. A vida tem de ser vivida por inteiro e não com medos e receios. Viver pela metade, com medo de sofrer, não é viver. Viver é celebrar, sempre.


Missanga


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

PALAVRA EXPERIMENTAL (XV)


POEMA DE BOM DIA

bom dia.
bom dia mas poder trabalhar a ideia de um não poder estar
de memória num lugar escuso, apartados do uso de uma
diferença de dedos mentais, sentidos quebrados nos actos
das estrelas, desastre sobre uma mudança impessoal.
e digo bom dia. um bom dia sobre a linha feita da minha lógica,
o infinito material do mundo seguro e compreensível.
bom dia porque não tenho comparações e quem não as tem
não tem justificação para a liberdade de não ser livre.
e por isso bom dia. aos pássaros. à humanidade metafísica da
noite que sai de olhos cegos como as imagens cinematográficas
da adaptação de um livro de josé saramago.
bom dia à saudade de uma arte que consiste em fazer saudade.
uma saudade que envelhece como aqueles que regressam
apenas com a mente e a desusam na virgindade perdida de uma du-
pla existência, uma dupla alegria falhada na capacidade de espera.
bom dia à visibilidade do invisível. ao fmi. ao banco mundial.
à cimeira da nato. ao primeiro ministro, aos despedidos da
groundforce numa espécie de vigília em mangas de camisa, em
mangas de gestos e pânico nas faces que modernamente duvidam.
bom dia a um mark zuckerberg tenacíssimo a olhar para um
mundo azul e branco sobre uma inocência reprimida
pela desolação da vida fictícia, isolamento do próprio corpo
como uma leitura distante, um coração moral.
bom dia ao projecto humano de vulnerabilidade, instabilidade
do plano, do desejo, da livre associação de ideias. bom dia
às ideias de animalização da sexualidade por bento xvi,
de importanticidade das emoções e absurdo absoluto,
infra-absurdo, infra-inspiração, infra-exercício através da
propagação do nervo económico em hélice.
bom dia a fernando pessoa, a maiakovski, bertolt brecht, a
antónio ramos rosa, a jovens poetas de língua portuguesa como o
domingues ou o domeneck; que escrevam pelo instinto do
intervalo não lúcido da lentidão ocasional entre dois medos distintos,
entre a justificação da causa e o ideal da sobreposição.
bom dia às coisas análogas na diagonal do concreto heterogéneo,
na vontade vaga de falar o abstracto, o indefinido social
de uma seriedade superior. bom dia ao esquecimento
que lambe as feridas que o silêncio recolhe.



Sylvia Beirute

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


À porta da ilusão 

Depois de atravessada uma porta ilusória, é muito difícil voltar. Portas que abrem para o nada têm uma só face, desaparecendo ainda antes de se fecharem nas nossas costas.
Daí em diante, a única saída é manter a ilusão, defendendo-a com unhas e dentes, ou então, cair de joelhos perante a desilusão de nada conseguirmos de real. E é por isso que viver intensamente e sem freio estreita o caminho para fora do universo dos sonhos. Aqueles que, como eu, vivem amarrados a uma casota, ladrando a tudo e a todos, podem sempre pensar: "se eu fizesse isto, se eu fizesse aquilo, se ao menos vivesse com aquela mulher, se ao menos a vida tivesse sido um pouco mais justa comigo..." Amarrado aos “ses”, posso sempre manter a ilusão de que o mundo, de alguma forma, poderia dar certo.
"Ó pá, e se eu fosse mais alto, se eu tivesse cabelo a cobrir-me a cabeça toda, uma barriga mais desenhada, se eu não fizesse ruídos estranhos com a garganta, se tivesse um pouco mais de charme, tenho a certeza que ela iria olhar para mim! Olha! Se não for nesta vida, pode ser que aconteça numa próxima..."
Os outros, poucos, quase nenhuns, os que arriscam atirar-se a toda a velocidade contra a parede, indo a tudo e a todas, como se não houvesse uma segunda oportunidade. Esses percebem mais cedo, que nada, mas nada, dá certo neste mundo. E já não é preciso uma porta da saída, nem tirar as muitas máscaras, porque elas só existem para manter e proteger a nossa ilha imaginária, a nossa ilusão, o nosso sonho. Um dia, tudo isso cai como por magia do desencanto.



DuArte

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013


Voltar ali onde as ondas respiram 

They say that all poets must have an unrequiet love, as all lovers must have thoughf provoking fears 

Voltar ali, longa casa, janelas abertas à vastidão. Coros de búzios evocam risos. Rios que correm. Folhagens que se deslocam. Pó que se dissipa. A saia vermelha lançada ao vento. A sensualidade violenta de Zéfiro. As três Graças a marcar o ritmo. Dançam em roda. Junta-se-lhes Salomão com seus unguentos. Mirra, leite e mel. Ressoam vozes , cânticos, celebrações. A salvação dos náufragos que regressam agora, como filhos pródigos, os mais amados. Trazem nos lábios os licores doces de Penélope e o travo amargo das Gárgulas. No cabelo a coragem de Ulisses. No olhar, a ternura de Helena. Faz-se tarde, faz-se cada vez mais tarde. Persistentes, as bacantes entoam hinos anunciando alvoradas distantes. Águas mornas. Pássaros esvoaçam ébrios. Peixes em terra cumprem rituais ancestrais. Ao largo, uma maré adormecida. E as imagens vão-se projectando ante os seus olhos como se de um filme se tratasse.
Crescem torres colossais que chegam às nuvens. Torres que nas entranhas da maré radicam como cogumelos infernais. A saia vermelha lançada ao vento. Ondulante. A nudez. Uma escada lançada ao mar. As estrelas à distância das cerejas. Os tambores. Viagens reais e imaginárias. Criaturas híbridas e bestiais. Balsas que aflitivamente se afastam da orla. Vénus e Mercúrio entrelaçam-se. Orquestras desafinadas. A saia levantada. Carpideiras silvam entre-dentes. Os mais desejados regressam. É tarde, cada vez mais tarde. Giram as bacantes. Nos lagos flutuam esmeraldas, rubis e diamantes, sob o olhar atento de um abutre excomungado. Holofotes. Gente que passa nas ruas. Muita gente que passa nas ruas. Ressoam vozes. Voam saias vermelhas na imensidão dos oceanos. Mordiscam-se cerejas e estrelas à sombra de frondosos cogumelos. Feras indómitas apascentam rebanhos de ovelhas aladas. No perfil da montanha amontoa-se o casario despovoado. A maré continua adormecida. E as imagens vão-se projectando ante os seus olhos como se de um filme se tratasse.
Imagens reflectidas. Mel, leite e mirra. Cântaros de bálsamo. Folhagens deslizantes. Corpos nus em redenção. Alvoradas distantes. Celebrações. Janelas abertas à vastidão. Zéfiro, Ulisses e as bacantes. As Graças. Provocantes . Cinzas que se transmudam em campos de papoilas e violetas. Voltar ali onde os dias já não são breves. Onde os dias são longos, intermináveis. Voltar ali onde as ondas respiram. Voltar ali onde a Pitonisa penteia os longos cabelos da história. Uma saia vermelha lançada ao vento. Janelas abertas de vastidão, janelas abertas à vastidão. E as imagens, essas, vão-se projectando ante os seus olhos como se de um filme se tratasse.


Catarina Pina

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Palavras Versadas


uma semente à espera

como pode caber uma oração inteira entre
as duas vírgulas do teu sorriso?
onde estava eu na manhã em que amaste
o perfume da minha ausência?
tenho tantas perguntas nodadas na garganta
e trago a voz puída
como o tapete pressa onde assentei os pés
todos estes anos

já me lembrei de percorrer os teus dedos oblongos de futuro
já me lembrei de me demorar nas falanges do deslumbramento,
uma a uma
e abraçar-me à árvore, abanar a árvore
desde a raiz
à copa caduca do tempo perdido na algibeira
da irreversibilidade, talvez assim
caísses nos meus braços, ou quem sabe voasses?
não importa, agora
cada fruto me diz que te quero.
e a fome repousa, finalmente, no desejo pluvial da semente


Renato Cardoso

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Provocatio


Perdição de um dia não

Hoje perdi-me de mim... Hoje tenho andado à deriva, sem ninguém ao leme.
Se alguém me encontrar, por favor, devolva-me a mim.


Missanga

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Crónica Benzodiazepina


PARA QUÊ BARRICAR AS EMOÇÕES?

Comecei a apreciar a manhã e a brisa que me despenteia os cabelos já de si pouco penteados. Agora, ler e meditar, observar os pequenos nadas matinais, sentir o valor de cada pequena coisa, ganharam sentido. A acalmia emocional tende a instalar-me, pouco a pouco, após tantas noites de luta desenfreada contra a sensação de vazio e de mal estar. Percebi que de nada vale tentar barricar as emoções que, inevitavelmente, acabam sempre por se derramar. Só o tempo pode ajudar à tranquilidade. É preciso tempo. Tempo para viver. Tempo para esquecer. Tempo para escutar.
Agora aprecio as diferentes tonalidades que o Tejo toma até o sol surgir por completo no horizonte. Agora usufruo finalmente do prazer da manhã ao sol do Alentejo. Agora estou numa pausa da minha viagem em busca do sol.


Carmo Miranda Machado