quinta-feira, 31 de janeiro de 2013


Por um morfema feliz

As palavras falam sobre todos os assuntos, estão por todo o lado onde haja tema de conversa, onde haja algo a dizer. As palavras são gregárias, vivem em cidades textuais, em vilas e aldeias, em comunidades de povos de letras sociais. E, mesmo quando solitárias, podem ser multiplicadas, traduzidas por outras palavras. Até trocadas por outras da mesma família ou significado. As palavras são transversalmente habitadas por “morfemas lexicais ou gramaticais” e podem ser lugares-comuns.
Há um "morfema" por dentro das palavras, de cada palavra. Há um “morfema” que vive só e feliz; e há outro que vive o discurso acompanhado pelo prefixo de negação e acaba sempre infeliz. A minha felicidade parte do “morfema” feliz, corre em fuga do prefixo que a tenta negar e ao chegar à meta cola-se ao cru sufixo da idade. A minha felicidade plena será conseguir atingir feliz a maior idade que conseguir. E se o estado do meu morfema se mantiver adjectivante, terei felizmente aquilo que a minha adverbial mente pede.
Quando o feliz surge solitário, não passa de um “morfema livre”, um "morfema" que se pode vir a unir com um “lexema” em qualquer ocasião, mas que tão só vale por si. Para ele, ser livre, significa usar a liberdade de se exprimir adjectiva ou substantivamente. O “morfema livre” explora o “morfema preso”: vive nele em razão da idade, acrescenta-lhe mente, ou redu-lo a negações adjectivas ou adverbiais. O “morfema livre” coabita consigo próprio, mas com a idade torna-se um “morfema preso”.
Quando o “morfema” saúde, sofre de algumas “alomorfias”, pode não ser nada de grave, contanto que faça uma vida salutar e não frequente locais insalubres, não será o convívio do morfema com algumas variantes alomorfes que vai desmerecer a sua origem. Mas, nunca por nunca, devemos cair na ausência de morfema apenas para cobrir a função semântica, porque quando ele se ausenta caímos no “morfema zero”.


Joshua Magellan

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013


Boa sorte, Cândida!

É um dia como tantos a estas horas da manhã. A senhora do banco da frente já vai  no segundo telefonema e eu ainda agora me sentei. Era para dizer que já vai no comboio, que a greve já era! Antes tinha falado a alguém a quem desabafou a insatisfação com uma outra lá do trabalho, que «é convencida demais» e que «não tem postura». A do lado também está ao telefone e a de trás dá conta da vida: sim, a Bárbara vai bem, está na Faculdade, lá no trabalho o costume, essa tipa é sempre a mesma,  no Pingo Doce é mais em conta.  (Há pessoas que comem farinheira mal acordam e seguem lindamente, dia afora. Nem arrotos, nem nada!)
O comboio parou. A do lado, «hello», a olhar para o telefone.

Estou com vontade de telefonar a alguém!
A das queixas desligou e a outra: «a Cândida vai ser operada às varizes»!


Iolanda Bárria

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Palavras Versadas


AUTÓPSIA

uma autópsia a ti mesmo:
que é o que tu podes fazer neste
fim de tarde de cidade sem rosto
e em que o oxigénio te dura para
seis horas
e a cabeça te inutiliza as sensações
mais modernas, a respiração
até aos ossos, a Grande Coisa
até ao espírito de uma energia vital
sem corpo, sem flor que abre,
sem uma vanguarda de calor e frio.
uma autópsia a ti mesmo:
que te confirmará como um morto-vivo
de pequenas maneiras e
recebendo a cama, a luxúria &
um subconsciente em paz;
e a partir daí, porque
saberás o que contém a tua falência,
o teu suicídio
perderá todos os sentidos líquidos,
ainda que a morte toque o teu piano,
ainda que o teu corpo fuja da tua razão.


Sylvia Beirute

domingo, 27 de janeiro de 2013

sábado, 26 de janeiro de 2013

Crónica Benzodiazepina


GUERREIROS DO AMOR

Na verdade, o que todos queremos é colo. Andamos todos a perseguir o mesmo sonho: Amor. Explica-se assim a angústia que se apodera de nós quando percebemos que tudo se resume a essa necessidade primordial. Alguns encontraram-no e perderam-no. Outros encontraram-no e não o quiseram. Outros ainda nunca o viram. E há os que, não sabendo exactamente de que se trata tal coisa, ou que formas pode tomar, desconhecem mesmo se o quererão agarrar se o encontrarem. Há quem desconheça a arte da entrega, quem não saiba o que quer, quem não saiba o que procura, quem nunca tenha encontrado Amor. Este desconhecimento faz, segundo um amigo meu, todo o sentido. Afirma: "Já viste a seca que seria a nossa vida se soubéssemos exactamente o que queremos e andássemos satisfeitos?" Para ele, a magia da incerteza está sempre lá. Acompanha-o. E vive um ciclo permanente de encontros e desencontros que se sucedem. Quando sabe que o outro está lá, de pedra e cal, à sua espera, começa inconscientemente a sentir que ganhou essa batalha e, qual guerreiro de uma guerra perdida, inicia imediatamente uma nova conquista.
Não sabe ele, não sabe quase ninguém, que "não é fácil encontrar a felicidade dentro de nós mas é impossível encontrá-la noutro sítio".


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

PALAVRA EXPERIMENTAL (XIII)


Cão ladrão

Cão que ladra morde pouco, ou nada (mordisca)
(morder pouco também morde);
Cão que crava os caninos, morde muito e fundo,
não consegue, pois, ladrar;
Cão que ladra muito, muito, é cão ladrão
(e sabe-se lá se morde ou não)
ão, ão,
béu,béu,
arf,arf,
au,au

Aniz tinha um cão ladrão! Que ainda por cima era um trapalhão sem noção e desatava a ladrar sem mais nem porquê sempre, mas sempre no preciso momento em que Aniz encontrava a língua quente de Romeu, encostada ao banco de xisto, nas traseiras de casa, com um ombro quase a tocar a tangerineira.

“– Cabrão do cão”, praguejava Aniz! mas baixinho… não fosse chamar a atenção da avó, o que seria um problema, dado a avó não gostar do Romeu e muito menos do Romeu assim, às escuras e nas traseiras de casa, tão irregular na respiração!

E o cão:
ão, ão,
béu,béu,
arf,arf,
au,au


Iolanda Bárria

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


Do outro lado do espelho

Duas mentes podem concordar ou discordar acerca de qualquer coisa. Mas, entre aquilo que elas pensam, vêem ou ouvem, não existe, nem nunca existirá, qualquer semelhança. Elas nunca se apercebem disso. Como poderiam, se a imagem que têm do mundo é sempre estável, assente na firme convicção do seu ponto de vista? O problema é que pontos de vista são sempre relativos, e as imagens que nascem de cada um deles são sempre diferentes. Achar que estamos a ver ou a ouvir a mesma coisa, é uma ilusão tão enorme, tão absurdamente gigante, só suplantada pela nossa vontade de que a ilusão seja verdadeira. E é essa fé que nos alimenta, esse autismo incomensurável, acreditar que os olhos e os ouvidos nos dizem o que está lá, aquilo que todos vêem.
Se eu mostro uma foto a alguém e pergunto se ele reconhece naquela imagem a pessoa que ambos conhecemos, ele vai garantir-me que sim, e eu poderei respirar fundo porque, afinal, também é aquela a cara que eu vejo. O que eu desconheço, é que a cara na fotografia é completamente diferente na representação que cada um fez da imagem.
Acreditar que os outros vêem o mesmo que eu, é jurar a pés juntos que eles vêem com os meus olhos. Insistir nisso, argumentar sobre isso, fazer prova disso, ainda por cima, para agravar a manutenção do erro, dar-me-á sempre razão. Porque aqueles que eu vejo, concordem ou não com o que eu digo, dão-me sempre razão. Eles são, independentemente do que me pareçam, uma visão minha, definitivos e dignos de total confiança.


DuArte

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013


Tempo 

Queria poder viver lentamente e, ao mesmo tempo, com intensidade. Queria ter tempo para desfrutar tudo o que realmente me importa. Gosto de partilhar abraços, afectos, palavras, sorrisos, silêncios… Gosto de inebriar-me com um beijo, lentamente, intensamente…
Não queria estar sempre a adiar. Quantas vezes “adiar” e “nunca” se tornam sinónimos? Amanhã faço! Não posso esquecer-me que apenas tenho o agora garantido. Do ontem, já só as memórias me pertencem e o amanhã pode não chegar nunca.


Missanga

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Palavras Versadas


Epifania do livre arbítrio ao luar

todo o amor livre e único está contido
num céu divinal jamais realizado
nas estrelas brancas das bolas de cristal
tem o brilho impressionante do céu
a prata em contraste com o olhar perdido no tempo
de uma rua sem saída para o espaço
todo o brilho do mundo se escapa e se mede
pela fraqueza humana
por todo o lado há ínfimos tesouros contáveis
homens e as mulheres a sonhar ser assim
como se a vida entretecida dia a dia fosse
um quotidiano mole sem emoções cartografáveis
e a vida nunca é

o amor único não é duplicável
o amor livre não é transmissível
não pode ser negociável em letras de cambio amoroso nem apregoado
por cartazes de vistas breves
o amor unitário é uma prisão com grades de vida o grito libertário
é a palavra proibida pelo pecado originante
a mesquinha insensatez do senso mais-que-comum
como uma praga vinda do egipto um poder invasor
para contaminar os dias

uma calamidade absolutamente desnecessária ao desenvolvimento
comentam os poderosos
uma medida à medida da sobrevivência da Humanidade
escrevem-no os jornais ao anunciar o fim de todo o amor livre e único bem
como todas as demais consequências do decreto ditatorial
uma limpeza dos costumes uma barrela ao corpo delito
dizem-no as bocas sujas metidas a medo ao gritar inocências pessoais
contra o sentir à porta dos tribunais
gritam-no as vizinhas muito incontidas consigo próprias
sempre a unicidade do amor a marcar a estética do falar
sempre a verdade libertadora a enganar a certeza do ser
tudo se baseia no amor em geral como tu o sentes em particular
sobretudo em ti quando em silêncio
vago algo indefinido
quando em esforço
sobes ao querer perceber todas as faces da lua

ao único nada brilha por fora
ao livre nada o prende por dentro
e as grades da prisão não entendem nada de amor
as fechaduras não nos entendem sob qualquer perspectiva
somos à hora certa o que sonhamos e não o que desejamos
envergamos o rosto metidos numa camisa vazia
somos uma força bruta projectada a favor da nossa paz
e marcamos a vida de cores suaves por ser a vida
o nosso destino inacabado está ao virar de uma página negra
em tons de rosa esmorecida
somos a esquina que marca a rua por onde andamos
e se aborrece  
porque a fazemos esperar contra um sujeito acabrunhado

na unicidade do amor há o sabor de palavras cifradas
um signo por libertar teologicamente incorrupto
um significando a ser revelado no além dos sages
na viragem de um tempo sonhado outro
onde o amor viverá como um verbo íntimo tão brilhante
como um néon capital
e sentiremos a palavra nos olhos cerrados
devemos tentá-la como o que realmente importa ao sentir
colar as pálpebras uma e outra
e submeter o olhar a um encontro de lábios
urge reinventar a língua de olhos fechados num beijo
para não cegar com a desdita falsidade da luz real
só na fundura do breu abissal dos atlantes
a única cidade onde o amor e a luz se espelham em liberdade
se pode encher uma lua cheia
vazada num céu profundamente universal


Joshua Magellan

domingo, 20 de janeiro de 2013

Provocatio


Saber não dizer 

Ele sabe bem como dizer as coisas, já a Maria Luísa sabe melhor do que ninguém como não as dizer.
Sabe muito bem não dizer as coisas.
Haverá quem saiba tão bem não dizer as coisas, como a Maria Luísa? Sabe não dizê-las sem esforço e em diversas línguas, vivas e mortas.



Iolanda Bárria

sábado, 19 de janeiro de 2013

Crónica Benzodiazepina


VARANASI: O RITUAL DA MORTE

Varanasi, na margem do Ganges, o rio sagrado da Índia para onde são atirados os restos mortais dos muitos hindus que ali vão morrer. A poluição do rio atinge, assim, proporções incalculáveis e difíceis de aceitar racionalmente. No entanto, o rio pela manhã apresenta uma paisagem fascinante. Aventurei-me. Um passeio de barco pelo rio, de madrugada, às cinco horas da manhã, para ver o sol nascer. O rio enche-se de hindus que ali vão banhar-se, deitar flores e rezar. Deitei também a minha vela no Ganges pelos mortos. Pelos amigos. Pelos amores. Não se descreve o que se sente ali. O remador Balu (obrigatoriamente hindu para ser remador no Ganges), foi tentando explicar-me alguns daqueles rituais mas eu só ouvia o barulho do sol a bater nos Ghats e a iluminar, aos poucos, o casario. Encontrei viajantes solitários, mulheres aos pares, casais, grupos de meia idade.
O Rio Ganges está para os hindus como Meca para os muçulmanos. Eu queria conhecer de perto aquele ritual de cremação. Visitei o principal local de cremação - Manikarmika - onde os fogos ardem consecutivamente. São precisas cerca de 4 mil rupias para comprar toda a lenha necessária à cremação de um corpo. A cremação eléctrica é muito mais barata e custa apenas 151 rupias. Pois, até na morte...
O filho mais velho do morto rapa o cabelo e ateia o fogo dando quatro voltas em redor do morto, ritual que simboliza os quatro elementos: terra, água, ar e fogo. As crianças com menos de doze anos, as mulheres grávidas, os leprosos e os sacerdotes não são cremados. Estes corpos são directamente atirados ao rio, atados a uma pedra.
Vi de perto os corpos a arder. Senti no corpo o calor dos fogos e os meus cabelos e corpo encheram-se de cinzas. Chorei. Chorei muito. Chorei tudo. Funcionou como uma catarse da minha dor. Não conseguia controlar as lágrimas e recordei o meu pai, morto há poucos meses. De repente, seguiu-se uma calma imensa, súbita, inexplicável.
Nunca mais esquecerei Varanasi, As flores laranja por todo o lado. Os muitos paus de incenso a queimar. Os mantras repetidos ao som dos muitos sinos. O sabor intenso do "malai kofta" .Ficarão para sempre comigo. Como ficará a visita ao "guruji" de 87 anos, um astrólogo hindu que me garantiu já ter vivido no sul da Índia numa vida passada.
Das muitas viagens feitas, nunca tinha sentido este clima, esta atmosfera exótica e mística. Em Varanasi, cheira a sândalo, a jasmim pelas ruas. O incenso apodera-se dos sentidos. Na mesma rua era possível desviar-me de um elefante para ir contra uma vaca ou quase ser atropelada por um riquexó ou estatelar-me sobre excrementos. Em Varanasi, recuei séculos no tempo e quase esqueci quem sou, o que faço, e as preocupações do Ocidente pareceram-me totalmente mesquinhas.


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

PALAVRA EXPERIMENTAL (XII)


Merdas soltas 

Muito pouco, ou nada, sei de mim. Conheço-me há muito pouco tempo, mas dou-me bem comigo. Quero dizer: com a maior parte do que sou intimamente.

Procuro-me no céu em todas aves e nunca obtenho a liberdade num voo circundante. Antes a maré em vez do ar, antes o voo direito ao fundo de onde hei-de lançar a subida.

Não, não sei que te diga, não sei que possa não deixar de te dizer. Por isso não digo, não digo o que guardo e só é meu. E dói-me...

A traição é um grito numa igreja em silêncio. É a fé, quando ultrajada, o descanso e a paz das almas a ser perturbada. Deixem dormir os fiéis!

O sangue dos traidores corre sempre azul, sempre celeste. Depois de ferir prostram os olhos no escorrer do céu e dizem indecências agarrados ao prazer de trair. Sim, há prazer em ferir.

Quando partimos agarrados às memórias, com recordações por todas as malas, chegamos onde todo o pó assentou sobre a casa da infelicidade. Somos infelizes e repetimos.

Nessa casa-vida, onde habitamos precocemente, vamos guardando todas as lembranças como um atestado oficial de vividos. Vivemos? Será que vivemos?

Nunca entendi o mal, o que está por dentro de quem faz o mal. Apenas sinto por fora o corpo frio da vingança contra mim, um ódio lâmina a percorrer-me agudamente o medo. Um medo sentido até ao fim, como um arremedo de morte.

É o diabo, por dentro do corpo, que se agita num arrepio de onda. É o mar Adamastor a erguer-se esquálido no Averno das nossas vidas em fuga. E, em cada vaga, vamos morrendo, aos poucos, aos poucos...


Joshua Magellan

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013


Memórias de uma novela mexicana: Eu bipolar, Ela sinistra e alguns suspeitos

Sempre gostei da vida e continuo gostando. Essa mensagem é quase de desespero, pois muitas pessoas que não me conhecem, as quais nunca havia visto, criaturas que sequer conversaram comigo, ousam falar sobre mim. Não faria importância se não atrapalhasse tanto minha vida e minha relação com outras pessoas, logo eu que posso dizer que o ser humano me sensibiliza. Seja com pequenos gestos de bondade, ou com algo que me faz ver o quanto somos feitos de carne e osso, mas a alma se sabe doída, não sou altruísta e cheguei ao ponto de sentir o sofrimento alheio, pode até ser uma forma de egoísmo. Devido ao fato de ser rigorosa com as palavras, não as adjetivo, não é egoísmo bom. Então fico com os termos condescendência e solidariedade silenciosas. Hoje sei que difamação não se corrige, por mais que façamos a coisa certa e não prejudiquemos ninguém, a injustiça foi feita, ouço diariamente que sou doente e tenho problemas. Trabalho, cuido de casa, escrevo, leio, estudo, tenho um alto nível de compreensão sobre diversos textos das ciências humanas e adquiri independência em muitos aspectos.
Atualmente, após ser agredida verbalmente duas vezes no Rio Vermelho e ser surpreendida por um encontro inesperado e inoportuno, com tom desafiador no mesmo bairro, ou seja, três situações constrangedoras em pouco espaço de tempo, quase não saio de casa (perdi o gosto). O pior de tudo isso é não ter meu tempo de sofrimento suspenso, ao menos, por um tempo e conviver constantemente com a má fama dita com descuido por pessoas incapazes de enxergar com o coração e sim com a penumbra dos olhos alheios e alheios à minha vida, e o pior, a si próprias enquanto humanas.
 A nossa sociedade está com valores invertidos e o mínimo que podemos fazer é cuidar do outro lhe dando chance de se tornar uma pessoa melhor. Estamos aqui para evoluir, entretanto, depois de tudo que passamos, eu e minha família continuamos sofrendo cada vez mais, injustamente. Já imaginou se todos contassem o tempo todo sobre os erros de todos, de forma leviana e cruel (ignorantes que somos sobre o todo de cada acontecimento), como seria o mundo particular de cada um?! Ao menos, dos que têm consciência e coração bom e optam por seguirem suas vidas e recuperarem o tempo que perderam? De qualquer maneira, ter muito a dizer é perder um pouco a insanidade. 


Manuela Barreto (Brasil)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013


O corpo nada faz...

O corpo nada faz: existe, porque a mente assim o quis. Adoece, porque a mente, assustada com a sua própria decisão, vestiu a carne que pensou e dessa forma se fez doente no exterior.

Apaixonada pela escultura, a mente que se julgava separada acabou por se confundir com ela. A paixão foi tão avassaladora que os olhos da pedra começaram a ver e a rocha se fez porosa para que o ar pudesse entrar. De tanto a mente acreditar, a figura branca e rochosa começou a mexer-se, qual títere, cortando os fios que a uniam à criadora: os pensamentos abandonaram a sua fonte e decidiram parir-se a si próprios. A mente ficou abandonada, a sonhar com um corpo que sem dono vai aos tropeções. Triste e cansada, a mente que agora pensa ser um corpo, senta-se para meditar, à procura da leveza que outrora foi. Sou um corpo pensante - conclui, extrapolando a partir do erro de percepção, invertendo a lógica, dando ao denso a capacidade de gerar o subtil. O pensamento que se julga ausente da matéria concluiu em defesa da obra própria, que foi a matéria quem pensou a leveza de si, devolvendo o pensamento ao corpo que verdadeiramente nunca existiu.

O corpo nada faz: existe, porque a mente assim o quis. Adoece porque a mente, assustada com a sua própria decisão, vestiu a carne que pensou e dessa forma se fez doente no exterior.


DuArte

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

SETE DIAS VEZES POESIA (VII)

 

no corpo de um outro tempo

como se o tempo fosse linear e recto
as noites descessem sobre os dias
um tempo simples
um ponteiro em movimento
uma roda eterna

como se o meu corpo fosse uma casa
um rectângulo perfeito
em cada parede o silêncio
uma janela

coincidência entre tempo imaginado e vivido
estanquidade deste mundo onde a estranheza não tem lugar
onde todos os rios fluem no mesmo sentido
estendo a minha mão e quase lhes toco
sangue corrente em minhas veias
este tempo igual este lugar de lagos imutáveis
tempo único
tempo alinhado
 
quis habitar uma casa
desenhar a minha sombra no papel das paredes
olhar-me num espelho
sílaba a sílaba repetir o meu nome
em cada sílaba, em cada repetição, aumentar a distância
o olhar de volta ao espelho
fixa a imagem
mas aquele eu já não era meu
o sentido da palavra perdera-se
os olhos eram apenas olhos
arquétipos
o movimento dos lábios indiferente ao rolar das pedras
estilhaços pelo chão da casa imaculada
reflexos de um corpo fragmentado em pedaços
hemisférios divergentes
vários tempos contidos no mesmo tempo

memórias da ausência
as paredes brancas de uma casa em ruínas
tempos múltiplos se iniciavam
 
hoje os corpos dançam
abraçam-se
como corpos que se abraçam 
dançando

vogam indiferentes à passagem do tempo
cada movimento é eterno
indelével
há uma torrente contínua
sílabas acompanhando sílabas
vidas acrescentando vidas
vozes ecoando vozes
encerra o mundo inteiro o nosso corpo
em todas as vidas em todos os tempos
todos os tempos entre nós ao mesmo tempo
o nosso corpo único
ainda silábico.


Catarina Pina




sábado, 12 de janeiro de 2013

SETE DIAS VEZES POESIA (V)


Sei lá de mim

O meu dia / nasce sempre um dia outro / é a noite que nunca cai / são horas perdidas num jogo de azar / e a sorte / com quem jamais me cruzarei / o lado negativo de um diapositivo / o retrato pouco impressionado de uma vida / sei lá / as voltas todas desta roda vivida / apenas me deram possibilidade de a viver / e talvez a visão das aves / a ternura do ninho / o voo desamparado / o salto para o tempo vindouro / toda a aventura de crescer / acima das nuvens / sei lá / do tempo passado / sei lá de mim / sei lá / se sou capaz de voar / sei lá...


Joshua Magellan

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

SETE DIAS VEZES POESIA (IV)


PIQUENIQUE

algo sobre a relação entre poesia e vida.  

o suplemento literário sobre o nada, nada que longe veloz piquenique seja
como menção do que subo, que subo aos astros indeterminados,
entristecidos com filiação junto da concessão da felicidade lógica;
e não se diga que o que é novo não menos me envelhece, porque perturba,
porque oprime o silêncio entre mim e deus, o mesmo que me indefine como
carne ou peixe ou veludo incolor do chão carente;
para que serve a poesia então, alguém pergunta e o chazinho diz
que os poemas bonitos não existem por aqui uma vez que matariam
a liberdade subsidiária do fim do dia que é como uísque;
e o comércio da alma, acabo a pensar, é o seu desconhecimento oscilante,
a procura que se esgota na sua parede muito branca, e leva à impressão
de um mesmo mundo de resultados.
porque nós estamos aqui, nós continuamos e continuaríamos sempre aqui
nas mesmas asas alucinadas de insecto, na mesma chávena de ódio e céu.
prova os rissóis, querido. por favor. estão deliciosos.


Sylvia Beirute

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

SETE DIAS VEZES POESIA (III)


BIBLIOTHÈQUE EN FEU 

- à Ó da Lisca -

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca

em prateleiras de mel que escorrem para quem amamos
e de dentro das sedas que lambem os livros respiras tu
em eternos sopros de dádiva e saber
em cascos húmidos de humanidade

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
com livros livres de lombadas e paginação
perto das memórias intemporais do amor
em que se cedem cópulas alquímicas e misteriosas

sei que algures dentro de nós existe uma biblioteca
em que se a cuidas, casa-alma, dita-la para mim
e o graal surge, em forma de beijo
imponente, cristalino, honesto e unicelular

(são as salivas dos livros que não li e me mostras
os desejos de sorver o palato da tua biblioteca)

e sem falar mais de livros,

falemos de amor…

aquele tabu em que se diz nada se poder definir

pois eu defino o que sinto na saliva das palavras - simbiose comunicacional - que o amor sou eu
em forma de nós
como um copo de mar sem peixe
como um copo de mar com peixe
como mares sem ou com copos

porque o graal eu descobri
é seda preta e distinta, no recolher sóbrio dos teus medos
na conversão una das tuas expectativas e desejos

ensejo então fundir
abraçar a morte física como gás que respiras

porque posso

porque sim

porque quero

- lembra-te que sou alquimista –

e da distância faço a cama de lavado
e dos ossos obtenho abraços
e de todas as bibliotecas de todas as existências em todos os mundos manda o amor

e o amor sou eu

e eu apanho a natureza no coração com uma rede indestrutível
e sôfrego toco-te um dedo
o dedo sensível com que intuis as coisas do mundo de todos os mundos

e se há mundos que desconheces, eu - alquimista-bibliotecário -
dilacero o peito

rasgo-me ao meio

sou um corpo-casa da alma-biblioteca

lê o que quiseres

tirem-te o pão,
tirem-te membros,
tirem-te alegria,
tirem-te o que amas, tirem-te a luz
e a esperança, tirem-te o riso e aquilo a que chamas de vida,
tirem-te. a ti.

façam o que fizerem, tirem-te o que te tirarem,
nada disso conta
pois vens a meu peito aberto e lês o que quiseres



e se nada nessas palavras te afagam
encosta o teu rosto ao sangue quente do meu peito
e segredar-te-ei que te amo

que tu és tu

e que és quem amo

livro de mim

livro de ti

livres em nós,
no amor universal


Miguel Barroso

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

SETE DIAS VEZES POESIA (II)


O VENTO E AS PEDRAS

Era Céu, era serra.
Uma cruz, uma Rosa.
E eu vi, sob a terra,
Uma lapa, uma lousa.
Era Céu, era flava.
Pela cava, Zulmira.
E a aragem tocava
Uma corda, uma Lira.
Algo é verde, ela é vedra.
É do béu. Qual adobe?
É o Vento, que é pedra.
E é Alma que sobe.
Algo é vau, que ela é vela.
É o Espírito e roca......
Uma nave, uma bela,
Uma Rosa na boca.
 
 
Paulo Brito e Abreu