sexta-feira, 31 de agosto de 2012

BLOGONOVELA EM CINCO EPISÓDIOS (IV)



TIBI

 IV

Não muito longe da barbearia Portista, do lado oposto do quarteirão, Tibi esfrega energicamente o baixo rosto de Laurindo, camionista sem importância para o desenrolar do conto. Para Tibi, só há dois tipos de pensamentos. Quando pensa em Nela e quando não pensa em Nela. Neste momento, enquanto esfrega o rosto acabado de barbear, é nas coxas dela que ele pensa. Enlouquece-o vê-la vestida com calções de futebolista. As pernas fortes e firmes da Nela. Tudo é firme naquela mulher. Firme e resoluto. “Que bom seria ser atropelado por ela, esfregar-me nela, mergulhar nos pêlos húmidos do seu sexo.”
Sempre que Nela se cruza com Tibi e Susana, e apenas na presença dos dois, ela tenta-o sem pudor pelo que Susana possa pensar. Engano tolo de Tibi, porque Nela escancarava-se sempre, mas à sua mulher, como um macho pavoneia os músculos diante da fragilidade feminina.
- Tibi! Tenho a cara a ferver, homem! A ideia é refrescar a pele, não é esfregar até esfolar!


DuArte
 



quinta-feira, 30 de agosto de 2012


Gastronomia molecular

Agora me lembro da boa da dona Fifi que, ao levantar voo, perdeu a dentadura e só a encontrou no dia seguinte, na cozinha, colada aos dentes de um bife-sola caseiro. A festa do reencontro foi larga e demorada, um beijo em cada dentada; a comezaina foi farta e prolongada, com a prótese dentária sentada à mesa do rei. Num dos cantos da sala, jazia um copo redondo onde ainda se podiam ver estilhaços de um bolo de um rei-presidencial meio salivado no bordo da fronteira. O destroço teria sido cuspido na altura do acidente por instinto fatal. Dizem as testemunhas que foi sem peso na consciência, só para agredir um certo biltre traidor à mátria em fuga para Leste. À dona do copo de água até lhe saltou uma mola de aço inolvidável, quando sentiu do amargo da notícia. O valete de copas ficou tão altruísta com a situação que, se tivesse ali uma pistola, não hesitaria em doá-la aos amigos dos inimigos do alheio, que a usariam para intimidar os assaltados por dúvidas. As armas têm uma grande pontaria, na ponta são boas amantes porque resultam de uma plasticidade razoável, segundo a filosofia de Sun Tzu. Por isso, todos os amigos da sabedoria se sentem sábios, quando têm uma arma na mão – é como que se vivessem num estado afectivo de concubinato duradouro, pacífico e auto-infligido, numa relação com um karma letal. Todos os amigos da ciência têm a palavra técnica nos lábios roxos de provar o sabor da cisão do átomo e os efeitos colaterais das bombas de hidrogénio.


Joshua Magellan

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


EDIMBURGO 

Desde a faculdade que me recordo de querer conhecer Edimburgo, cidade literária por excelência. Talvez por me remeter para autores que escolhi ler, como Conan Doyle ou Stevenson, ou para outros que me foram impostos. Sir Walter Scott é um desses casos. Ainda que lhe chamem o pai do romance histórico, Waverley, nunca fez as minhas delícias. O que verdadeiramente me delicia é Edimburgo. O seu castelo saído do um conto de fadas, os calmos parques (meio jardins, meio cemitérios) com os seus bancos a pedir descanso, as inúmeras lojas de roupa vintage e as muitas vielas e becos com histórias de casas assombradas. Não me surpreende pois que tenha sido esta a escolha de J.K. Rowling para as aventuras de Harry Potter. E, em momentos de melancolia, imagino-me a percorrer a Royal Mille uma e outra vez ou a tomar um coffee cream num desses dias cinzentos na Prince's Street enquanto me preparo para me perder numa das muitas livrarias. E quase me sinto feliz.


 Carmo Miranda Machado

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Palavras Versadas



O teu candeeiro fugiu
deixou apenas os murmúrios das conversas
que a meio demitimos.

Deixou a água podre dos
nossos corpos suados

O teu candeeiro
deixou-nos em fuga
da nossa própria luz.

Abandonou a carne fria, nua, louca

Fez-nos alquimistas :

- a cantar fogueiras no fundo do mar
- a plantar montanhas inacessíveis
- a sangrar dos lábios que diziam sim
- a lançar pedras ao azul infinito
- a lamber baloiços estáticos
no eco da escuridão

Mas,
mesmo assim, paremos...

eu compro-to outro
e ilumino-nos

uma e outra vez


Mguel Barroso

sábado, 25 de agosto de 2012

Crónica Benzodiazepina


Pessoas para todos os gostos

Não me cativam as pessoas certinhas que nunca pisam o risco, incapazes de um gesto mais ousado e que passam a vida a tentar reprimir os outros. Do mesmo modo, não gosto dos arrogantes que sabem sempre tudo sobre qualquer assunto. É ouvi-los falar doutamente sobre todos os temas com igual determinação e, tantas vezes, dizendo uma sucessão de asneiras. Estas pessoas gostam tanto de se ouvir que jamais conseguem escutar os outros.
Irritam-me também as pessoas que se acham perfeitas e que tratam os outros abaixo de cão.Gosto de pessoas normais que tenham dentro de si medos, fragilidades, forças, dúvidas, certezas, sonhos, pesadelos, sombras, luz, bondade, maldade, riso, choro, contradições. Gosto de pessoas bonitas, feias, altas, baixas, que falem, que ouçam, que façam merda, que tenham capacidade para se rir de si mesmas e que não sejam sempre tão boazinhas que até enjoa ou tão filhas da mãe que até chateia.
Porque ninguém é simplesmente preto ou branco. Somos uma mistura de tantos sentimentos que é impossível não haver dualidades e hesitações dentro de nós.


Missanga

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

TIBI - BLOGONOVELA EM CINCO EPISÓDIOS (III)



TIBI, O BARBEIRO DA CARVALHOSA

 III

 - Gonçalves! Grande noite! Se não fosse aquele filho da puta do árbitro, os gajos mijavam-se em campo.
Gonçalves não podia responder. Aquela risca estava a trocar-lhe as voltas. Sentados no sofá, em fila, à espera de tosquia, três crianças da obra do senhor Padre aguardam. José é funcionário da Obra e todas as quartas-feiras leva os meninos necessitados para uma aparadela ao Gonçalves. Irritava-o a figura de Joaquim o pinante. Aquela linguagem perante as crianças era um excelente motivo para meter conversa.
 - Agradecia que tivesse mais tento na língua. Se não for pelos outros, ao menos porque está na presença de crianças.
 - Ai foda-se! – disse Jacinto, ainda antes de José ter terminado a última frase - Só me faltava esta! Queira desculpar-me mas as caralhadas também fazem parte da criação. Pergunte ao senhor Padre!
Os miúdos riam à socapa, sob o olhar grave de José. “Esqueceste-te dos demónios, cabrão” – Disse José para dentro, mais que arrependido por antes o ter dito para fora.
Gonçalves não estava ali. Muito curvado, parecendo ainda mais baixo do que aquilo que já é, de secador numa mão e pente na outra, batia-se com o cabelo rebelde de Francisco, filho bastardo de Ofélia, a única prostituta de Alfarelos.


DuArte

quinta-feira, 23 de agosto de 2012



Passadas

Suas mãos silenciadas abrigavam jacintos perfumados, Jacinta sentia, a cada passo, a leveza de um tempo perfeito, de estações, de uma flor que renasce em seu esplendor, intocável e alvíssara. Mulher majestosa. O filho enredava brincadeiras, noticiando os boatos da pólis, a ele não lhe passava nada, nesse mundo cão, a impunidade anda de vento em popa e as consequências são bastante tumultuosas. Cidades nascem aqui e acolá, com muitos personagens alvejados. Você bem sabe, madre, confunde-se até fala com prosopopeia, e metem-se os pés pelas mãos. Naquele momento da minha vida, não queria me confessar, nem mesmo fazer a primeira comunhão. Sim, sei que fiz tardiamente, mas jamais me declarei uma ré confessa, não condiz com meu estado de espírito, madre, soa falso, como levantar falso testemunho sobre mim mesma, o mundo pesa nas costas, a alucinação, madre, desafia minha mortal condição, sinto-me como atlas. Atlas existe, madre? Os gregos acreditavam que sim, nós descendemos de romanos e cremos em expiação, tem gente até de reza forte que vende sua mercadoria, madre, paguei até minha dor de existir, a rezadeira disse que era encosto, coisa ruim, moça, esse nome não lhe cai bem, tem de trocar o nome, moça, atrai defunto, assombração, coisa morta, moça, tem que tomar banho de folha, a reza vai ser "braba". Fiquei assustada, madre, quem não se assustaria! Fiz tudo que a dona da reza mandou, as coisas pioraram, meu corpo foi secando feito folha que se desmancha quando pisam, não suportava uma galhofa, madre, fui ficando sisuda e indigesta. Tomei gosto pela vida, madre, uma vida distinta, distante de tudo; alheia ao mundo, alienei-me. Esse gosto insípido é meu remédio para o nada, por onde passo deixo pegadas, meu filho imaginário comunica minha caminhada e as palavras não saciam minha fome alterada.


Manuela Barreto (Brasil)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012



Uma tara

Alguns pensamentos, depois de ler White Jazz:

Dave tem uma tara pela Glenda. O termo foi usado pelo próprio Ellroy, na noite das filmagens, quando Dave a viu pela primeira vez, ao longe. -"Uma tara", repetiu Ellroy, noutras ocasiões.
A Glenda e o Dave em conversas, no apartamento de Los Angeles, noite dentro. (sexo).
Dave é advogado, é tenente do LAPD , é corrupto. Tão corrupto...
Tem pinta, sabe falar. Pensa muitas vezes na Glenda. Tantas, que nos leva a imaginar que ela também pensa nele.
Já provou de tudo e não receia grande coisa.
Teme, isso sim, que Glenda deite tudo a perder, que é o que pode acontecer se se puser com futilidades grosseiras e previsíveis, do género: "Amo-te, Dave"!


Iolanda Bárria

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Palavras Versadas


CIDADE-RAPAZ 

quero viver contigo
numa cidade-rapaz
e jantar num restaurante situado no ombro
talvez mais tarde um passeio pelo peito
esconder-me contigo na floresta do peito
oh mas nunca conhecer
esse rapaz que é cidade
nem o seu coração que bate como trovoada
a sua insanidade saudável
mas no final do dia
quero deitar-me contigo
ouvindo a sua respiração suave
{entrando na sua respiração aí suave}
e falar para esta cidade
em forma de corpo indecente
esperando suas reacções mais espontâneas
seus sonhos mais nefastos
e quando a cidade acordar
fingir-nos-emos
mitológicos como a dissolução
dos cúmplices
e viveremos atrás dos olhos
num interstício da alma.


Sylvia Beirute

sábado, 18 de agosto de 2012

Crónica Benzodiazepina



Adeus tristeza

Não me lembro se já escrevi sobre ele, mas a verdade é que tenho por ele uma enorme admiração. Ele, neste caso, é o Professor Júlio Machado Vaz. Já tive oportunidade de falar com ele, numa tertúlia, e a admiração que já sentia, aumentou. Gosto do seu riso franco e bem-disposto, da maneira como coloca as questões e as desmistifica. Simplicidade é o termo que me ocorre. De vez em quando espreito o seu blogue e é sempre um prazer. Hoje encontrei um post antigo, onde escreve: A tristeza tornou-se obscena (…) numa sociedade que abomina a angústia e a degola à força de pastilhas…
Não posso deixar de pensar sobre isto. Estar sempre triste pode ser um indício de algo mais grave. Estar triste de vez em quando faz parte. Quando a tristeza chega – e, inevitavelmente, ela acaba sempre por chegar - por vezes tento enganá-la, não com a pastilhinha mágica, mas nas lojas. Faz bem à alma (e mal à carteira). Há alturas em que funciona. Quando é uma tristeza maior, acabo por me render e deixá-la ficar uns tempos, sabendo sempre que está de passagem. Não lhe dou confiança para se instalar definitivamente. Se tenho de senti-la, sinto-a, vivo-a, e depois deixo-a ir. Há sentimentos que não podemos evitar e só nos resta aprender a melhor forma de lidar com eles. E isso só se aprende vivenciando-os.


Missanga

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

TIBI - BLOGONOVELA EM CINCO EPISÓDIOS (II)


TIBI, O BARBEIRO DA CARVALHOSA

II

O argumento desenrola-se deste modo: Tibi gosta de Nela, Nela gosta de mulheres. Nem de propósito, apaixonou-se por Susana, mulher de Tibi. De baixo para cima, mal Tibi sai para a barbearia, depois de deixar os filhos na escola, mal o portão se fecha, Joaquim, marido de Jacinta, faz a visita matinal a casa de Susana para “aliviar os tomates”, como gosta de pensar, de si para si, mal a deixa ao seu abandono. A mulher de Joaquim, a Jacinta, não gosta de ninguém. Vive para o filho, Hugo, mas nem por isso se sente menos infeliz. É assim há anos e não se espera que mude tão cedo.
Joaquim é conhecido como “o pinante” do alto da Carvalhosa. Toda a gente o sabe, principalmente Gonçalves, dono da barbearia “Pedroto”. Dantes só havia uma barbearia em Alfarelos, a “Barbearia Portista”. Depois da grande zanga de 89, por causa de uma substituição mal conseguida por parte do treinador Ivic, o monopólio, das barbas e dos cortes de cabelo, dividiu-se. Gonçalves é o Rei da risca ao lado, Tibi é o príncipe da risca ao meio. A Vila também se dividiu, nos cortes e na apreciação da arte de cada um. Joaquim é cliente de Gonçalves e é para lá que se desloca depois da visita a casa de Tibi.


DuArte

quinta-feira, 16 de agosto de 2012



But... Why?

A ligação directa entre esta pergunta e o reino animal começa a fustigar-me. É abusivo. Já chega. Já percebi a ideia. Os animais permanecem na idade dos porquês e os humanos conseguem prever o futuro. Porreiro. Primeiro foi o desgraçado do sapo de uma fábula do meu imaginário infantil que, picado pelo raio do escorpião que tem tanto de falso na sua retórica como de verdadeiro na sua natureza, se encheu de dúvidas. «Mas, porquê?» Porquê o quê? Como porquê? Como haveria de acabar uma fábula que mete um sapo e um escorpião? Com juras de amor eterno? Com romance inter-espécies? Até bastava dizer «Era uma vez um sapo e um escorpião». E pronto. É essa a sua natureza. Ponto.

Depois foi um tigre no Ismael do Daniel Quinn que passava os dias às voltas na jaula a perguntar: «Mas porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Ele não consegue analisar a pergunta nem alargar-lhe o âmbito. Fica interminavelmente a perguntar o mesmo. «Se fosse possível perguntar à criatura: Porquê o quê?, ela não seria capaz de responder. E no entanto, a pergunta arde na sua mente como uma chama inextinguível». Que foi o que me aconteceu a meio do visionamento de "Encounters at the end of the World" durante a sessão de abertura do "IndieLisboa". Estava eu para ali sossegado a deleitar-me com o tom da narração e com as personagens do documentário e lá vai disto. Apesar do Werner Herzog sossegar as hostes logo de início, assumindo que não ia fazer um filme sobre pinguins, o sarcástico germânico não resistiu e lá aparecem uns quantos. E se mete bichinhos, estava mais que visto, tinha de meter a "stalker question", pois claro. Um baralhado pinguim captou a atenção do realizador quando se afastou do seu grupo e seguiu rumo às «distant mountains, to certain death, with a singular determination. But... Why?», e fica a questão em suspenso. O Herzog que me perdoe, que eu cá delirei com o documentário. Mas daí para a frente, o raio da questão ardeu na minha mente com a chama inextinguível do tigre do Ismael. O que é certo é que a pergunta me persegue. But... Why?


Bruno Vilão

quarta-feira, 15 de agosto de 2012



Pinga-amor!

Romeu Sem-Elles, 38, ao Diário de Cuiabá: "Toda a vida fui um pinga-amor e isso prejudicou-me deveras. É uma doença corrosiva, que me impede de seguir um percurso normal e me atira, há anos a fio, para desgastantes sessões de análise. Lutar contra a condição de pinga-amor tem sido a grande batalha da minha existência".

- Desassombrado, este Sem-Elles, não? Isto é praticamente uma lição de vida! Quantos pinga-amor sairão do armário depois de ler isto?

- É! Certos apelidos não condizem mesmo nada com quem os carrega. Por outro lado…, o que explica que esta criatura tenha decidido ir viver para os trópicos?


Iolanda Bárria

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Palavras Versadas


urgência permanente

eu não quero que te demores a saber por que estou aqui.
eu não quero que explores segredos que nunca encobri.
eu não quero que decores a casa nova que nos construí.
eu não quero que me mostres cores que nunca descobri.
eu não quero que me mostres as cores que eu já esqueci.
eu não quero que te compares com o que eu já vi.
eu não quero que me dês flores na data em que nasci.
eu não quero desses amores que dissecam a vida que vivi.

eu só quero ser urgente em ti.
eu só quero ser urgente em ti.


Renato Filipe Cardoso

sábado, 11 de agosto de 2012

Crónica Benzodiazepina


FEIRA DAS ALMAS

Sim. Gosto de ir. Aos sábados menos. Às terças mais. E de lá veio a minha mala vintage de pele castanha que tanto adoro e que as minhas amigas tanto invejam. Ou o meu chapéu anos 30 que uso em momentos de loucura.
A Feira da Ladra é o único sítio em Lisboa que me transporta para Portobello Road ou Camdem, locais a que me habituei a visitar quando vivi em Londres ou sempre que lá volto. Embora o ar por cá seja assustadoramente decadente em vez de "trendy", a verdade é que não deixa de ser um toque irreal nesta cidade de centros comerciais à pinha, ou pior, de supermercados gigantes onde já se pode comprar tudo.
Chamavam-lhe Feira das Almas, por causa dos muitos sapatos que por lá se vendiam. E os sapatos têm alma, eu que o diga. Mas parece que agora já ninguém compra sapatos na feira, dizem-me algumas velhotas vendedeiras que ali vendem há mais de vinte anos. Agora, na ordem do dia estão os telemóveis, os carregadores e outros acessórios, as pilhas e cartões de todo o género e os cds.
Mesmo assim, não consigo deixar de lá ir saborear. Há por ali uma sensação estranha que resulta da amálgama do novo com o velho, numa decadência reconfortante que só se encontra no Campo de Santa Clara, com a cidade a acordar e os passeios repletos de coisas do outro mundo, de outras gentes, à mistura com coisas e gentes deste mundo.


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

TIBI - BLOGONOVELA EM CINCO EPISÓDIOS (I)



TIBI, O BARBEIRO DA CARVALHOSA

I

Tibi é barbeiro e anda sempre com o nariz vermelho. Gonçalves, o irmão, também é barbeiro mas tem o nariz de cor normal. Tibi tem problemas com o sangue que só muito a custo lhe chega às extremidades. Todos os dias, antes de se deitar, Tibi esfrega vinagre nas pernas, nos braços e no nariz. A mulher de Tibi detesta o cheiro a vinagre. À noite, quando se deitam, há sempre motivo para banzé. Nela, a vizinha, detesta barulho. Queixa-se por ser solteira, por ter um quarto paredes meias com o deles. Vivem todos numa casa antiga dividida em três partes: na parte da frente, incluindo a fachada da casa, vive Tibi, a mulher e mais dois filhos. As traseiras da casa, onde vive Nela, são mais ou menos do mesmo tamanho, mas tiveram direito a um tanque de pedra e um jardim. Na parte debaixo ou cave, um casal, Joaquim e Jacinta, mais o filho Hugo, partilham uma minúscula cozinha, uma saleta e um quarto sem roupeiro. As roupas de vestir têm-nas pousadas nas cadeiras da sala. São poucas as roupas e, quando se sentam para comer, pousam-nas aos pés da cama. Em frente à porta de Joaquim existe um pequeno terraço, onde se cruzam todos os habitantes da casa para entrarem e saírem do condomínio.


DuArte

quinta-feira, 9 de agosto de 2012



Corpo Dócil

Não há quem imagine tal cena da vida cotidiana. Uma criança linda, com formação física perfeita a observar a alegria da família diante de sua chegada. Não entendia nada, nem sabia onde estava. O branco lhe excedia. Uma sombra envergava-lhe a alma. Deram-lhe o nome Zofar. Seu choro era contido, similar a um gemido, o corpo se contraía no ato, tamanha sua força. O berço estremecia. Nos primeiros dias, a mãe sentia muitas dores ao dar a mama, algumas vezes, desfalecia. Após o nascimento dos primeiros dentes, precisaram mudar a alimentação. Os primeiros brinquedos, dilacerados, terminavam no lixo. À medida que Zofar crescia, sua força se intensificava e sua mente se esvaía. Não se relacionava com as outras crianças, suas vontades próprias se sobrepunham às regras de convívio social. Os brinquedos foram substituídos, tudo se tornara o inanimado destrutível. Zofar não falava, grunhia. O que mais impressionava nele era a sua beleza, digna de divinização, um ser que incorporava símbolos opostos. A história de Zofar similava à estória de “a bela e a fera”. O espelho refletia a face límpida de uma prisão absoluta. Conter tais características como uma anomalia irreparável não era nenhum conto de fadas. Após exames médicos e pesquisas, nenhuma resposta foi encontrada. Ainda na infância, a triste criança fora acorrentada em prol da segurança de seus familiares, os quais, mesmo em tais circunstâncias, dispunham de tamanho amor por aquele estranho particular. Assim fora a existência de Zó, apelido dado por seus entes queridos. Há histórias que findam numa página, mas ninguém pode prever a temporalidade de uma realidade amarga. Este narrador compadecido diante dos fatos testemunhados retoma o fôlego para continuar a prosa.
Com as mãos e os pés atados, Zó recebia os cuidados de uma assistente, a qual lhe dava banho, trocava-lhe as roupas e lhe satisfazia fome e sede. De viver, de liberdade. Palavra esta que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda. Zofar não desvendou o mistério de tal vocábulo, apesar de representá-lo muito bem em condição adversa. Cresceu. Tornou-se um adolescente solitário, isolado do mundo. Acredita-se que ele tinha o seu modo de expressão, entretanto, este não condizia com os costumes da sociedade contemporânea. No período primitivo, seria cultuado como um deus ou fariam dele um caçador nato para saciar as necessidades dos mais fracos. Fruía nele o absurdo, um Sísifo às avessas. Não adquirira as astúcias para driblar o destino, o vazio da lucidez instalara-se na parte mais indecifrável do organismo humano, através do qual se transita pelo corpo social. Optou-se pela retirada das correntes. Eis o contraste que permeia o absurdo. Zofar ficava num quarto trancado e recebia toda a atenção necessária, mas rejeitava qualquer tipo de afeto mais íntimo. Há momentos em que a sina se personifica no sujeito de forma tal a não haver finitude de sofrimento. Diria o imortal Albert Camus, onde reina a lucidez, a escala de valores torna-se inútil. No homem absurdo, a loucura e a morte são aspectos irremediáveis. Ele não escolhe. Zofar, com voracidade do seu vigor, destruíra todo o quarto. Aos quinze anos de idade, fora inserido numa jaula, qual um leão absorto em meio à selva de pedra. Domesticá-lo seria um ato vil. Vivera assim até completar a maioridade, nascera desenganado, morrera tranquilo em berço de aço.


Manuela Barreto (Brasil)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012



A vida é uma festa

Há dias em que acordo com a convicção absoluta que o mundo é uma festa, que a vida é uma dádiva preciosa e que tenho o dever de ser o mais feliz possível. Habituei-me, desde cedo, a não depositar nos outros a responsabilidade da minha felicidade. Nem sempre é fácil. Nem sempre quero admitir que se as coisas me correm mal, talvez seja porque não me esforcei tanto como podia. Nem sempre me apetece aceitar que, na maioria das vezes, quando alguém me trata com menos consideração, foi porque eu o fui permitindo. É sempre mais fácil colocar as culpas nos outros, no azar, na vida, no acaso. Todas as acções, mesmo as passivas, provocam reacções. A vida, os outros, retribuem-me exactamente aquilo que eu dou, aquilo que eu permito. É verdade que há verdadeiros azares e pessoas com má índole. Como também existem golpes de sorte e anjos no meu caminho. Uns contrabalançam os outros. O resto, o dia-a-dia, é o reflexo das minhas escolhas, das minhas vontades conscientes ou inconscientes. Pesando tudo, tenho muitos anjos junto de mim e a vida é realmente uma festa.


Missanga

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Palavras Versadas



Viagens num plano inclinado

Sempre vi o mundo
ao contrário do que devia ser visto
sem ver o que para lá do meu olhar se evade
o mundo inteiro em volta de si mesmo a busca
da razão no aroma de um cravo perdido na aragem
seguindo viagem para nos levar daqui
para chegar mais longe do que apenas ficar
a viajar sem sair do mesmo lugar.

Sei ir ao Brasil e nadar o mar inteiro
porque enquanto nado penso e nado pensando
eu queria mesmo era viajar num comboio
numa locomotiva a vapor de carvão negro
com passageiros de primeira na terceira classe
e chegar ao fim de cada viagem e dizer 
altifalante a toda a gente:

Sempre vi o futuro do mundo claramente
visto a partir destas linhas paralelas.


Joshua Magellan

domingo, 5 de agosto de 2012

Provocatio



É consoante, é o que é!

É cada dia sua ideia!
Irra!
Agora isto, amanhã diferente...

Não te aborreças com isso Vi,
cada um é como é, e já se sabe que o Matheus é... consoante muda!

(talvez com o acordo ortográfico ele mude)


Iolanda Bárria

sábado, 4 de agosto de 2012

Crónica Benzodiazepina



CARTA DE DESPEDIDA

Às vezes tenho tendência para as inseguranças, as incertezas, as imbecilidades, as infantilidades... às vezes esqueço-me de que não tenho assim tão mau feitio e deixo que me pisem. Mas hoje apercebi-me de que era hora de me tornar visível. Vou deixar-te porque estou cansada da tua imaturidade, dos teus jogos... Mas até lá vais perceber que, apesar do meu metro e sessenta, uma pessoa é alta quando sente que é alta e está provado que nos podemos sentir altos se olharmos para os outros de cima para baixo, coisa que nunca me habituei a fazer.
Hoje acordei com a sensação de que poderia, com facilidade, largar a minha vida sem fazer barulho e meter-me noutra. Tudo no silêncio das seis horas da manhã e perante uma total ausência de gravidade.
Tenho isto a dizer-te: és imaturo, inseguro, indeciso e pouco empenhado. Não é que eu quisesse um lambe-botas. Nem tenho nada contra aqueles homens que lêem nos olhos das suas mulheres. Mas tu és impressionantemente atrofiado emocionalmente.
Sei que o meu grande defeito tem sido a minha total incapacidade de ser bruta, mas só até aqui. A partir de hoje vou tornar-me, com a tua preciosa ajuda, uma verdadeira cabra. Por isso, "get your tongue out of my mouth, I'm kissing you goodbye".


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 3 de agosto de 2012



As palavras pela casa

“...su vida junto a los dioses y su intimo impreciso en el fuego lento de la última palabra.”


Todas as suas palavras estavam pela casa, diluíam-se no medo de serem ouvidas. Fugiam a esconder-se nos cadernos fugindo do pavor de serem lidas. Ela tinha gavetas e gavetas cheias de palavras, ela tinha cadernos e cadernos de apenas palavras, palavras muito ordenadas, muito guardadas. Ela tinha cómodas com gavetas, cómodos e cómodos de cheios de cómodas com gavetas. Todas elas com palavras, com papéis cobertos de palavras, com tinta corada de sentidos. Tudo eram palavras escondidas, mas nem sempre o tinham sido. No acto da sua criação, todas elas foram palavras livres. Todas em busca de se prenderem aos papeis para se libertarem nas mentes em cores, perfumes, sensações, em imagens a todas as dimensões.
Ela vivia agarrada pelas palavras a vida das palavras, dormia com as palavras em sonhos espalhados por todas as narrativas. Eram cadeias e cadeias de palavras presas a uma mesma estória. Um enredo de palavras que se enredava na memória. Por vezes, as palavras dormiam em tramas complicadas e acordavam em almofadas de suspense. Eram palavras com ascendente, palavras que trepavam até ao cérebro do leitor, palavras fortes que se repercutiam até o subjugar. Eram ideias como elos encadeados numa teia de palavras iguais a elas.
Nunca aquela mulher soltou uma palavra que não fizesse correr tinta. E todos os papeis que dela se aproximavam, não passavam sem passar por uma mácula de tinta fresca. Tinta torrente de ideias, como cachos de uvas inchados de promessas de vinho novo, um néctar de palavras sumarentas e inebriantes. Nos momentos de musas, as suas palavras dançavam em redor das ideias, poisavam sobre o papel em laivos de uma tintura azul e desenhavam passos de dança em riscos transversais. Noutros, dias calmos, ela escutava apenas o som das palavras, deixava-as vir de mansinho embalar o seu sono nos braços da imaginação. Despertava no limbo da fantasia, ao som dos chilreios das andorinhas que a cumprimentavam, num bater de asas, arriscando um cruzamento acrobático. Então, ela esquecia a ortografia as palavras e acariciava-lhes a sonoridade, adulterando-as para as poder decompor em notas de diversas tonalidades, recompondo-as por fim em acordes suavemente matizados – apenas silêncio e ritmo.


Joshua Magellan

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


Sonhos rasgados

A cozinha, quadrada e escura, tinha apenas uma pequena janela numa das paredes de barro que um dia já haviam conhecido a alvura da cal. Na parede oposta uma porta com postigo. Uma mesinha, cinco cadeiras pequenas e uma bancada com louça era tudo o que havia. E uma lareira, a um canto, onde o lume crepitava sob uma panela já muito tisnada pelo uso. Pairava no ar o cheiro a eucalipto queimado e a couves cozidas.
“Ouve o que te digo homem, a gaiata é de raça ruim, é malina. Os irmãos todos trabalhando e ela querendo estudar”, desabafava a Ti Mari do Monte, uma mulher de idade indefinida e temperamento amargo. “Há-de abalar para a monda do arroz como os outros para lhe passarem estas finuras. Os três mais novos não vão pôr os pés na escola para não lhes prantarem ideias e saírem de lá a alarvejar como esta”. O pai, sentado numa das cadeiras, mais complacente e carinhoso, veio em defesa da filha Rosinha que, sentada em frente ao lar, lutava contra as lágrimas. “Ó mulher, a desgraçadita só queria estudar mais, gostou das letras... mas sabes Rosinha, nós somos pobres e os pobres não podem sonhar", rematou tristemente. “Sonhos?” Continuou a mãe, “nós carecemos de dinheiro e não de cabeças cheias de vento e de letras que não servem para nada. Quando fores moça casadoira não vai haver homem que te pegue. Nenhum quer uma mulher bicosa como tu e que saiba juntar as letras.” Rosinha olhava o lume hipnotizada e nas brasas viu os seus sonhos ruírem e a réstia de esperança dar lugar à desesperança e os dias de escola ficarem para sempre no passado. Viu os livros que lera e os retratos resplandecentes das senhoras da cidade nas suas roupas formosas e vislumbrou sítios que pressentia mas que jamais conheceria. Viu os seus pés descalços sobre a geada de inverno e os seus sapatos usados de verniz vermelho que a fizeram ficar horas a dançar de felicidade. Viu que nunca devia ter lido um único livro porque estes a tornaram diferente. Pressentiu que o toque dos livros na sua alma jovem lhe fora fatal.


 Missanga

quarta-feira, 1 de agosto de 2012



Damn you, Ted Mosby

Não é por ter a mania de ser um intelectual das letras que prefiro a imensidão das palavras dos livros ao facilitismo direccionado da televisão. Na verdade nunca lhe liguei muito e praticamente só a uso para chamar o sono.

O que é certo, é que o “querido” do Gonçalo, após várias promessas, lá me passou as três primeiras temporadas completas da série “How i met your mother” (e vai começando a preparar-me a quarta, rapaz) e não consigo parar de ver. Ouço os livros a bradar da estante, rabugentos, uns chegam mesmo a saltar, desesperados com a pouco usual falta de atenção.

Mas não há hipótese. Sorvo os episódios de vinte e dois minutos sofregamente e passo os dias a pensar na diferente reacção das personagens perante cada cenário real que se apresenta à minha frente.

Com a inusitada capacidade que tenho de me rir de mim próprio, lanço as mãos à cabeça quando me relembro que passei (há muitos, muitos, muitos anos) pela “Fase Marshall”, sinto uma alfinetada na consciência pelos anos vividos na “Fase Barney”… e deixo escapar um semi-sorriso irónico ao perceber que entro na “Fase Ted Mosby”. E isso perturba-me. Porque nunca fui emocionalmente vulnerável nem quero ter de esperar para ver o que o destino me reserva. E sinto esta coisa estranha crescente que me alaga de ímpetos para actos neuróticos, certamente intimidantes para gentes circundantes, que me poderão considerar um psicótico desgovernado.
Damn you, Ted Mosby! 


Bruno Vilão