quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

2º ANIVERSÁRIO D'O FILÓSOFO E O FANFARRÃO - Provocatio (I)


Santa ingenuidade

Na minha perplexidade catacústica, não consigo entender como chamam “Sua Santidade” a um homem que fez parte da juventude hitleriana. Quem é o mais ingénuo?

Berenice Greco

2º ANIVERSÁRIO D'O FILÓSOFO E O FANFARRÃO - Palavras Versadas (I)


pray-amar

não imaginava ser em redemoinhos
a metamorfose de um tempo insaciado
antes de os teus cabelos pousarem em mim
como uma cidade de gaivotas

a máscara fabricada nos dedos éramos nós
ensaiando mentiras, amplexos esquivos
um quebra-luz de novelos recortando o espaço
éramos nós, enlevados de luz esquecida

segurava todas as coisas na força das mãos
e eram o sobressalto de poder ter-te lá dentro
como o estares ausente petrificasse pesasse
mãos fossilizadas de lés-a-lés, a pedra amnésica

éramos pilares, estavas do outro lado
a lançar pontes aos meus olhos, eu guardava sede
atravessava-te desde o ângulo secreto da coxa
à nuvem suspensa no voo do tornozelo

corríamos velozes, tínhamos o riso das crianças
se acontecia dizeres, crescia-me areia na pele
daí eu fazia de mim um castelo a contemplar
a maré da própria eternidade

no bastidor das ondas algo nos segredava
palavras inanes. acreditei então podíamos ser
uma praia, transportar mergulhos, ter ouro
sonhado e jóias, aguardando o seu tempo de sonhar
musas por dentro, preencher as palavras
com todas as coisas breves que cabem no vento
perfazê-las de caminhos secretos
secretos mapas indecifráveis aos outros
e perdermo-nos nos interstícios cúmplices
nas pregas dos dias que chegassem por carta
escrita por nós, remetida algures, mas que
não leríamos, porque seriam, sonhava eu
(o planalto dos teus ombros diluindo o azul)
um céu de palavras caladas como dunas
tornadas repletas de memória e vontade imutável
de não serem ditas

eis-me, mudo até aos joelhos
salgado na curva maior do dicionário


Renato Filipe Cardoso

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

2º ANIVERSÁRIO D'O FILÓSOFO E O FANFARRÃO (I)


Conhecimento explícito da língua - Aula de português

O " filho da puta"

1. Filho da puta é adjunto adnominal, quando a frase for: ''Conheci um político filho da puta".

2. Se a frase for: "O político é um filho da puta", aí, é predicativo.

3. Agora, se a frase for: "Esse filho da puta é um político", é sujeito.

4. Porém, se o gajo aponta uma arma para a testa do político e diz: "Agora nega o roubo, filho da puta!" - aí, é vocativo.

5. Finalmente, se a frase for: "O ex-ministro, aquele filho da puta, arruinou o país e não só" - daí, é aposto.

6. Agora vem o mais importante para o aluno. Se estiver escrito: "Saiu de ministro e foi viver para França e ainda se acha o salvador da Nação." O "filho da puta", aqui, é sujeito oculto...


Carmo Miranda Machado

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Provocatio


Finais

Os finais são indignos da arte. As obras de arte são sempre inacabadas. Quem as faz, nunca tem a certeza de as ter acabado. Acontece o mesmo com as melhores coisas da vida.


Carmo Miranda Machado

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Crónica Benzodiazepina


(sobre)VIVER

Nos últimos tempos tenho ouvido muita gente responder à questão o que espera do futuro? com um simples sobreviver. Muitas dessas pessoas não estão doentes, não têm dificuldades económicas e, ainda assim, só esperam sobreviver. Ou o meu conceito está errado ou as pessoas esperam muito pouco da vida. Mesmo em plena crise económica, que também sinto na pele, ainda espero muito mais do que simplesmente sobreviver. É verdade que exercer o meu direito à futilidade (que em mim é mais uma vocação), desgraçando-me em sapatos e roupitas, se poderá tornar mais complicado mas, frivolidades à parte, há tanta vida para viver, tantas coisas que se podem fazer sem se gastar muito dinheiro. Ainda por cima as coisas que realmente importam não se compram. Se estivesse doente, muito doente, então sim, desejaria com todas as forças sobreviver. Estando bem de saúde, quero mesmo é viver, muito!


Missanga

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012


À musa que tanto me dá


As musas nunca morrem porque nunca nascem, por isso são eternas – nunca existiram, ou melhor, não existiram, nem existem, no plano de existência autónoma em que as imaginamos. As musas vivem dentro de nós, mesmo que não queiramos, mesmo que não as queiramos. Vivem escondidas no íntimo das pessoas, e nalguns casos nunca se revelam ao hospedeiro. Podemos ilusoriamente ver o reflexo delas nesta ou naquela pessoa, porém, mesmo que as pintemos desta ou daquela cor ou daqueloutra que julgamos serem as musas, não passam ipso facto a ser musas. Se são moinhos, são apenas moinhos, não são inimigos encrespados contra quem invistamos de lança e armadura; da mesma forma, as pessoas são apenas objectos do nosso afecto, não são verdadeiras entidades inspiradoras, ainda que em certos casos se cubram com a nudez das musas. As musas são uma espécie de extensão do que somos, o ideal que queríamos ser em abstracto, mas nem sempre nos agradaria ser na realidade.
Quando nos sentimos menos queridos temos o costume de dizer que perdemos a nossa musa, porque o sentimento de perda nos traz uma tristeza inactiva, não nos traz sangue à cabeça, não nos faz ferver as ideias. Ao contrário disso, as pessoas que investimos de musas ( ou musas reflexas) até nos podem fazer viver, fazer-nos corar, desmaiar, privar-nos do sangue, ou fazê-lo afluir a todas as cavernas do nosso corpo, numa eterna concorrência com as musas reais que albergamos. Mas nunca serão as nossas legítimas musas. Pois, também não é qualidade das musas, perderem-se para além de nós. As musas vivem em nós, perdem-se connosco, nós perdemo-nos com elas, vivemos geminados entre elas, e elas entre nós, habitamos solidários os picos da imaginação e descemos juntos ao abismo do sono. Adormecemos tão conchegados um ao outro. Até nas quedas impostas pela gravidade no auge de uma bebedeira as musas perdem o equilibrio e se estatelam connosco. Ficam de ressaca no dia seguinte. Porém, somos só nós que vemos as estrelas na manhã seguinte; enquanto elas descansam para depois nos agitar as ideias ao despertar. As musas alucinam, como Alice; nós também, quando comemos cogumelos mágicos, minguamos e aumentamos como as musas. Não somos nós que vemos as luzes no céu como diamantes; são as nossas musas que vêem os cristais iluminar-se quando se põem a olhar por nós, de dentro nós, como se fossemos nós a olhar pelo olhar delas.
Há uma musa que vive em mim há muitos anos, tantos que ainda sei contar como foi. Sei que se instalou em formato de livro na minha cabeça, que me dizia tudo o que eu queria saber na linguagem universal das crianças e das musas. Lembro-me de a ter visto de relance pela primeira vez, ao espelho, quando tinha quatro anos, num jogo de ilusões ela escondia-se detrás das minhas caretas para reaparecer alguns segundos depois  no esgar de um sorriso traquina. Nessa altura caçoava de mim: acicatava-me a responder com falácias aos adultos, dizia-me que desmascarasse os cínicos, que denunciasse os hipócritas, que me desavergonhasse e fosse à praça clamar ao povo que o rei ia em pelota, e que o ouro nem na alma se lho via. Desde então está comigo, em mim. Por isso, quando quero falar com a minha musa, desço ao sótão da minha infância e lá está ela, sempre a brincar com as personagens das histórias. A minha musa é uma musa presunçosa e impertinente, uma musa letrada que atravessou tormentas de palavras, cruzou mares de caracteres ortográficos para chegar a um destino já antes escrito. Vive para cumprir o fado de um dia vir a morrer por morrer de parto ao entrar no prelo.


Joshua Magellan

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

JOSÉ AFONSO (2 de Agosto de 1929 — 23 de Fevereiro de 1987)

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JOSÉ AFONSO (2 de Agosto de 1929 — 23 de Fevereiro de 1987)


Era um redondo vocábulo

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa


José Afonso

JOSÉ AFONSO (2 de Agosto de 1929 — 23 de Fevereiro de 1987)


Gastão era perfeito

Gastão era perfeito
Conduzido por seu dono
Em sonolências afeito
Às picadas dos mosquitos

Era Gastão milionário
Vivia em tapetes raros
Se lhe viravam as costas
Chamava logo a polícia

Em crises de malquerência
Vinha-lhe o gosto pela soda
Mas ninguém se abespinhava
Que enviuvasse às ocultas

Nem Gastão se apercebia
De quanto a vida o prendara
Entre estiletes de prata
E colchas de seda fina

Gastão era deste jeito
Fazia provas reais
Gastão era um parapeito
De Papas e Cardeais

Vinha-lhe só por fastio
Nos tiquetaques da vida
Um solene desfastio
Pela mãe que era entrevada

Mandava bombons recados
Por mensageiros aflitos
Não fora Gastão dos fracos
E já seria ministro

Conheci-o em Alverca
Num bidon de gasolina
Tinha um pneu às avessas
Mas de asma é que sofria

Nos solestícios de Junho
A quem o quisesse ouvir
Dizia que era sobrinho
Do Fernão Peres de Trava

Querem saber de Gastão?
Vão ao Palácio da Pena
Usa agora capachinho
E gosta de codornizes

Tem um sinal que o indica
Como o mais forte doutor
Espeta o dedo no queixo
E diz que é Nosso Senhor


José Afonso

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012


Nas nuvens 

Não acredito em almas gémeas, acredito em pessoas que nos levam ao limite.
A teoria da laranja que se separou em duas metades no início dos tempos, espremida não dá nada. E quem anda à procura da sua metade, perde o seu tempo.
 Creio numa outra estória, aquela que nos conta que numa outra era, sem telemóveis, nem facebooks, nem caneta para escrever, o mundo se fez de nuvens, e era só um céu.
E Deus - ou os deuses, ou os anjos, sei lá - meteu-nos em nuvens como gotas que juntas nunca cairiam e se mantinham unidas.
Nesse dia, Ele achou que a obra era boa e pensou cada nuvem como uma conjunção de gotas, cuja química teria mais tarde os seus frutos, quando fosse preciso as gotas cairem na terra e irrigá-la.
Um dia, quando o mundo não era só céu, e havia terra e lama, e árvores e cavernas, as gotas começaram a cair e separaram-se.
E fomos todos amantes, e filhos, e pais, e mães, e patrões, e empregados, e inimigos, polícias e ladrões, putas e santos. Cruzámo-nos com gotas de outras nuvens, copulámos e odiámo-nos, e com essas gotas nunca fomos felizes, porque essas gotas não nos faziam ir ao limite, foram apenas células que roçámos para o nosso crescimento.
Pelo meio dos tempos, felizmente, também nos cruzámos com as gotas da nossa nuvem. E foram essas que nos deixaram marca. São essas que trazemos connosco hoje e que vamos atraindo com a nossa energia.
Irritam-nos. Afagam-nos. Magoam-nos. Amam-nos. Desprezam-nos. Veneram-nos. Fazem-nos rir. Fazem-nos chorar. Não acredito em almas gémeas, acredito em pessoas que nos levam ao limite.
São essas que agora estamos a conhecer todos os dias. Deus achou que era boa ideia finalmente começarem a encontrar-se todas de novo. Ele lá sabe. Só que agora já não vivemos nas nuvens. O céu é cá em baixo e mora ao lado do inferno. Porque trazemos mágoas e culpas, desejos, crimes, angústias e vazios.
Amigos, amantes, namorados, patrões, colegas de trabalho, sem falar na família em que nascemos, todos os dias encontramos mais uma gota que nos aproxima da nossa nuvem. Como saber?
Irritam-nos. Afagam-nos. Magoam-nos. Amam-nos. Desprezam-nos. Veneram-nos. Fazem-nos rir. Fazem-nos chorar. Não acredito em almas gémeas, acredito em pessoas que nos levam ao limite.
A prova está no olhar e quando sentimos uma atracção imediata, fatal, que vem de dentro, como se todas as nossas células quisessem desde sempre encontrar-se com essa pessoa. Para que nos faça ser tudo o que devíamos ser desde sempre. São desafios, e às vezes até nos podem fazer passar vergonhas, fazer-nos sentir fracos, para no fim sermos maiores.
E acontece a toda a hora, nas situações mais improváveis e quando menos se espera.
As nuvens começam a formar-se novamente no céu.
Talvez, então, percebamos que não há duas almas gémeas. Há muitas almas gémeas, filhas da mesma nuvem. Algumas cumprem um destino romântico, outras um destino profissional, muitas já são famílias, muitas hão-de ser amigas. Na mesma nuvem cabem o amor, a amizade, o desespero, a esperança, as lágrimas, os risos e os disparates. Na mesma nuvem estamos em sintonia e ninguém se vai despegar até ao fim destes tempos. Deve haver uma razão.


Ana Santiago

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Palavras Versadas


ápice

há um segundo que se despenha no arrepio da lonjura, um
instante apenas que pintamos de verde até ser beijo
o fôlego solto de uma gaivota e o seu frémito
gutural, o nó curto da garganta, a circunferência
extinta do farol, a vertigem da onda agarrada ao céu
em busca de auxílio, o teu braço orlando
de espuma os meus ombros contraídos como planaltos
a queda da língua sonhando as cores todas sob a íris
ou o arco da pálpebra sonhando o barlavento das salivas
um instante apenas em que desde a curva dos teus olhos
avisto o mar
 
 
Renato Filipe Cardoso

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Provocatio


Lauro e Aniz

O teu cabelo, Aniz, é um poema!

 - Provoca-me de tão desalinhado e vivo,
chega a ser insolente

Não é isso, um poema?

Ainda não chegaste e já ele aqui está, a fazer-se notar e a fingir que não.
Selvagem,como se fosse de ninguém

O teu cabelo Aniz, é mas é um problema!


Iolanda Bárria

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Crónica Benzodiazepina



Felicidade: aceitar o que não podemos modificar?

Antes ser puta que... viver contra os meus princípios, aturar pessoas estúpidas, acordar de madrugada num dia de chuva, perder tempo com quem não o merece, engordar desmesuradamente, votar no Paulo Portas, ser contra o aborto, trair os meus amigos, suportar os discursos de Fidel Castro, viajar em grupos de 50, viver presa a laços injustificáveis, comer orelha de porco, deixar de fumar...

"Não é fácil encontrar a felicidade dentro de nós, e impossível encontrá-la noutro sítio", segundo Agnes Repplier.

Não sei se sou feliz. Sei que vivo com um pouco de angústia, que não crio expectativas desmedidas em relação a nada ou coisa nenhuma e que desejo apenas o que depende exclusivamente de mim. E vocês?


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012


Uma rotina sem descanso

Não: não tenho justificações para as minhas insónias. E quando vem o sono durmo irrequieta. E de dia é sempre a mesma asquerosa rotina. São sempre os mesmos lugares, sempre os mesmos cheiros, sempre as mesmas pessoas, os mesmos corpos, os mesmos rostos, as mesmas expressões. O mundo parece-me tão sem cor e sabe-me a pão sem sal. E tento escrever, tento porque já nada aqui me consola, porque aqui já nada me conforta. Mas que irei eu escrever? Eu, que outrora era feita de certezas e que hoje nada sou senão inconstantes. Acendo um cigarro e penso em escrever qualquer coisa só para me confortar, só para afastar todo o tédio que me corrói as entranhas. Nada. Sigo o fumo com os meus olhos claros e recosto-me na cadeira. (Talvez, se saísse por aí a gritar como um lunático aprisionado num manicómio, fosse feliz.) Visto isto levanto-me e aproximo-me da janela. Olho, com desdém, e constato a monotonia das coisas. E enquanto esfumaço aguardo. Aguardo na esperança (inútil?) de que algo aconteça. Pode ser que exista algo que ainda valha a pena.


Joana Santos

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012


Baile descomandado

Agarras-me, prestes a cair, com o olhar perdido nas sombras. Abraças-me em ondas de cadência suaves. Não temos nada para oferecer um ao outro mas os nossos corpos não sabem. As nossas mãos afagam, os nossos dedos deslizam suaves, os nossos lábios beijam, as nossas ancas embalam-se em movimentos harmoniosos. Não temos nada para oferecer um ao outro mas o corpo diz sim ao que a cabeça diz não.


Missanga

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012


Admirável mundo velho

Estamos sempre bem. O problema recorrente é considerarmos que algures lá fora existe um sítio onde estaríamos melhor.
Quando mudas (tenho pena), mudas sempre para o mesmo. A única mudança significativa seria deixar de querer mudar. Mas, essa mudança implicaria o reconhecimento de que tens tudo. O que te falta? Amor, paz, alegria?
Imagina que não as tinhas. Como poderias empreender um mundo novo, se o teu desejo parte do pressuposto de que não tens matéria-prima. O que terias para oferecer?
Por outro lado, se tens tudo, para que queres então um mundo novo?
Não faz sentido...


DuArte 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O AMOR EM DIA DE SANTO - Provocatio


Ideias verdadeiramente úteis para o dia dos namorados

No dia dos namorados esqueça os ipads e ofereça-lhe livros. Manter a mente a carburar, é bom, mas se o pudermos fazer com uma mão livre, tanto melhor.

Parecendo que não, isto tem a sua importância.


Iolanda Bárria

O AMOR EM DIA DE SANTO


Já começou o dia mais piroso do ano...

...Soltem as rosas, levem-na a jantar, arranjem o cabelo, maquilhem-se, ponham a gravata nova, aspirem o carro, saiam mais cedo do trabalho, escolham bem a lingerie, não se esqueçam da depilação, façam a barba três vezes, lavem os dentes de cinco em cinco minutos, troquem surpresas... Ao oitavo dia, S. Valentim exigiu, em sua honra, o sacrifício do bom gosto e da espontaneidade no amor. E Deus, que estava cansado porque tinha criado o mundo, concedeu-o para não ter de se chatear com o raio do santo. Há quem goste.


Ana Santiago

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

SETE DIAS VEZES POESIA - Provocatio (VII)


A LIVRARIA

sou um livro pendurado em ti.

uma leitura cada vez mais simples.
um espaço sem dimensão.

uno. sensível.

e abro-me por ti
na imensidão do amanhecer infinito.
 
 
Miguel Barroso

SETE DIAS VEZES POESIA (VII)


Concerto Desconcertante

Se um dia a vida correr para onde
nunca sejas o quê Sê antes o nunca
As estrelas brilham firmes no mar
enquanto na terra o vento ainda
e no céu as gaivotas sopram
Os instantes são tempo que não passa
preferem pisar os próprios passos
pensam em cada passo outro mais depressa
Aliás os rios de tinta que correm
são os cabelos do pensamento
As gotas de água foram sempre isso
apesar dos pianos e dos ruídos
quanto à serenidade essa pertence
a uma natureza inteiramente além
a um sofrimento incontrolável
Nunca devemos preferir algo mais ou o tempo
Só se isso fosse antes nós
que nós nunca fomos nem seremos
Queremos sobretudo o que é para quando
como se fosse para lhe...


João Belo

domingo, 12 de fevereiro de 2012

SETE DIAS VEZES POESIA - Provocatio (VI)


Meu querido Ulisses:

És agora no Azul, estás agora rodeado dos filhos e das filhas que atingiste, como Pai, no mundo espiritual. Não existe agora a Noite, e não existe a solidão – e eis o Verbo, ou vilancete, para o presépio do Menino.


Paulo Brito e Abreu

SETE DIAS VEZES POESIA (VI)


AMAR EM PEQUIM

seguir as regras do improviso.
evitar as metáforas.
o abc imaginário.
amar em pequim.
e a sucessão de factos.
a sucessão de factos
faz-me respirar as estranhezas
nos olhos.
um vazio separa um reconhecimento.
o amor tem aqui a sua pequena reserva.
a última palavra.
e é abstracto.
e existe em protesto.
é amar em pequim
com os meus finais tão óbvios.
e uma pequena alteração
é frequentada por uma
grande alteração.
e o que existe? o que sucedeu ao morador
na minha criatividade?
como sobrevive um amor não criativo?
a tempestade de areia
também segue as regras
do seu improviso.
a cómoda situação do resto do mundo
é assinalada
pela cor azul eclecticamente misturada
como o romance entre dois números.
não é possível.
como é possível?
há um pouco de morte aqui
ou então um pouco de felicidade,
felicidade
em quantidade tão diminuta
que só torna ainda mais presente
o seu inverso.
pequim é um vírus.
o seu autodesconhecimento
é a minha arte.
o meu desprezo pela
utilidade prévia de todas as coisas.
e sigo as regras do seu improviso.
evito as metáforas.
o abc imaginário.
sei amar em pequim.
conheço qualquer lugar.


Sylvia Beirute

sábado, 11 de fevereiro de 2012

SETE DIAS VEZES POESIA - Provocatio (V)


lei da rolha

garrafa, copo
por que tardam
em servir as palavras
ao corpo sem escolha?

o papel da inocência
não é dizer
antes dar-se
no vinho em folha


Renato Filipe Cardoso

SETE DIAS VEZES POESIA (V)


o amor começa e acaba sempre

“Era uma vez...”

um príncipe e uma princesa
no olhar dela os olhos do príncipe brilhavam
no azul da estória a princesa esperava um final feliz
negociava com os leitores em letras de câmbio amoroso
um desfecho inesperado

(e declamava tatuada de palavras desbravadas muito antes de Gutenberg)

sou uma alma tipografada à mão
tenho letras desbotadas no meu coração de pasquim
habito no prelo das ideias numa lata de tinta desmaiada
por falta de emoções de primeira página
a minha literatura inclusa escreve-se na intimidade
das letras impressas nas fontes orgiásticas do “Novo Tempo Romano”

(sinto o peso do carvão quando cai sopesado
sobre a brancura de todo o meu espaço informativo)

vivo no suspense da meteorologia
sem tempo definido para amar sobre as notícias do dia
sem espaço mudo para respirar fundo no momento agudo das parângonas
a cada edição sustenho a respiração na fotografia da capa
comporto-me como se fosse uma qualquer uma publicação apócrifa e sem data

(sinto a novidade da crónica vivida e renovada
no relato futebolístico da vida)

vivo no equívoco dos intervalos de tempo que adio
na meia página vendida aos anúncios de contracapa
na gravidade da queda do tempo todo acontecer
nas letras miúdas prisioneiras das caixas de texto
morrerei quando uma notícia caída no vespertino do dia
disser que uma princesa deixou de ler o zodíaco
por ter adivinhado o futuro na necrologia

(sinto que vou saber que morri de todo
umas horas antes do colapso cardíaco estelar)

é pelas palavras tristes que o meu destino viverá
escarrapachado na página de um jornal
ponham-me uma bandeira vermelha sobre a urna
com ou sem foice com ou sem martelo mas que seja rubra
como a carne viva das maçãs camoesas do rosto
como as letras gordas dos jornais desportivos
quando a equipa mais encarniçada marca pontos na taça
e que o ditador decrete na época estival que seja Inverno todo o ano
com as cores sanguíneas do outono passado
quando o meu Inverno chegar ao cúmulo da redacção final
chamem os correctores ortográficos mais severos
os lápis azuis mais austeros e puritanos

(ou mandem desfilar uma colecção de cromos de Primavera / Verão...
eu irei entre eles numa mascarada de mim na passarela
fingindo que nunca escrevi nada assim tão bera)

eu quero ir fria mas sem erros de ortografia
eu quero ficar morta mas muito aperaltada
os olhos mortiços do príncipe trancaram a luz dentro de mim
sou uma princesa perdida no breu de um corredor de fundo extenuado
só ganho ânimo leve no sussurro redentor de um ascensor de imagem
uma bússola nas palavras de um leitor emocionado com o amor carnal

procuro uma saída nos bastidores de uma rede social demo-decadente
para não ter de fazer mais rimas com detalhes de imprensa
tomo uma atitude decente
dispo-me diante do espelho
aflijo-me quando vejo um caracol no pente
significa que a minha vida está por um pintelho

porque o poema só tem uma saída para o amor fodido
nas traseiras de uma folha caída em desgraça pesada
no canto obscuro de uma nova página em banco pintado de fresco
e no fim de tudo o que podia ter sido o fim desce em mim mansa mente
sem ser soprado por uma corrente de ar estilística-mente-dominante

(a pedido de um leitor apaixonado pela poesia auto-erótica manual
os ficcionados amantes cumprem a fantasia final completamente nus)

o amor grava-se por todas as partes do corpo de todos os poemas
as estórias reais cumprem-se réstias de souvenirs de vida
ainda que a princesa seja uma freira transexual em clausura
ainda que o príncipe seja um bento papa romano-germânico
normalmente anormal em pose dita dura
cumpre-se o fado da mesma velha lenda uma e outra vez
o verbo "ser" inicial renasce no cinzeiro de cada madrugada acesa
na memória de uma e outra vez
e retoma o discurso iniciático:

“Era uma vez...”

o amor começa e acaba sempre


Joshua Magellan

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

SETE DIAS VEZES POESIA - Provocatio (IV)


Beijos de Inverno

Uma língua
De mar
Gélida
Arrancada
Ao sal
Da boca
Plena
De marés
Vagas


Joshua Magellan 

SETE DIAS VEZES POESIA (IV)


Uma também recusa

(Exercício de recusa sobre a “Recusa”, de António Maria Lisboa)

É também possível durante as primeiras horas
uma importante viagem rumo ao sonho - essa
é uma das consequências
secretas
em que também não se tomaram quaisquer resoluções finais
e ambas chegaram igualmente

Também um inferno marinho de temor onde eu
Sou também um copo de aguardente francesa e tu
Uma qualquer coisa fria que me passa ao lado e não me leva

Eu também sou uma coisa qualquer
Eu sou também uma qualquer coisa
Sou uma qualquer também coisa eu
Uma qualquer também coisa eu sou
Qualquer coisa eu também sou uma
Também coisa eu sou uma qualquer

EU TAMBÉM NÃO SOU UMA COISA QUALQUER!

Eu sou um beco com (muita) saída
Eu sou a “Errata” do Fernando Aguiar
Eu sou uma curta-metragem de tragicomédia
Onde está o concreto deve ver-se um enigma
Onde estão os meus olhos deve ver-se o naufrágio dos dias
E no meu cérebro
Também há uma porta secreta minúscula


Bruno Vilão

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

SETE DIAS VEZES POESIA - Provocatio (III)


Apertos

Ocorro ao acaso do apelo,
sentado no peito
deslizante do aperto.
Acorro sem sequer saber
se te apanho e me solto
se me arranho e morro.


Bruno Vilão

SETE DIAS VEZES POESIA (III)


O pior poema deste minuto

Todo o silêncio é sulfúrico quando nasce morto o diapasão da normalidade
de bisturi como batuta enquanto esculpia poemas na carne fria

lembrou-se dos estupros dos selváticos monstros encavalitados na sua mãe

entre os silêncios sulfúricos que migravam para as gavetas subliminares
e os uivos com palmadas no dorso do depósito de esperma maternal
seus sonhos faziam greve

um olho suicidário escolhia uma lágrima e escarrava flores de ferro forjado

acostumara-se a desenhar frases bíblicas no torso em frente ao espelho
a agrafar as pálpebras ao som do crepitar dos membros que ia partindo
para pandorar melhor as imagens e assim construir os monocórdicos desejos

um dia escolheu uma grávida e com ela ainda viva mastigou o feto
recordou a fivela do cinto escondida por trás dos joelhos como um diapasão cru
e o sémen selvático de um macho a orquestrar nas cordas vocais

foi o inverno em que as gotas floresceram e o vermelho férreo das menstruações
lhe gatilhou os traumas da putrefacção do paladar cósmico

quando apenas o aroma graálico dos lábios da cidade feminina em decomposição
lhe oferendou uma já muito tardia mas esperada erecção

quando dentro do frigorífico o bolor do funil que lhe servia de expiação o exilou
na apneia castrada das suas projecções patologicamente pintadas nos cadáveres
que congelados simbolizavam a crença de um futuro mais que per si feito

hoje o bisturi não se cansa e fermenta o universo que lhe empareda as sílabas
as sombras unidas pelos joelhos risos sonâmbulos e vedores que caem dos tectos
ecos palpáveis feericamente rebeldes que gritam larvas autoritárias na sua leitura

o punho frígido fogueira-se e mimetiza a catapulta da respiração ansiolítica
ele quer aprimorar a obra mas o devir ainda debita sangue e sabor metálico
como uma anestésica semente desinteressada no caos poético dos mundos
uma sesta ufana -merecida- em posição fetal numa semiendeusada fasquia libertária
orgias oníricas com freiras quentes e pecados elasticamente prazenteiros
constelações de conchas laminadas na purga incessante das percepções pulsantes
estupefactrizes cúmplices no muro de gás cinestésico dos ódios ao amor
os ósculos libertários nas salivas secas do imobilismo cândido e conivente

interessam lá os palácios erigidos que sugam os mamilos das civilizações
interessam lá os demónios que não lhe desnudam a genialidade canforada
ou os felinos amantes que adormecem na erosão suada da plenitude humana
ou as santidades amolgadas pelos avanços tecnológicos das esquinas citadinas

com o clitóris peçonhentamente ébrio entre os dedos em direcção ao inferno da boca
emancipa-se o anacronismo do físico fugaz nas vísceras do arco íris dos anciãos
e surge a vagem cremada pelas rugas desfolhadas da memória dos eclipses

em cada corpo desmembrado correm na espiral dos poros cápsulas de poeira pura

as dúvidas como dívidas incham o mirrar das veias oportunisticamente compreensivas
e crente e extasiado contrata numa flecha os demónios que havia suado

dos silêncios sulfúricos enevoa a loucura pulsante de um abraço o esperma seco


Miguel Barroso

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

SETE DIAS VEZES POESIA - Provocatio (II)


FOUR$EG#JUR

é esta loucura
que me traz
o equilíbrio.


Sylvia Beirute

SETE DIAS VEZES POESIA (II)


CÂNTICO XX

I

Sol d’amoras, só d’amores
( E, ao fundo havia a escada…)
Que de Floras, e de Flores!
Quanta noiva abençoada!!!
Eram ervas, ou Dolores?
E era a Noite, ou Madrugada?

II

Padre nosso é Santo António:
Foi o culto, e o primeiro.
Nunca, nunca, Babilónio;
Sempre, sempre, o verdadeiro.

III

Era ela, e era mansa;
Por a lança, Amor-Ansata.
Foi criança, alor e Esp’rança
Maila dança, ardor e Fata,
- E hoje é riba, ou ribanceira
Na Tertúlia Rio de Prata.
Se eu a trino, e a trauteio,
Certo asseio, ou sete a seio,
Eis o Hino, ou Himeneu
Desde a terra, até ao Céu…
Pois em Nume dessa vela
Ou em nome dessa Fada,
Dizem todas as querelas,
Caravelas, coroadas:
Servas há, e há sequelas,
Como há cervas, e a Amada.
Para todo o Margarido,
Margarita ou Madreugada,
Paz e Bem do teu Marido,
E Amém dar, à Mãe doada.
E a toda a assinatura
E a toda a assinalada,
Pra Belém, minha Escritura,
Parabém, para a criada.
Sôr António de Macedo,
Alva nuvem nacarada,
A Si sede, a Si eu cedo
Albi Castro, e a suarda.
A Maria, no segredo,
Para o Pai, numa pousada,
Eis o tempo, que é degredo,
- E eis o estudo, que é o Nada.


Paulo Brito e Abreu

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SETE DIAS VEZES POESIA - Provocatio (I)


NEOLOGISMO

«Globelização» a era
É presente e futuro
Bela é a Primavera
Não criar é muito duro


João Belo

SETE DIAS VEZES POESIA (I)


Infame Dizedor

Dizer absolutamente tudo como se nos matasse
o estreito horrível em carne fogo.
Abrupto castelo florescendo na barriga sem tréguas
nem torres de pólen, cerco às palavras, mais,
obrigação inteira redonda no afã de construção,
pedra ante pedra de regresso impossível. Golfo
de ar impresente que te não pertence em evasão sonora
pela garganta, contra-tempo de cicatriz imparável,
erosão nos dentes com instrumentos de tortura, céu
órfão de loucura. E uma noção indefinida
de boca. Tenho dito. Que depois
imaginem animais e lhes amestrem nomes, misturem
ternura em pó e água benta, talvez um emprego indecente
com salário e regalias de banho, perfumes treinados
para amar cegamente, que a mulher magra e usada se dispa
de pele à frente do trânsito e das mentiras
estruturantemente opacas do pensamento. Nada disso diz
nada. Não importa. Tudo
tal e qual te disse e repeti e repeti e repeti e repeti
até reverberar nos olhos vazados ou talvez no coração
ausente ou no comboio em vias de extinção ou na última
ceia dos condenados à sorte. Seja
feita a minha vontade. Mete-me nojo o que não digo. Sabes?
Nem tudo no dinheiro se resume à vida. Há tabaco
para além da morte. Fuma, transporta as ideias
cuidadosamente, numa mochila de lona, num sexo elo
quente de mulher palavrosa, ou
num pulmão se preferes. E no entanto. Leva contigo
o que dizer, do que seja outra coisa que não o que disse,
não repitas a morte nem o vazio, não escolhas
as nuvens que usas ao domingo ou no dia do teu casamento,
quando disseres sim
assim seja
seja feita a tua vontade
em nome do pai e da mãe e do espírito que te der
na real gana, ou na republicana. Diz como quem corta as veias
à certeza, ciente de que o passado é imprevisível como
a fotocópia mutilada de um cadáver antigo,
imutável como o sangue a colorir as varandas autoritárias
dos dias azuis de procissão.
Diz sol quando nada mais te aquecer do teu lado míope.
Colhe a mãe para o teu rosto de inverno.
Guarda frutos indizíveis e fome que dizer para quando
fores só e uma única luz no horizonte te
separe da equação altiva do desespero nos pássaros.
Não te cales por amor algum. Nem por promessas. Nem por
desejos de promessas. Ama. Cumpre. Usa.
Sê infame por feitio e devoção e diz bem alto a infâmia.
Afasta os juízes a teu favor, troca-os pela voz
imprevista. Diz. Dá corda aos sapatos para que não sobre
para o pescoço. Salta em andamento, transige
até seres rio, aponta um dedo para o mar e vai à boleia.
Que o medo te sirva de lição.


Renato Filipe Cardoso