segunda-feira, 31 de outubro de 2011

OS CINCO SENTIDOS - O OLFACTO - (I) - Provocatio


Zacarias

Gostava de flores, mais precisamente, dos seus inebriantes aromas. Jamais saía à rua sem uma flor natural na lapela. Desgraçadamente, não tinha o mínimo jeito com elas. Todas as que plantou no seu pequeno jardim morreram antes de florir. Assim, comprava belos arranjos que espalhava pela casa, passeava-se por jardins públicos e privados, sempre de faro apurado e, para desespero e irritação da sua mulher, passava subtilmente por velórios de desconhecidos só para poder sentir o cheiro das suas amadas flores. “Ó homem de Deus, mas tu não vês que as flores dos velórios até cheiram a morte?” Ela não comprendia. Uma flor é uma flor seja em que local for, o aroma que solta não se altera consoante a sua localização geográfica.

" - Será mesmo, Zacarias?"


Missanga

OS CINCO SENTIDOS - O OLFACTO (I)


Um homem que cheira

É uma relação. Leveda à sombra dos restos de um odor agridoce, vagamente nauseabundo, que sugere, mais do que cheira. Pelo menos é o que ela pressente, mas não acusa.

Talvez que lhe seja difícil. O que é um cheiro, em concreto? a que cheira a dúvida?

Aproveitam a relação para armazenar poesia inatingível, no disco rígido. Divertem-se a misturá-la com textos propositadamente ordinários, de um género a que chamam ‘vanguarda corrente’! Só originais. Outras vezes, desenterram frases compridas, com palavras de ordem dos autores semi malditos, que publicam orgulhosos e à vez, no blogue. (O disco rígido e a palavra publicada…).

É nestas alturas que ele lhe parece cheirar menos. Quase nada. É um odor que também se ausenta,

" - o princípio do fim da barbárie, pelo disco rígido?"

É certo que ela ainda prefere as bibliotecas, mas desconfia daquele silêncio e de tanta oferta. Na verdade, não sabe muito bem o que suporta melhor: se um lobo camuflado num odor a cordeiro, se cordeiros dissimulados e a fingirem-se de lobos. Claro que as bibliotecas não são os locais certos para se reflectir sobre tudo isto, pois são pouco higiénicas e tresandam a cordeiro. Há alturas que lhe dá um jeitão ser masoquista.


Iolanda Bárria

sábado, 29 de outubro de 2011

Crónica Benzodiazepina


Pelo menos chove

Por mais que tente, as palavras não me saem da mente, deslizando-me pelos dedos. Por mais que tente procurar outros caracteres, outras letras, outras fonéticas, outras linguagens, estanco-me sempre no local do costume. Chove. Lá fora. Cá dentro. Amortalhado por emoções que nem sequer consigo compreender. Porque não têm tempo nem espaço para desvendarem os seus próprios signos, sinais, significados e significantes. Oh embrulhada linguístico-emocional. Bem... Pelo menos chove. Cá dentro.

E, hoje, são as palavras soletradas pelos Ornatos que me esmagam como imponentes gotas de chuva, por mais que tente ensaiar outros eus e reinventar novos moldes ocultos:

Por querer mais do que a vida
Sou a sombra do que eu sou
E ao fim não toquei em nada
Do que em mim tocou

Eu vi, mas não agarrei
Eu vi, mas não agarrei

Parto rumo à maravilha
Rumo à dor que houver p´ra vir
Se eu encontrar uma ilha
Paro p'ra sentir

Dar sentido à viagem!? Oh caramba, meus caros, isso é que já é pedir demais...


Bruno Vilão

sexta-feira, 28 de outubro de 2011


RAINHA DOS PRADOS

Podia ter-se escapado pelos caminhos secretos que só ela conhece. Podia tê-lo beijado como aprendera com as deusas. Podia mesmo ter-lhe soprado ao ouvido as palavras mágicas. Mas ela nada fez. Limitou-se a abrir-lhe os portões do seu santuário secreto, onde a água e a terra aguardam pelo fogo sagrado para se transformaram e subirem aos céus. Movida por um impulso da sua prória alma, deixou-o entrar sem nunca desviar o olhar. E uma deusa não se deixa olhar assim... Por qualquer razão sublime, permitiu-lhe o acesso aos mistérios do seu mundo, ainda antes do nascer do sol.
Ele regressou a casa, num descampado da vida, certo de mais uma vitória, de mais um desafio, sem o qual não consegue voltar a acordar.
Ela, que nunca tivera dúvidas quanto ao caminho a seguir, ao lugar por onde devia ir, naquela manhã hesitou. Numa manhã em que desejara existir para poder ser abraçada no abraço que ele lhe recusou.


Carmo Miranda Machado

quinta-feira, 27 de outubro de 2011


O meu amante improvável

O meu amante improvável e delicioso adivinha os meus segredos, sabe dos meus desvarios. Amante liberal, testemunha muda de longos beijos salgados, de carícias ousadas, de conversas, de sorrisos, de devaneios. Oferece-me momentos lindos e nada me pede em troca. Dá-me liberdade, mas eu regresso sempre, incapaz de resistir ao seu feitiço. Gosto do seu cheiro forte, de o sentir salpicar-me a roupa e a pele, de o sentir no meu corpo. São os meus momentos de mar, o meu amante improvável.


Missanga

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

JOSÉ CARDOSO PIRES (São João do Peso, 2/10/1925 — Lisboa, 26/10/1998)


Olá, Zé!

Na pilha de livros que amontoo na cabeceira, encontrei ‘Lavagante’. Faz parte dos doze ou quinze que vou picando, em leitura cruzada. Substituo-os, de tempos a tempos.
Lembrei-me de te falar nisto, porque sei que nunca chegaste a conhecer ‘Lavagante’ nesta edição que Nelson de Matos preparou e que está na rua há pouco mais de um ano. Irias gostar, eu acho!

Na sessenta e três, onde abri, descreves a chegada da Primavera a Lisboa: a “luz macia”, o “azul fino e alegre”…  Todas as cidades tivessem alguém que fale delas como tu de Lisboa, Zé!  És doce e derretido, mas também triste e implacável, quando tem de ser. Mostras as feridas putrefactas que alimenta e (oh o ciúme...) não te cansas de alertar para os perigos do seu magnético canto de sereia, que tão bem conheces!
Quanto amor há nesse tom desassombrado, cru, sem elogios gordurosos. Na maneira como a olhas de frente, sem medo nem concessões ao que parece mais conveniente. É o que é e tu não foges disso!
Está tudo na tua escrita

Fui buscar ‘Alexandra Alpha’ e o ‘Delfim’. Há que tempos não os via.
Com que requinte trabalhas o texto! És cuidadoso com as palavras e não subestimas os efeitos do seu temperamento. Há ali tempo gasto a descascar ideias, a encadear frases. Não há fórmulas. Há frescura e novidade! Há trabalho!
Gosto como combates a vulgaridade e exiges inteligência na sua forma mais sublime, que é a sensibilidade! Quem não tiver, lê outra coisa!
És culto e interessante, mas passas despercebido, e o que eu gosto disso!
Que bem sabe ler esta escrita limpa e enxuta.

Que bem me está a saber redescobrir-te, Zé.

Obrigada!
Um abraço!


Iolanda Bárria

Auto-retrato

Aos cinquenta anos dei por mim a fumar ao espelho e a perguntar E agora, José. Fumar ao espelho, qualquer José sabe isso, é confrontarmo-nos com o nosso rosto mais quotidiano e mais pensado. Por trás, em fundo, tem-se um cenário do presente imediato (a porta do quarto, um cabide vazio) mas esse presente, logo à segunda fumaça já é passado (a porta desfez-se, o cabide voou) e tanto mais passado quanto mais mergulhamos no cigarro. O olhar envelheceu, foi o que foi.

E então, por mais que a gente diga que não, começam a aparecer as pegadas históricas do Dinossauro que nos andou a foder a vida durante cinquenta anos. Adivinhamo-las à superfície do vidro, são manchas fósseis, gretadas, então não se vê logo?, e, escuta à distância, ouve-se o carrossel do medo. Aqui e ali vão-se levantando farrapos do muito que em nós se adiou e do muito que em nós se morreu, e nalguns casos podemos até distinguir o traço de liberdade que abrimos com os nossos livros nessa desolação prolongada. Pronto, estamos feitos, José. De agora em diante começa o rememorar, devias saber.


José Cardoso Pires

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Palavras Versadas


Pontos de vista grossa

Foi hoje que a primavera floriu natureza morta. Eu vi bem
as flores a despontar no teu ar beige, os caracóis a desfazerem-se na cara
metade a percorrer as faces vermelhas do caminho.
Havia agruras e rugas no asfalto do rosto, as árvores
olhavam vergadas ao cansaço de tanta beleza
sustentavam um céu divino.
"Ainda hei-de anoitecer no amor" – dizia uma delas. E ali ficou
de pé à espera que o amante beijasse Lilith nas maçãs do rosto
na boca do inferno. O mundo caminhava sobre uma macieira;
o mundo conheceu bem Jesus:
esteve para ser a madrinha, mas Eva, a tetravó do pequeno, sabendo
que o mundo era uma macieira por parte do pai, convidou um lenhador
para-padrinho. E a árvore, o homem de mão morta era ele
longe da sedenta sede social, nunca mais
se meteu em cerimónias, nunca mais
foi a copos de água benta. Só
bebe vinho da missa negra com saber de água mineral de um fundo falso
o verde tinto de sangue de um poço lacónico.
Sempre muito casado consigo, triangula o solo com o olhar (in)temporal;
marcado na vista anémica pela paisagem pedra pomo.
E lá no céu o cúmulo do azul desbota na retina resiste
uma lágrima dor d'alma dói-que-
-não-dói; uma nuvem de descarregar pela boca
escancarada, toda a chuva na cara magoada a tiracolo.

Eu vi bem: era o Outono coroado de flores secas
rezando junto à tumba do Verão acabado!


Joshua M.

domingo, 23 de outubro de 2011

Provocatio


CASAMENTO SUBURBANO

Não me ocorre a esta hora da noite coisa pior do que aquele tipo de casamento suburbano em que a grande excitação acontece quando, ao fim do dia, o casal apanha a via rápida para o T3 numa qualquer localidade dos subúrbios...


Carmo Miranda Machado

sábado, 22 de outubro de 2011

Crónica Benzodiazepina


As iniciativas

Não há nada mais aborrecido numa cidade que as iniciativas, as quinzenas, as feiras por tudo e por nada e as semanas culturais. Gostava de viver num sítio em que as festas fossem o que são, quando o são, espontâneas. Quando vejo uma barraca armada em tenda, daquelas de plástico branco, oiço uns tambores e pressinto as actividades circenses, só me apetece fugir. Há cidades, vilas e aldeias onde a festa é pura, rija, e mesmo mole ninguém leva a mal, porque está entranhada e às vezes tem calendário a cumprir. Como as festas em honra das Nossas Senhoras deste país ou os cabeçudos do Carnaval e o desfile de ouros da Agonia festiva de Viana do Castelo... Mas as iniciativas é que dão cabo de tudo. Já agora, bom dia!


Ana Santiago

sexta-feira, 21 de outubro de 2011


Sobre homens no mar. Sem compromisso.

Aproveitei a viagem para reler 'The Sea Wolf', do Jack London e quando acabei fiquei com vontade de rever 'O Negro do Narciso', do Conrad e seguir para a 'Peregrinação', do Mendes Pinto.
Por esta ordem, disse-lhe.

Ela, para mim: " - A vossa literatura tem uma ligação especial com o mar…
Tem?"

London, que não é nenhum especialista em 'literatura do mar',escreve assim: "...no dia seguinte, enquanto a tormenta ia amainando, Wolf Larsen e eu estudámos apressadamente anatomia e cirurgia e ligámos as costelas de Mugridge. Depois, já com bom tempo, Wolf Larsen navegou em torno do local onde encontráramos a tempestade e penetrou um pouco mais para oeste, enquanto os botes eram reparados e se faziam velas novas..."

Creio que isto não tem nada de especial. Nada, mesmo.
Na verdade, este é um livro sobre o bem e o mal, a razão e o instinto. O bem e o mal em dias calmos e luminosos. O bem e o mal frente a frente nas ondas negras e colossais. Homens bons sem coragem. Marinheiros que tropeçam e caem. Gente que nunca esperou nada da vida e endireita as costelas dos outros. O dia a dia disciplinado e rígido de uma embarcação. Comandantes, nevoeiros, imediatos, botes, bombordo, estibordo, alimentos putrefactos, homens ao mar. O cheiro a sal. Uma mulher. Nada de especial.

Eu, para ela:  " - Estranhamente, nós não temos esta tradição. Não temos uma narrativa do mar. Sobre coisas que se passam entre os homens e o mar. Uns fartos dos outros, em alto mar. Dias e dias seguidos a secar a roupa no próprio corpo. A ver as mesmas caras e a ouvir as mesmas histórias. Uns a conhecerem os segredos dos outros.
O que nós temos, é diferente, temos belos poemas sobre o mar magestoso. O mar delicado e encantado. O mar cruel e implacável (o que mais gostamos). O mar cemitério."

Trata-se sobretudo, de uma relação de reverência (o que não nos coíbe de o encher de lixo, pela calada da noite, mas pode ajudar a explicar o mistério do incomportável preço do peixe).

Uma vez por outra, devíamos tentar tratá-lo por tu. Sem compromisso.


Iolanda Bárria

quinta-feira, 20 de outubro de 2011


No sentido das palavras

Não, eu não sei escrever. Não me digam que sei porque não sei, nem me digam algo encorajador porque já nada me interessa, calem-se apenas. Como é que posso saber escrever se nada sei? Como é que posso saber escrever se nem nome sei dar às coisas que sinto, que penso que sinto, que penso que sinto que são sentidas? Como posso saber escrever se me contradigo o tempo todo? Quero ou não quero, vou ou não vou, rio ou não rio, sinto ou não sinto, minto silenciosamente ou digo verdades por alto?! Tudo o que digo, tudo o que penso, tudo o que faço se contradiz o tempo inteiro. Quero tudo e quero nada, quero ser tudo e quero ser nada. Quero sentir tudo de todas as maneiras e não sentir nada de todas as formas. Como posso saber escrever se nem sequer sei quem sou? Ser o que penso ser? Mas penso uma infinidade de coisas e na maior parte das vezes sem nexo! Sou o vácuo? Sou as horas mortas? Sou o tempo perdido? Se sou o que penso ser então sou uma infinidade de sordidez! E eu, um ser reles, fútil, desprezível, continuo escrevendo mesmo não sabendo escrever, mesmo não sabendo que sentido haverei de dar às palavras!


Joana Santos

quarta-feira, 19 de outubro de 2011


Terrenos planos

A maioria das pessoas é demasiado plana. E eu preciso de ondulações inconstantes e de vagas sem praia. Porque o que me cativa é a genialidade e esta não tem por base um terreno plano, ou um terreno sequer. Ela sente o chão a fugir e crateras a engolir. É o único gatilho do furor e pode surgir de qualquer lado. De um espírito boémio ou atinado. Clássico ou moderno. Politicamente correcto ou insurrecto. Bastardo ou adoptado, revoltado ou adaptado. Ambicioso ou conformado. Marginal ou respeitado.
Usando padrões, o exemplo dos heróis modernos diz muito sobre o comportamento dos indivíduos numa sociedade. Antigamente os heróis apenas se importavam com a glória, a imortalidade e a tragédia. Não tinham medo do confronto. E havia sempre um motivo para correr riscos: “Deus”, a “Pátria” ou um amor desmedido. O “valer a pena” era medido pelo tamanho da alma. O protótipo do herói de hoje é um homem simples, igual aos outros, a quem o destino obrigou a salvar o mundo. Ele não quer ser maior que os outros nem tão pouco especial. Não é corajoso nem sequer pródigo. Ele é herói contrariado, herói por obrigação. Tal como o herói americano, também os indivíduos planos estão mais desapaixonados, mais pragmáticos e mais funcionais. Medem as pessoas e as acções pela utilidade que lhes têm. Por preço e não por apreço. Tudo o resto são coisas do “não vale a pena”. Por isso é que me refugio nos livros, no teatro e nas esquinas da imaginação.


Bruno Vilão

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Palavras Versadas


espinha

acabámos a noite a julgar que
era a vida que tinha acabado.
acabámos a noite à procura
de coisas vulgares. despenteámos
fotografias para tentar reconhecer
quem fôramos no passado.
algumas montanhas a preto e branco
lembravam as cores antigas
do teu cabelo. noutras imagens
havia a essência de maçãs verdes
na compreensão lenta do vento através
dos arranha-céus. era o teu cabelo
a mover-se como um peixe. acabámos
a noite a julgar o amor pelos crimes
insolúveis de outrora. acabámos
o amor por estar condenado ao oceano
de peixes imperfeitos. e eu enchi-te
a carteira com palavras suficientes
para voltares para casa. dei-te
palavras para o táxi, pequenas palavras
para o encontro improvável com um
vizinho fortuito. monossílabos
de viveiro, expressões enlatadas para
matar a fome sem remorso. acabámos
a noite sem palavras e um táxi
à espera. acabámos a noite com
um futuro impossível de dizer.
como um peixe extinto a nadar dentro
da boca. esperei que partisses e corri
para as urgências aflito. tinha
este poema atravessado na garganta


Bill enGates

domingo, 16 de outubro de 2011

Provocatio


Era uma vez...

Era uma vez um gatito curioso. Que não sossegou até entrar no sótão misterioso. Tinha a mania de tudo, tudo espreitar. Entrar nas coisas e vê-las a funcionar. Mas no velho piano, todo preto e cheio de pó, o gatito entrava e assustava-se ao pisar na tecla Dó. E quando ouvia o relógio a tocar, o gatito parava e começava a complicar.
 
 
Bruno Vilão

sábado, 15 de outubro de 2011

Crónica Benzodiazepina


INTERNET: ALTERNATIVE LIFE?

De que forma a Internet nos Vicia? O que nos está a contecer quando deixamos de sair para ficar presos ao computador? Quais os sintomas desta dependência?
De acordo com alguns estudos, são estes os sintomas da "Internet Addiction":

1. Estar em ligação permanente à Internet
2. Perder a noção do tempo quando se está on line
3. Sair de casa cada vez menos
4. Gastar o mínimo de tempo possível em refeições (CHEGAR AO PONTO DE COMER EM FRENTE AO ECRÃ)
5. Negar que passa tempo excessivo na net
6. Ouvir os outros queixaram-se de que passa tempo demasiado em frente ao computador
7. Verificar a caixa de correio várias vezes por dia
8. Deixar tarefas importantes para trás (só para se ligar à web)
9. Pensar que sabe tudo sobre Internet e que possui os maiores e melhor sites da web
10. Sentir uma sensação de alívio quando fica sozinho em casa para se ligar à Internet

Na verdade, o vício da web é tão destrutivo como qualquer outro vício. Parecem existir três tipos diferentes de vício virtual: a) Cybersexual; b) Cyber-relational; c)Netgaming.
O vício do sexo na web prende apenas 15% dos cibernautas e está relacionado com a consulta frequente de sites pornográficos, salas de conversação sobre sexo e shows pornográfcios interactivos. O vício designado "cyber-relational" afecta uma grande percentagem da população e é o que mais danifica a vida pessoal. Surge em forma de relacionamentos com outros utilizadores da web e vem, muitas vezes, compensar grandes e perigosos vazios emocionais. A solidão, a falta de auto-estima entre outros, estão na base destas ligações. Chega a haver pessoas que recusam o contacto directo ou mesmo telefónico com os outros em favor destas relações virtuais. O jogo na Internet ocupa também uma percentagem significativa de utilizadores e pode revelar-se muito útil em casos de simulações para estudantes, por exemplo.
Concluo com isto que não sou viciada na Internet porque continuo a preferir um dia lá fora. Confesso, porém, que me dá algum prazer navegar sem rumo através da minha ligação à Net.


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 14 de outubro de 2011


Sem título nem assunto

É assim: quando queremos escrever não é preciso um título, na maior parte das vezes o título apenas serve para explicar o que não vem no texto (e devia vir), para o acrescentar dizendo mais qualquer coisinha que – com grande probabilidade – passaria despercebida ao leitor menos atento. Também não é necessário um assunto em concreto a tratar com palavras organizadamente encadeadas, com frases (feitas ou por fazer), com os lugares-comuns mais comuns ou sem lugar onde cair morto – o assunto é, a torto e a direito, o conteúdo imaterial da obra.
Mas, também não é imperioso que exista – de existência permanente e duradoura – qualquer conteúdo, seja ele fisíco ou mental, estético ou moral, ético ou metafísico. Um texto basta-se a si mesmo, alimenta-se “verbofagicamente” das palavras que o compõem, ou dos silêncios deixados na página, vive dos símbolos, dos sorrisos estampados na página principal de quem dita as ideias ao papel ou ao microfone.
Neste momento estará já o leitor a pensar que estou maluco e que um texto sem conteúdo não é um texto, é apenas um pouco de silêncio a juntar ao silêncio já existente. Numa perspectiva muito minimalista podemos conceber um texto elaborado com uma única palavra apenas; podemos até nem articular nenhuma ideia e mesmo assim conseguirmos (com esse quase-texto) sugerir ao leitor as mais diversas ideias.
Suponhamos que me limitava a escrever "...", numa página em branco e logo o leitor ficaria a pensar: “mas por que não escreveu ele uma palavra? Por que terá posto aqueles "..." reticentes? será que ia iniciar alguma coisa? Será um signo de protesto? De prazer? De descontracção? de indiferença?”
Qualquer coisa que não imagino e porventura nunca vou saber!
No entanto, não me restam dúvidas de que é um texto, sem título nem assunto, é um texto, mesmo que não se diga. Basta uma ideia dada e um final reticente, para ter/ser sentido"..."


Joshua M.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011


Estrelas (de)cadentes

Sempre me pareceu que há pessoas que nunca conseguem encontrar o seu lugar no mundo e, consequentemente, na vida. Que nunca conseguem paz de espírito, que padecem de uma real incapacidade para serem felizes, que nascem com um vazio na alma que nada nem ninguém parece conseguir preencher. Há quem conquiste, através das artes, ou de hobbies, ou de trabalho pesado, uma certa libertação na intensidade da procura.
Outros, porém, passam pela vida numa busca desenfreada por algo que lhes preencha o vazio que sentem. São personagens trágicas como a Amy Winehouse, o Curt Cobain, o Jim Morrisson, entre outros, que parecem ter uma incapacidade real de se adaptar ao mundo, que testam todos os limites, que estão sempre numa busca de algo inalcançável e que nessa busca fatídica vão minando o corpo com consumo excessivo de álcool e de drogas. A morte é sempre prematura, sempre trágica e sempre provocada. São estrelas (de)candentes que brilham intensamente por momentos e depois se extinguem para sempre, restando apenas a memória do seu fulgor.
 
 
Missanga

quarta-feira, 12 de outubro de 2011


Finalmente entendi...

Há coisas que não queremos que aconteçam, mas temos de aceitar; coisas que não queremos saber, mas temos de aprender; e pessoas sem as quais não podemos viver, mas temos de as deixar.
Segui o caminho que me pareceu mais acertado, mesmo que aos olhos de muitos pareça o errado.

A excitação foi-se e a monotonia voltou novamente ao lugar de onde se fora por instantes.


Joana Santos

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Palavras Versadas


UM DIA TRISTE

eu sei o que é
o que é senti-lo
a que sabe
que cor apresenta nos dias tristes
sei quantas vezes aparece
sei que recolhe a neblina
e olha para mim como se eu fosse alguém
que desse aulas de coração
nas impressões de encantamento
no esquecimento profundo
eu sei que a sua boca é um caderno
invisível
que a sua pós-adolescência
é geograficamente
descomprometida com qualquer
outra coisa outra razão
eu sei que imagina o trânsito e
de certa forma o reproduz
e simula em mim
eu sei as suas maneiras
de estrutura e organismo natural
avançando para o corpo subliminar
simultâneo de outro mais inteiro
eu sei as suas raparigas e os seus rapazes
retratando o mundo suburbano
com a palavra crise e a palavra desimportância
e eu sei o que é
o que é senti-lo
a que sabe
que cor apresenta nos dias tristes.


Sylvia Beirute

sábado, 8 de outubro de 2011

Crónica Benzodiazepina


Homem e fome crónica

Andamos tão cheios de nós próprios… Seres racionais, artesãos pensantes que manipulam a natureza em prol das suas necessidades. Somos seres racionais, dizem, e o quanto isto nos envaidece…
Contudo, é sabido que de estômago vazio o cérebro só se activa no sentido de o encher. O que aliás nos conduz a outra questão – à relação directa entre o estômago e o cérebro e à supremacia do primeiro sobre o segundo. Para o cérebro funcionar, o estômago tem de estar satisfeito, caso contrário o funcionamento deste órgão, que tanto nos orgulha, será ocupado apenas no sentido de o satisfazer da forma mais rápida possível. Então, quem comanda? O magnifico cérebro ou o feio estômago?
À sociedade ocidental esta parecerá uma questão vaga. Poderá faltar o rendimento para pagar o crédito concedido pela banca, a casa, ou os pequenos/grandes luxos a que nos habituamos, mas daí à fome e aos seus efeitos biológicos vai uma distância. Mas, não longe e garantidamente no mesmo globo, esta é uma realidade mais real do que o estado financeiro do Ocidente. Mas, uma vez mais, não durmam na formatura. No Ocidente a fome também existe e se calhar o seu efeito é menos legitimo, menos moral.
Há quem diga que o dinheiro corrompe. Aparentemente, assim é. Sabemo-lo, quanto mais não seja pela História e suas estórias, pelos jornais que diariamente nos relatam manobras menos claras de A e B, associadas sempre à movimentação de grandes somas de dinheiro. Mas… quem é que corrompe ou é corrompido? Aquele que o possui, ou aquele que o deseja? Ambos? É interessante analisar que na maioria destes casos de corrupção em causa não está a sobrevivência, fome, e esta sim, deverá deter o maior poder sobre a moral humana. O que é que está em causa afinal? A ganância pura, o desejo de um poder sem limites?
Do ponto de vista antropológico diria que somos um animal desequilibrado, que transportou para uma realidade, falseada por si próprio, os seus instintos mais primários. Julgo que não deixamos de ser macacos vestidos. Não conseguimos que o nosso magnífico cérebro, o mesmo que descobriu fórmulas matemáticas que nos permitiram chegar à Lua, em última instância, consiga controlar o desdenhoso estômago. A moral e a fome, essa fome crónica que afinal também nos caracteriza, não se dão bem.
 
 
Lucinda Gray

sexta-feira, 7 de outubro de 2011


QUANDO...

Pediu-lhe para definir o que sentia e ela respondeu-lhe:

" - Sabes, quando, de repente, tudo aquilo a que estavas habituado, deixa de fazer sentido? Quando te apetece parar os relógios e ficar abraçado para sempre? Quando sentes o teu mundo desabar porque, de súbito, esse deixou de ser o teu mundo? E quando olhas em redor e a pessoa que tu amas não está e não percebes porquê? Quando te sentes incompleto, estranho, inseguro, carente... porque simplesmente te apavora a ideia de não seres amado desta forma louca e brutal? Quando qualquer sinal é suficiente para te fazer vibrar outra vez? Fazes ideia do que é amar de novo, quando já nem te lembravas como era? E querer tudo do outro, sem concessões? Sabes o que é não querer restos nem migalhas mas querer dar e receber tudo, tudo, tudo...? Achas que algum dia vais entender o que é sentir tudo isto ao mesmo tempo?"


Carmo Miranda Machado

quinta-feira, 6 de outubro de 2011


On the road...

Conheço pessoas que não gostam de ler, nem de cinema, nem de teatro, nem de praticamente coisa nenhuma. Muitas nem um hobby qualquer têm. As suas preocupações resumem-se ao dia-a-dia (o que vai ser o jantar, se a casa está arrumada e por aí). Nunca se questionaram. Nunca perguntaram a si próprias: afinal quem sou eu? E se por um lado acho a vida destas pessoas pequena, por outro, que tem a minha de especial para que possa tecer considerações sobre quem vive feliz assim? Nada, rigorosamente nada. Escolhi um caminho que muitos julgarão patético e triste. Na verdade, não é triste: tem momentos de tristeza e momentos de felicidade. É a vida que escolhi ter. E o facto de já me ter perguntado muitas vezes afinal quem sou eu igualou-me ainda mais a todos os que nunca perguntaram. É que eu ainda não sei, ainda estou em construção e, auguro, estarei sempre.
Percebi apenas que a felicidade deve residir na busca, na viagem, na procura de mim mesma. E percebi também que a busca é interminável. É a viagem que me faz seguir em frente e me concede momentos de felicidade. Claro que por vezes sou surpreendida por sentimentos que não julgava possuir (nem sempre bons) e digeri-los custa. Outras vezes sou sobressaltada por uma ideia que não conhecia, que nem sequer sonhava, e tudo tem de ser repensado. É, contudo, a mais bela viagem que poderia imaginar.
 
 
Missanga

quarta-feira, 5 de outubro de 2011


Diz que é do tempo

Foi no primeiro dia de Outono. O frio teimava em não chegar. As folham insistiam em não cair. A chuva escondia-se ora lá em cima ora dentro de mim. Estava despido da sua pele própria. Disfarçado. O Outono. Tal como eu. Mas aos poucos, a estação foi avançando e foi adquirindo os seus contornos. Os contornos que lhe demarcam a unicidade. Estavam perdidos. Esquecidos desde a estação passada. Demorou a reencontrá-los. Até que o hálito morno das castanhas assadas lhe acenou. O fumo subiu, acumulou-se nas nuvens e o Outono caiu. Em cima de mim. E dentro. Cá dentro. Cá dentro de mim. Para não mais sair. Porque nunca tinha sentido o Outono assim.


Bruno Vilão

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Palavras Versadas


inventário da criança em guerra

a voz da metralhadora
é para o teu bem.
a mina fragmentada
é para o teu bem.
a alma desertora
é para o teu bem.
o vazio da madrugada
é para o teu bem.
o bafo da trincheira
é para o teu bem.
a farda rasgada
é para o teu bem.
a defesa da fronteira
é para o teu bem.
a morte anunciada
é para o teu bem.
o amigo que se esvai
é para o teu bem.
a morte doutro alguém
é para o teu bem.
o cadáver do teu pai
é para o teu bem.
o cadáver do teu bem
é para a tua mãe.


Bill enGates

domingo, 2 de outubro de 2011

sábado, 1 de outubro de 2011

Crónica Benzodiazepina



Uma vida chave na mão

A vida por vezes torna-nos preguiçosos. Esperamos que o destino nos resolva tudo, como se deus fosse um decorador contratado no regime "chave na mão" e ao chegarmos a casa pudessemos sentar-nos no sofá certo, estrategicamente colocado no melhor sítio da sala, nas paredes o tom que nós sempre soubemos desejar, mas que não tivemos de ir à loja escolher, e na cozinha - a pessoa certa a preparar-nos o jantar.
A vida sem empreiteiros, sem deslocações chatas, sem termos de decidir, apenas receber e desfrutar. Tão bom.
Mas a vida revela-se mais nas idas intermináveis às lojas, na procura do mais barato, na indecisão entre a qualidade e o preço, entre ter muito e viver com menos, na escolha das cores e dos feitios, no trabalho em montar tudo e fazer com que tudo encaixe.
A vida é mais IKEA e menos Casa Décor.
E ao fim dos dias até me ponho a pensar: "Ena pá, detestei escolher, destestei ter tido tanto trabalho, mas adoro ter escolhido e adoro ter tido tanto trabalho". E lá me recosto no sofá a pensar que sou muito crescida.
Mas às vezes, ao fim dos dias, ou das noites, sobretudo das noites, dou comigo a pensar: "Caramba, e se tivesse feito de outra maneira? Como naquele filme da Gwyneth Paltrow, em que a entrada um minuto antes ou depois na carruagem do metro define toda a sua vida? E se eu não tivesse ido ali e tivesse ido acolá? E se tivesse telefonado? E se não tivesse dito aquilo?...".
"E se...???"
Raios, se o destino também nos dá assim tanto trabalho, então mais vale ver o último catálogo do IKEA. Os instantes acontecem, ainda não sei é se serão decisivos. Talvez o decorador já tenha a chave, mas só a teremos na mão depois de trabalharmos um bocadinho.


Ana Santiago