quinta-feira, 7 de abril de 2011


A José Saramago

Oubliette

Perdera a noção do tempo. Já não fazia ideia de há quanto tempo aquele lugar o oprimia. Uma eternidade, vista de dentro da fortaleza inexpugnável que tentava ser. O seu pensamento atrofiara-se, estava condensado, comprimido, no exíguo espaço que o habitava. Ali morria a cada momento. Sentia-se agora fraco, sentia-se muito fraco e isso fizera com que pensasse tentar uma evasão. Deixara de fazer riscos na parede para contar os dias. Um dia, interrogou-se do porquê dos riscos e deixou de os fazer – nesse dia, aplacado por uma febre muito alta, sentiu-se completamente perdido nas contas do tempo. No auge do febrão chegou mesmo a imaginar que aqueles riscos alinhados marchavam contra si, como soldados de espingarda e baioneta em riste. Os seus riscos eram soldados, eram sabres, eram a razão da sua dor cravada nas entranhas. Decidiu mesmo que não faria nem mais um risco. E, afinal, eram apenas linhas, memórias alinhadas dos seus dias de solidão. Havia visto chegar tantas luas, lá do fundo do seu degredo, para iluminar o breu do espaço a que estava limitado. Ele tinha de se manter vivo; tinha de estar atento à passagem do tempo. Resolveu então que, em vez dos dias, começaria a traçar na parede as luas, facilitando assim a sua tarefa e diminuindo o número de inimigos caso sobreviesse uma nova febre. Assim não se perderia nas contas, mesmo que a febre-dos-três-dias lhe levasse o tino por mais alguns dias. Ao melhorar, reconheceria sempre a fase da lua, saberia quantos dias durara a sua doença.
Mas, alguns meses depois, no meio da uma nova crise de febre, foi invadido por uma estranha lucidez: conseguia raciocinar outra vez, mas não se lembrava porque estava ali. Quem o pusera ali? Porquê? Teria passado quanto tempo? Lembrou-se de que em tempos tivera uma família. Sim, a memória das imagens revelava-lho claramente - não podia estar enganado. Lembrou-se ainda como havia lutado por uma causa. Descobriu que tinha convicções e que por elas havia perdido uma parte da vida. Saberia alguém da sua existência? Viria alguém para o salvar? De qualquer maneira, haveria de manter a sanidade mental, contando as luas até ver o sol. Um dia, haveria de voltar a ser o que era. No entanto, já não estava certo de querer sair dali. Se lhe viessem abrir a porta, ou derrubar as paredes que o cobriam, não saberia para onde ir, mas, ao mesmo tempo, desejava esse dia como se desejasse o mistério de um buraco negro que fascina e amedronta. Esse dia chegou inesperadamente quando menos o previa: acordou a meio de uma noite de lua nova, abriu os olhos e confirmou que já não existia qualquer barreira que se interpusesse entre si e o mundo. Decidiu fugir, correr, correr sem destino. Correu durante horas, até que caiu de cansaço e adormeceu sobre as ervas. Ao despertar, viu o sol iluminar o céu inteiro, viu os mesmos soldados de armas ao alto. Porém, desta vez, os soldados traziam, nas pontas das espingardas, espigas de trigo e papoilas rubras, em vez de sabres. Davam-lhe a mão e ajudavam-no a levantar-se do chão...


Joshua M.

2 comentários:

iolanda bárria disse...

"Levantado do Chão" é um título tão poderoso. Inspirador.
Como são estas tuas palavras, Joshua.

Blogue alienígena de vulgaridades literárias... disse...

Bem haja, Iolanda! é bom receber assim um elogio de alguém que escreve superiormente...

Joshua M.