sexta-feira, 14 de janeiro de 2011


O imprevisto previsível

Parece que, algures, na esquina de alguma obra, Kant terá afirmado que "a inteligência do Homem se mede pela quantidade de imprevistos que ele será capaz de suportar". Digo eu que, para haver medida, antes de mais, terá que haver medidor. Quem será que se digna fazer esta medição? Quem poderá, segundo Kant, medir-nos enquanto homens e mulheres? Será efectivamente inteligência aquilo que nos faz aguentar a imprevisibilidade da vida? E de que inteligência falaria Kant? Inteligência emocional? Estética? Lógico-matemática? Quem poderá quantificar os imprevistos da nossa vida? Quem o quereria fazer? Quem o quereria dizer? O que é a imprevisibilidade da vida? Não será tudo o que nos acontece interessantemente imprevisível? Não. Realmente, não. Lembro-me de, aos dezasseis, olhar para o futuro e dizer: – Não! Não quero! Não quero apaixonar-me, sofrer a ilusão do amor por alguém do sexo oposto. Não quero também sentir, mais tarde, a desilusão, nem que seja pela sua morte (seria inevitável). Não quero ter filhos, amá-los mais do que à minha própria vida e, depois, vê-los partir... voar rumo a uma vida que nos abandona. Disse “não” ao dia mais triste da vida, o dia mais triste de toda a gente – o dia da morte dos nossos pais, dos nossos amigos. Disse “não” à maturidade, à velhice, à tristeza e alegria efémera. Aos dezasseis, olhei para a frente e disse “não”! Imprevisível foi o facto de ter sobrevivido a esse “não”, de ter tropeçado em tudo o que previ tropeçar e de ter sentido tudo o que sabia que iria sentir, sentindo. Afinal, não terá sido todo este caminho um imprevisto previsível?


Lucinda Gray