terça-feira, 30 de novembro de 2010

Palavras Versadas


e fuga

carros que atropelam passadeiras
rolantes que atravessam o coração
nunca havemos de parar para ver
se os ferimentos são graves

a nossa velocidade é excessiva
no sonho encarnado ao rubro
no choro intermitente da laranja
na raiva verde da desesperança
e tudo isto nos é igual
nada disto nos suscita emergência
na vida de ambulância vital
continuaremos a cometer todos os crimes
que nos impelem a seguir em frente
continuaremos a invadir cruzamentos
em colisão desmedida
enquanto houver um deus sinaleiro
que confunde os sentidos e nos
atropela e foge


Bill enGates

domingo, 28 de novembro de 2010

Provocatio


Pode ser

-Pode dizer-se que seja um coração grosseiro?
-Não, que brutalidade! Não é aceitável, sequer.
-Mas é tão pigmentado e cheio!
-Creio que pode ser um coração farto, mas não é nada comum.


Iolanda Bárria

sábado, 27 de novembro de 2010

Crónica Benzodiazepina


A anormalidade da norma

Normas. É normal as normas não funcionarem a favor do indivíduo. É normal as normas não funcionarem a favor do colectivo. É normal as normas não funcionarem e ponto. Tudo o que é considerado normal, desde sempre, com as respectivas actualizações da dita “vida moderna” me causam espanto, por vezes asco, revolta e, ou ainda, vontade de rir.
É normal não confiar nos nossos governos, nem nos partidos que lhes fazem oposição. É normal não confiar nas instituições, é normal sentirmo-nos roubados por ambos, nunca, ou raramente, ajudados. É normal não podermos ficar a dever um cêntimo a uma instituição pública, mas é normal, essa mesma instituição, poder ficar-nos a dever dinheiro, ou cometer irregularidades por tempo indeterminado.
É normal as taxas de juro subirem três vezes por ano. É normal o preço do petróleo subir para valores nunca antes pensados. É normal as empresas fecharem e falirem porque os bancos retraem os créditos sem aviso prévio, após incentivarem o uso dos mesmos.
É normal culparem-se os patrões, é normal ficar-se no desemprego.
É normal, uma mulher separar-se e ficar em maus lençóis, caso tenha filhos – ou porque as despesas “reais” da educação dos mesmos acabam por ser suportadas apenas por ela, ou porque os progenitores masculinos passam por “crises de identidade” e vão à procura da sua eterna “juventude”, esquecendo que, quem deixaram atrás, não foi uma mulher, mas sim filhos (claro que com as devidas e respeitosas excepções). É normal vermos miúdos de onze, quinze, dezoito anos, suicidarem-se. É normal pais exigirem dos filhos o que não foram capazes de fazer com as suas próprias vidas. É normal sermos odiados por quem não nos conhece, invejados por quem nos conhece, maltratados por quem nos está mais próximo. É normal desejar-mos fugir. É normal acharmos que o nosso país é o pior de todos. É normal não gostarmos dos nossos poetas, dos nossos actores, dos nossos filósofos e de nós próprios.
Penso que não é segredo ter por hábito perder-me em considerações pouco pragmáticas. Na realidade, não consigo deixar de me espantar com o estado da civilização. Com a forma pouco humana e redutora como nos organizamos, social e economicamente. Não gosto das nossas normas, nem das nossas normalidades. Mas isso, em mim, já é normal.
 
 
Lucinda Gray

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


A Primeira Ilusão

Ficamos ainda mais pequenos do que somos, nessas alturas. Ficamos lá no fundo ao olharmos para o topo do mundo que nos roubaram, sem sabermos se é o vazio que vai preencher o lugar de tudo o que perdemos. “Vou morar para outra terra!”, foi a última coisa que a L. me disse, alguns segundos antes de partir e uns minutos depois de me beijar. E fiquei do tamanho de um grão, uma ínfima semente incapaz de sentir de novo a dor de fazer brotar e crescer uma nova afeição. É sempre assim a dor da separação, quando tememos que seja a última.

Gostava das suas mãos, elas lembravam-me as mãos que traziam os carinhos perdidos nas horas de que não podemos prescindir. Agora já não sei se gosto, mas tenho a certeza de que gostava delas naquele momento. Estou cá há tantos desgostos... Foi há tanto e tanto tempo, que nem compreendo porque me estou a lembrar disto agora, – ela tinha sete anos feitos naquele dia, eu tinha sete anos e mais alguns meses. Ainda não sabíamos que o afecto se escrevia de tantas maneiras.


Joshua M.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010


Corpo estranho

Tropecei no teu corpo. Esse empecilho persistente de odor viciante. Nego-te diariamente, mas tu ali, sempre ali, deitado à espera que te usufrua como se fosses uma fruta num cesto de cozinha. – “Vais apodrecer”, aviso. Mas fazes ouvidos moucos, incauto. Desejo-te mas apenas como se a química desse teu corpo equilibrasse o meu. Como se fossemos um bio-composto que, se incompleto, se tornasse letal e completo, curasse. Reconheço a minha própria necessidade de equilíbrio, por isso deixo-te estar aí deitado, inútil, à espera do impossível porque nem sabes como tornar seja o que for possível. Desse modo, secretamente, tenho a esperança de me vacinar dessa tua falta. Tenho a esperança de, tal como um vírus mutante, adquirir a forma necessária para sobreviver à tua ausência. Mas sei que te deveria varrer e pôr na cave das recordações remotas e distantes. Como se esses teus restos fossem desperdício de uma construção mal concebida. Talvez um desses dias tenhas essa coragem. Não te quero mal, só te quero fora do chão do meu quarto, da minha sala de jantar, da minha vida interior.


Lucinda Gray

quarta-feira, 24 de novembro de 2010


"até no que se inventa não vale apenas o que seria"

A noite chega-me sempre tão claramente... por entre as portas fechadas, em candeeiros por acender, em trancas a portas e janelas, por tábuas sobre vidros colocadas. A noite chega-me sempre quando não quero, e quando quero também. Não gosto de o dizer muito alto (talvez por medo de me ouvir dizê-lo), mas acho mesmo que ela nunca se vai embora. E é no rescaldo do assombro da sua chegada que procuro uma outra noite, uma outra porta, uma outra casa, um outro ser. Uma imagem que alguém crie, cheia de luz, cheia de vida. Uma imagem que seja distante, que me faça longe, que me seja longínqua, uma qualquer imagem que não seja eu.
Hoje foi Clarisse quem ma trouxe. Leio e releio uma mesma frase. Leio e releio: "até no que se inventa não vale apenas o que seria..."
Quatro da manhã. Significa que já é dia? Sveglia, dizia ela, Sveglia toca e toca e toca, Sveglia: o tempo. Sveglia toda a Humanidade e o que a atormenta. Sveglia, de ceifa na mão, mais ou menos cadavérica, mais ou menos diabólica, Sveglia em elixir, Sveglia em ponteiros que não conseguimos travar, Sveglia de olhos postos em tudo o que fazemos.
Para mim Sveglia tem outro nome. Sveglia que me persegues, que sei seres tu a destapar-me noite fora, a sussurrar acorda ; Sveglia a invadir-me de ansiedade e de esperança, a projectar-me fantasias que nunca fui, Sveglia em tantos corpos, sob tantas formas, permanente na sua mudança ao longo dos anos, e nunca, absolutamente nunca, lhe posso chamar devir. Sveglia em mim és tu.
Quanto tempo passou desde que um raio de luz sobreviveu aqui dentro? Por mais de dois segundos? Há quanto tempo foi? Já não me lembro... Há quantos anos me chega Sveglia e entra e sai de mim sem que eu te sinta? Há quantos anos de sedas, de cabedais, de dedos escorregando em ligas e corpetes e adereços mais ou menos burlescos, mais ou menos vazios? Há quantos anos tudo o que queiras, levando tudo de mim? Há quantos anos sugares-me a vida devagar, sofregamente, entre meigo e agressivo, entre homem e máquina, entre outras e outros vícios, entre trancas à porta do meu quarto e empurrões entre paredes, esborrachada até esguichar, quantos? Há quantos anos de novo flores, de novo dias, de novo voltares após meses ausente, de novo sorrisos, de novo homem que sinto em cada poro, de novo reflexo de vida? Há quantos anos talvez sim, talvez volte, talvez fique, talvez não mais agrilhoada, talvez nenhuma outra, talvez nenhuma marca, talvez nenhuma garrafa, talvez nenhum serviço? Há quantos anos serviços em que me vendes? E gostas de ver-me ser comprada e recomprada em cada noite mais carnívora. Mas sem as ligas, sem as plumas, sem fantasias nem disfarces, que esses são o que eu sou para ti, o manequim, e neles sou eu despojada de tudo, até de dignidade, neles eu ainda marioneta tua, mas eu em todas as minhas imperfeições. E ademais rentável.
Há quantos anos doentiamente ainda quero que fiques? Há quantos anos esperando o dia, o dia... as minhas próprias fantasias reais... as minhas fantasias... não, meu Sveglia, nem mesmo nelas vale apenas o que seria.


Virginia Machado

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Palavras Versadas


Insónia Marítima

Os meus olhos, companheiros íntimos do mar
falam com os habitantes do silêncio,
todos eles passageiros do vento
que a tarde trouxe.
A minha busca incessante
é descobrir um desejo possível
a partir do êxtase.
Percorrer a tarefa louca de lembrar-me
que existe um amor a partir do próprio amor.
Quem mo disse foi um avô colectivo
oriundo do povo em que nasci.
O mesmo que me ensinou
a absorver a chuva com o corpo
quando no horizonte se fecha uma penumbra
de tornar as aves próximas.
Os meus passos cada vez mais bêbados
ainda escutam incrédulos
essa hipótese de existir no próprio mar
um continente marítimo.
Eles são o tracejado solitário
na praia húmida.
Espelham-se nas pegadas
que as asas dos pássaros deixaram lá em cima,
contabilizadores das horas da minha insónia.
Da esplanada velha
chega-me um rumor a maresia.
Murmúrios breves, as palavras sábias
dessas aves incríveis:
Genuínos habitantes da noite
para quem o silêncio
é a soma de todas as coisas.


João Belo

domingo, 21 de novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

Crónica Benzodiazepina


Esperanto, esperança…

As conversas de café estão muito mal vistas, mal cotadas e até conotadas com uma certa futilidade, mas a verdade é que volta e meia são essas conversas que nos transportam para ricos universos desconhecidos ou esquecidos. Há poucos dias, estava eu no café, quando uma senhora estrangeira fez questão de se sentar ao meu lado. Acontece que cerca de 24 horas antes, num outro sitio qualquer, ela me tinha pedido uma informação corriqueira e eu tinha-lhe respondido em francês. Na qualidade de francófona, escolheu-me então para companhia. Tão simples quanto isso. A referida senhora, com um ar simpático e comum, veio a revelar-se uma caixinha de surpresas. Descobri, encantada, que para além da sua língua natal, dominava ela, não o Inglês, mas o Esperanto. O Esperanto é uma língua planificada, criada com o objectivo de se tornar um idioma auxiliar para a comunicação internacional. Pensada sob o desejo de quebrar assim as barreiras linguísticas entre as nações. É uma língua poética, na minha opinião, até mesmo porque as nações não a adoptaram, tendo o inglês ocupado a função. A primeira pessoa a colocar-me em contacto com esse universo foi o meu pai, que adorava o conceito em si. Contagiou-me, claro. Mas de uma forma algo romântica, dizia-me ele, que se tratava de um projecto falhado pela inércia da comunidade internacional. Era um projecto demasiado vasto para ser exequível, etc. etc.
Para surpresa minha, a senhora não só falava e escrevia em Esperanto, como ainda me revelou que há uma extensa comunidade internacional que domina aquela sui generis forma de comunicação. Já viajou pelo mundo inteiro, tendo ficado em casa de “esperantistas” existentes em sítios tão exóticos como o Congo, o Japão, Austrália e muitos outros. Fiquei literalmente pasma. Não fazia a mais pequena ideia. Informou-me ainda tratar-se de uma língua de fácil aprendizagem e que existem bons cursos, gratuitos on-line. Fui conferir. É verdade.


Lucinda Gray

sexta-feira, 19 de novembro de 2010


Od(io) ao campo

-Não há no campo maior verdade do que a que sai dos tubos de escape em hora de ponta, disse-lhe, em diversas ocasiões.

Ah, a vida no campo!

-Tanto ar puro e tu de nariz entupido!, disse-me, em muitas ocasiões.

Há uma cantilena que vem do campo para nos salvar (levar)… estende-se até onde encontrar a vida de uma cidade. Assobia virtudes, irresistíveis até para quem aprecia arte contemporânea. Contudo, não se ouvem da autoestrada. É seguir por aí e não ceder a desvios.

- Não há no campo uma paz profunda, como a que invade o asfalto das autoestradas e vias rápidas de longo percurso. Zzzzzzzzzzzzzzzzzzz… Benditas!

Para que diabo nos quer o campo?

O que nos quererá, que já não tenha levado?


Iolanda Bárria

quinta-feira, 18 de novembro de 2010



O vazio de todos os tempos

Somos todos filhos de um tempo. Reclamamos, em silêncio, todo um vazio, o vazio do nosso tempo, seja o nosso qual for. Apercebo-me da existência e persistência desse vazio que, de forma diacrónica, surge implacável e subtil. O vazio que, inteiro, de pé, surge mudo, estabelecendo-se como referência. Um vazio que de forma reptiliana se opõe à pintura que elaboramos com as tintas das nossas circunstâncias.
Agarramo-nos à história, ao passado, agarramo-nos ao futuro. Prendemo-nos às interpretações políticas e económicas, do nosso tempo e do tempo dos outros, tentando sempre preencher algo que não sabemos exactamente o que é… Silencioso, majestoso e irredutível, contudo passivo, tal como vírgulas num texto, ou aquele pequeno espaço branco que separa as palavras escritas e as ditas também, encontra-se o vazio a rir-se de nós. Criámos deuses para o preencher, demónios também. Colorimos histórias de encantar e monocromatizamos o desencanto, escavando a dor e o prazer, só para o preencher. Podemos ainda ignorá-lo. Podemos ignorá-lo tanto, tanto, que quase acreditamos que ele, afinal, não existe. Podemos respeitá-lo e, deixar assim, o cepticismo e o relativismo apoderarem-se do nosso juízo. Podemos amá-lo e, ao fazê-lo, refinar o nosso humor, enegrecendo-o por vezes, ou tornando-o mais cínico.
O que não podemos é fugir-lhe.
Julguei que esse vazio era meu. Pertencia ao meu tempo. Ao crescer, conheci os meus pais, quem eram eles, antes de mim. Encontrei-lhes o vazio, o deles e o do tempo deles. Os meus filhos cresceram e, eu, conheci-os. Fui surpreendida com o registo desse meu velho amigo, presente também no tempo deles. Pensei para os meus botões, karma familiar! Depois os meus amigos vieram, de todos os tempos… mais velhos, mais novos, alguns até vieram em forma de livro, de prosa. Conheci-os. E ele… sempre lá. Cego, surdo e mudo. Morno. Cão sem dono. O vazio.
 
 
Lucinda Gray

quarta-feira, 17 de novembro de 2010


My suffering will be legendary, even in the hell...

Quando alguém morre, deviam morrer os dias tristes, as discussões, a vontade de sermos os maiores. No dia seguinte deviam abrir as cortinas ao sol. Encher os automóveis de crianças, baldes, pás e estrelas do mar. Homens na mão de crianças, a correrem das ondas, para as ondas, aos tropeções, numa embrulhada de carinho, espuma e algas.
Quando alguém morre deviam fazer piqueniques nos jardins da natureza. Jogos de bola, jogos de malha, jogos de sueca. Churrascadas suculentas regadas a bom vinho. Homens gordos deitados em mantas de barriga para o ar a sorrirem para as suas mulheres.
Quando alguém morre deviam desligar as televisões, as internetes, cobrir as mesas de poker, fechar as portas dos estádios, dos parlamentos, tudo o que nos possa afastar.
Sempre que morre alguém, morre uma oportunidade. Se não morre é porque esse alguém não morre. E então?
Então é igual. Acabem com os dias tristes.


duArte

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Palavras Versadas


gato sobrevivente

ao jantar os meus filhos
perguntam-me quanto tempo falta para o mundo acabar.
os filhos perguntam quanto tempo falta
para o pai acabar.
perguntam-me quanto tempo falta para acabarem.
em resposta faço-lhes o prato
com vegetais e peixe e hidratos de imprecisão,
dou-lhes palavras que nunca mais acabam palavras
oleosas, emaranhadas nas facas, nos garfos
que deixam marca nos copos e nos guardanapos,
digo-lhes que se despachem,
que já falta pouco tempo para fecharem os olhos
e eu desejar poder mergulhar nos seus peitos minúsculos
para lhes polir o coração que nunca acaba.

os meus filhos perguntam-me qual é o rating da vida
qual é o spread do amor
em que clube joga o fmi
quando entrará em erupção o primeiro-ministro
por que é que os vulcões não pagam portagem
de que lado ficam o máximo e o mínimo do oriente médio
se algum dia as estrelas serão condenadas
por trazerem cancro à alma dos meninos condenados
e que investigador descobrirá uma cura a sério
ou que cura descobrirá um investigador a sério, porque
os meus filhos gostam de brincar com as palavras
que nunca acabam, e se um dia lhes poderei
comprar as possibilidades que viram num anúncio
no intervalo das certezas.
ao jantar os meus filhos perguntam-me se o destino
também é corrupto, se aceita subornos.
durante as imagens de uma ambulância incandescente
e de um curioso gato que não morreu
os filhos perguntam depois da morte o que há de sobremesa
 
 
Bill enGates

domingo, 14 de novembro de 2010

Provocatio


vida têxtil

nesta morada de inferno
o trabalho corre bem:
há bagaço, é inverno,
dentro de casa também.

os senhores são astutos
os patrões são sábios:
matam os pais e aos putos
cosem a madrugada aos lábios.


Bill enGates

sábado, 13 de novembro de 2010

Crónica Benzodiazepina


Amizade eterna

Como sentimos as amizades e quem somos enquanto amigos? Nisso, sempre fui peculiar. Sou uma amiga eterna. Os sentimentos que me conduzem à empatia por determinada pessoa cristalizam em mim e para sempre vivem, intactos. Contudo, todos sabem que a minha noção de tempo é sui generis: não telefono a ninguém com frequência, não recebo ninguém com frequência, não “cultivo” de uma forma convencional as minhas amizades. Curiosamente, aqueles que apesar dessa disformidade temporal se mantêm como amigos sabem que me têm eternamente, não da “boca para fora”, mas, efectivamente, para a hora do aperto também. Gosto do tipo de amiga que sou, pessoa sem género, coerente, ausente de uma forma presente. E eterna.
 
 
Lucinda Gray

sexta-feira, 12 de novembro de 2010


AA - Anonimar por aí

Não, nada a ver com o texto.

Dizem-me que os anónimos são todos desprezíveis, uma corja de canalhas e cobardes. Pois eu digo: não é verdade! Há uns e há os outros. De uns, felizmente percebo pouco ou nada, de forma que estou tentada a falar dos outros.

Por exemplo:

-os que gostam de não dizer coisa com coisa;
-os embaraçados;
-os inteligentes e sensíveis que, por pura amizade ou consideração, não querem criar problemas desnecessários, mas gostam de opinar;
-os que dão erros ortográficos;
-os que estão apaixonados pela pessoa errada, mas querem estar por perto;
-os que preenchem as caixas de comentários;
-os que vagueiam pela net e fazem companhia a tanta gente e aos próprios;

enfim… há tantas e nobres razões para se ser ‘Anónimo’.

Há que ter em conta que, na net, o ‘Anónimo’ conquistou uma certa espessura enquanto sujeito e isso retirou-o daquela dimensão meia vaga e gasosa em que se movia, fora dela. Antes, era mais ‘uma situação’
(por exemplo: um telefonema anónimo, uma queixa anónima, etc) e agora transformou-se num sujeito, a quem, inclusive, foi atribuída uma designação: “Anónimo”. E exibe-se orgulhosamente em quase todas as aplicações, com direitos idênticos aos da Isabel, do António, ou do Vítor Manuel. Online não há discriminações e isto - tendemos a esquecer -, é um bem inestimável. Se o sujeito Anónimo/a é respeitoso, bem humorado e não dá secas, como recusar uma boa conversa?
O problema disto é a velha estória do sistema que criou um monstro, que por sua vez tomou conta do sistema. Não há rosas sem espinhos, já se sabe. Torna-se tão fácil e apetecível escolher-se: ‘Anónimo’, que facilmente podemos cair em tentação, e voltar a cair, e voltar… Como sair disto? É que, inventarmo-nos pode ser muito viciante, mas descobrirmo-nos e deixarmo-nos ir, também.

Como abandonar este circo vicioso?

Talvez uma associação de apoio aos “Anónimos Anónimos”.
"Boa tarde, eu sou 'Anónimo' e ontem anonimei..."


Iolanda Bárria

quinta-feira, 11 de novembro de 2010


Em qualquer errata divina

Sei, por deslize do meu destino que não soube guardar o segredo, que tenho o meu fim editado em qualquer errata divina. Prolongo os segundos em minutos sem os contar numa agonia quase irrespirável para compreender o desconcerto que a vida me traz, como se me visse numa linha de comboio a tender para o abismo. Corro por memórias há muito arrumadas em caixotes de cartão poeirentos, empilhados numa qualquer organização incógnita. Torno-me, sem dar por isso, guardiã dos meus actos passados na vã tentativa de encontrar justificações, teses e conclusões que apontem para o que sou hoje e para os meus dias premeditados sem sol nem estrelas. Entro em vácuo insonoro, sem fazer a mala nem obliterar o bilhete para a terra que grita surdamente de forma tão estranhamente audível.
Conheço quem tenha preferido arrancar o rosto para amputar emoções próprias e assassinar o fio ténue que une a terra a uma vida descabida e sem sabor. E assim tenha vivido numa recusa auto-consentida e descarada.
A Terra geme para além disto tudo, na infeliz habilidade de não ser suficientemente imperceptível para quem nela vive em inconsciência e negligência, feliz e sem compreender que a linha tornou-se recta e finita.
E o meu fim vai ser este, assinalado pelo grito feroz da Terra, implacável, sem perdoar actos passados mesmo que pelos deuses redimidos.


Berenice Greco

quarta-feira, 10 de novembro de 2010


Carta ao...

Foi necessário volver trinta anos para que te percebesse. Foram necessários trinta anos para voltar àquela tarde de Verão em que escolhi não te mudar. Foi necessário perder toda uma vida para ganhar coragem para te mandar embora. Hoje, talvez já tarde demais.
Naquela altura tinhas descoberto o amor, era tudo tão maravilhosamente intenso que te assustava. Os dias passavam suaves, sopros de alegria bafejavam-te, e um mundo que não o teu desabrochava diante ti com a vontade de te conhecer. Tudo parecia correr bem nessa partilha inesgotável, o teu mundo permanecia igual mas com um brilho maior. Subitamente, o teu corpo começou a rejeitar o que a ti se dava em carinho como se de um vírus se tratasse, como se um órgão novo tivesse sido transplantado para o teu organismo avesso a mudanças. Parecia-te demasiado, ainda que gostasses. Invadiam-te os pensamentos mais bizarros, uma exigência quase perfeccionista, era bom demais o que recebias e parte de ti não queria dar de volta. Pensaste que era um vício, um demónio dentro de ti que te impelia a afastar tudo o que fosse bom e novo. Pensaste que não sabias lutar e que a fuga a todos beneficiaria. Pensaste que apesar de tudo serias mais feliz sozinho. Naquela altura, meu caro, eu era passado - tu eras imaturo. Naquela altura, tu tinhas medo de viver. Naquela altura, tu eras fraco.
Hoje escrevo-te do fundo da minha enorme sala de estar. Quartos e quartos se repetem vazios pelo corredor. As paredes estão forradas de estantes atoladas em livros, a música preenche o vazio a toda a volta. Hoje escrevo-te no lusco-fusco deste dia que se cansa de viver após a excruciante adrenalina laboral quotidiana, no centro da cefaleia que nem com uma boa noite de sono passará. Hoje escrevo-te do futuro para te dizer que foste burro. Escolheste o fácil caminho da solidão e egoisticamente tentaste acreditar que seria a decisão mais benévola para todos, como se omnisciente e altruísta fosses. Fingiste para ti mesmo que querias resolver os teus problemas internos, que o problema estava em ti, que precisavas de tempo. Mas de que servem as respostas que com palavras se dão quando a realidade da nossa vida não as reflecte?
Tempo é o que hoje tens em demasia e te devora anos de vida. Construíste um futuro brilhante, concentraste em ti um vastíssimo conhecimento bibliográfico, olhaste-te de todos os ângulos, mas de que te serve tanta matéria em bruto se não tens com quem a partilhar e assim aprofundar? Na verdade, tudo se aguenta, até mesmo a solidão, enquanto a nossa vida parece ter algum sentido. Assim, viveste todos estes anos em paz, com pena da pessoa perdida, confiante de que tomaras a decisão certa para ti e de que nunca te arrependerias. Assim te construíste num orgulhoso solitário, por vezes até eremita. E, no entanto, eis que  te cruzas hoje contigo mesmo e te encontras descrente e atormentado, sentado no fundo da tua sala vazia onde ecoam os risos estridentes e os olhares enamorados de outrora. Nesse local onde a face dela é o cenário dos teus sonhos escondidos.


Virginia Machado

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Palavras Versadas


Sesta

Dispo as palavras
entre os lençóis,
conspurcados pela sensatez
dos nossos beijos castos –
Despedidas:
dorme bem meu amor,
que me cansam os versos
de olhos inacabados
e sonolentos.


Joshua M.

domingo, 7 de novembro de 2010

Provocatio


Outro Parvo no Meu Lugar

Às vezes, não dá jeito nenhum encontrar outro parvo num lugar que é nosso!
Outras, é o melhor que nos pode acontecer.
Obrigada, parvo! (tu e o lugar foram feitos um para o outro)
 
 
Iolanda Bárria

sábado, 6 de novembro de 2010

Crónica Benzodiazepina


Serotonina

Bem, hoje é mais um daqueles domingos em que gosto de me sentir inútil (e faço por isso) sem aquela terrível sensação de vazio que me habituei a usar. Felizmente, essa sensação fica-me já apertada e agora já não me sinto mal ao acordar e já não me incomoda não apetecer fazer nada e já não me irrita que os outros me tentem perturbar. Consegui, portanto, alcançar aquele estado em que pouco ou nada ou quase ninguém atravessa o meu portão para me incomodar. Não pensem que foi fácil chegar aqui. Foi um longo trilho, íngreme e irregular, ao longo do qual tropecei, cai, levantei-me, voltei a cair e, aos trambolhões vim, até chegar aqui.

Parece que me faltava serotonina. Sentia-me sempre a peça fora do puzzle. Acordava e não percebia porquê nem para quê. Pura e simplesmente não encaixava. A tristeza andava por ali, sempre à espreita. Vazia. Depois as drogas. Como descreve Extebarría: "Os comprimidos para dormir são redondos, pequenos e azuis e os comprimidos para despertar são brancos e ainda mais pequenos, e os comprimidos para uma pessoa se manter feliz são cápsulas brancas e verdes, e há outras cápsulas vermelhas que tiram todas as dores, e uns comprimidinhos brancos que fazem desaparecer a ansiedade." (in a.c.p.d.)

Hoje estou "clean". Até da pílula me livrei. E procuro o que defino com os 3 P ("pês") da minha vida: Paz / Parar / Praia /. Até chega a parecer fútil, não é?


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 5 de novembro de 2010



Um dia Imaginário

Pela manhã ergo o invólucro em ânsias vitais, arrasto-me entre a necessidade e a realidade e, de soslaio, vejo a noite reflectida no espelho avariado que se vem colocar a meu lado (ecrã panorâmico onde passa sempre o ridículo filme de mim mesmo). Sorvo um duche meio morno que nunca me desperta do sono, saio do meu quarto crescente envolto num agradável aroma a café, enjoo, abro os sentidos e a porta da rua. Quando me lembro de ti: eu sei que o meu espelho te mentiu, eu não era eu, nem saí de casa ontem à noite. Eras tu para me ver do outro lado do espelho, mas iludida pela refracção vias-me à tua imagem partida – fingias pegar num caco quadrado suave e cortavas as veias dos pulsos e o sangue espirrava, escorrria palas escadas de vidro que levavam ao fim do mundo. Ressuscitavas e revivias Fénix nos espelhos, sempre imagem a aparecer e a desaparecer, sempre a nossa loucura a renascer.

- Imagina se passássemos para o outro lado e os espelhos funcionassem, imagina!

Pela tarde a serra brilha no alto da neve, quando o sol vem poisar de mansinho sobre os cristais inconstantes, o solo ressuma a água bruta, pedra preciosa por fluir, por delapidar, por correr profunda e amar com a terra até ao mar. Os olhos feridos tocam os picos de neve lá no alto do que não abrangem, perdem-se no voo dos milhafres que os roçam esfaimados: do alto se topa a presa, e se afilam as garras para preparar o ataque mortal à sobrevivência. Nós morremos com o olhar no milhafre em queda rumo ao horizonte da razão, porque uns vivem mais e os outros não podem - porque alguém tem de nascer quando há um outro a morrer. Assim se cumpre a neve até chegar a ser regato; assim se cumpre o afluente até chegar a ser curso; assim se cumpre o rio até chegar a ser mar; até oceano e nuvem negra de incessante retorno, sempre a desabar e a resurgir.

- Imagina se ficássemos gelados e os picos de neve não derretessem, quantos mares por cumprir, imagina!

Pela noite fora, sempre o frio que paira em volta e dentro de nós. É o calor em fuga, até ao estio da manhã, até ao bafo quente do sol que emana dessas palavras fugídias que aquecem os nossos raros momentos. Esse calor que vai ficando frio em todos os dias anónimos, que habitamos até restarmos memórias assumidas por quem vive no acto de viver apenas o passado rumo ao futuro. Porque ele é a continuação do nosso próprio passado, e é tudo o que somos e fomos, o que somos e não podemos deixar de ser, porque não podemos fugir aos afectos sem ficar quebrados. A vida é uma sinfonia desconstruída com pedaços de marfim e ébano – as teclas frias separadas, umas pez outras pálidas, são ténues e fortes imagens dos nossos dias, beijos tocados por mãos que nos percutem a vida entre pautas de delírios.

- Imagina se os nossos beijos tocassem sem ter de ser tocados e se recusassem a ser semi-breves ao tocar a alma de um piano, imagina!

No final, restamos etéreas estátuas de sons, esculpidas numa alma em ferro com martelos dissonantes, cantando cantigas de revolta com as nossas bocas unidas por cordas vocais desatadas. Estamos sós, por vivermos tantas vidas:

- Imagina quantas vidas imaginárias teremos ainda de viver para podermos ser assim... imagina!


Joshua M.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010


Tempo

Tempo, sem peso, nem medida certa. Tempo. Desliza como uma nota de música oleosa e negra pela coluna abaixo. Desliza, deixa um rasto húmido e negro e cai no vazio de todas as noites. O fenómeno mais curioso de todos os fenómenos. Esse o da oleosidade do tempo. O da musicalidade, também. O tempo tem som e não é o tic-tac do relógio que o define, nem a cantoria das horas. Não creio tratar-se de um simples somatório de segundos. Acredito que se movimenta em espiral. Por vezes, um minuto pesa uma tonelada, estende-se como se de horas se tratassem. Outras, voa como penas de pássaro à solta. São as voltas, o rodopio da própria dança vital que o provoca essa balança que busca o eterno equilíbrio.
 
 
Lucinda Gray

quarta-feira, 3 de novembro de 2010


Estou Nu

Estou nu, sentado em cima da cama de pernas cruzadas com o portátil em frente. Hoje foi um dia daqueles. Quando cheguei ao hotel vinha de rastos, enchi a banheira de água quente e enfiei-me lá dentro a cozinhar durante hora e meia. Acabei por acordar em água morna. Agora são quase três da manhã e se ainda liguei o portátil, foi porque precisei de escrever que sim, que hoje me lembrei de vocês. Foi um momento muito curto a meio da tarde. Andava meio perdido nas ruas de Lisboa quando o sol reflectido numa fachada envidraçada me encandeou os olhos. Por breves instantes naveguei sem bússola, perdido do espaço que se seguia, confiando que estariam sentados ali, à minha espera. Arrepiei-me todo!
É tão estranho. De todas as experiências que tive, apenas a de Sexta-feira foi realmente calma. Apenas desta vez ficou silencioso. Não viemos para casa a tagarelar o típico, que fixe que foi, nem houve necessidade de fazer amor antes de adormecermos. Preferimos ficar abraçados a aquecer o rosto um do outro. Talvez um último olhar tenha testemunhado a nossa cumplicidade. De manhã... ai a manhã de sábado. As tuas pernas são tão macias, mas este sábado estavam demais – as minhas pernas, as minhas mãos e por fim os meus lábios, teimaram em espraiar-se em ti. Desculpa se te acordei com tantas carícias. Se te cansei com os "adoro-te" ao ouvido. Se me pareceste estranhamente mais próxima e o meu corpo insistiu fazer prova disso.
Não falámos de vocês. Nem uma única palavra. Nem um único suspiro. Nem nada. Nada. Mas foi como se estivessem sempre ao nosso lado, longe apenas dos olhos e dos sentidos grosseiros. Sexta-feira estava fresco, estávamos famintos, estavam lindas, e nós dignos desse encanto. Foi uma experiência indizível e, se palavras se disseram, foi para justificar o não podermos despir as roupas, a pele e as almas.


duArte

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Palavras Versadas


Depois e Antes

No céu as nuvens
foram subtis pintura

Mesmo nas poças de água
o sol ensurdece a vista

Passam mulheres diversas
ornamentadas com longas tranças
Enquanto a vida
permanece escadaria íngreme


João Belo