domingo, 31 de outubro de 2010

SEMANA DA POESIA VI


CONTRADANÇA

Procuramos o certo no incerto,
e não tomamos as perguntas
como respostas...

A tinta escreve o que não vemos,
e o tinteiro está cheio de palavras
nunca lidas...

O homem não observado,
é sempre aquele revelado
na contradança...


Nirma Regina Constantino

sábado, 30 de outubro de 2010

SEMANA DA POESIA V


fragmento de café com presumível burguês e uma armada em loira

o meu ideal de belo, permanecendo
sentado num café com mesa à espera e duas cadeiras
feitas sei lá de quê, além da minha,
é o teu cachecol preto de lã
assimétrico no modo de invadir o espaço ao novelo
ósseo do meu joelho, segundo a contar
do balcão aonde não chegaste à hora
marcada, ou os teus lábios frescos
com trejeitos de fruta, requinte viçoso,
derramando noticiários que as mãos esvoaçantes
de ênfase não sustêm e a que assisto embevecido
enquanto desfoco em intermitência o frenesi costumeiro
dos cafés em que estando não estamos, e tento
por vezes intersectar uma mão, outras
um dos gramas de saliva em pleno voo
sorrio levemente ao vê-los cair sobre “a hora
da sensação verdadeira”, na capa, pigmentos
liquefeitos sobre a eloquência do momento,
como se na sinestesia extrema de keuschnig,
handke adivinhasse a vida toda em cinco
talvez seis minutos de café

e nesse repente é-nos clara a partilha
mesmo da impaciência ou igual indignação por ver
aquele velho acabado de chegar, com fato e botões
de punho, arrecadar de imediato um café e ostentar
publicamente, e com debruado gozo burguês,
cinquenta cêntimos de gorjeta que o rapaz
agradece servilmente enquanto se retira para vir
à nossa mesa depositar uma chávena. diz trago já mais
um, entreolhamo-nos pensando aqueloutro era nosso e
ficaríamos assim completos, mas existe por vezes
uma metade retardada de nós, por deixarmos
que a cidade se antecipe enquanto parados no semáforo
monocromático de um cigarro, para só então
merecermos a restituição do tempo perdido

isto abrange, dizia, o belo indizível na contracção da tua
face luminosamente bicôncava nas bochechas
(por que foi que foste o sol quando eu já
me afeiçoava ao medo do escuro? porque foi.)
a maneira brutal de suavemente
me fixares — que nem a interrupção da senhora
cuja armação capilar aloirada flutua
na nossa direcção e pede por favor a cadeira
sobejante (esteja à-vontade, aquiesces)
consegue interromper, apesar de que
com tempo falaríamos disso a tarde inteira
por mester de maledicência às coisas soltas que nos caem
no colo e se perdem num vão de esquecimento
após serem ditas

seres perpendicular a cada minuto, sentada a meu lado
como a colher atida à curva do açúcar, conforme
às equações matemáticas e propensa às sucessões infinitas
da espiral congeminada dentro da chávena,
contém a ideia rodopiante de belo que filósofos ou estetas
serão incapazes de compreender, mas completa um café,
transborda na tarde em espuma invisível
 
 
Bill enGates

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

SEMANA DA POESIA IV


DIATHEKE

Se nunca conseguiste abrir os olhos
abertos através das janelas – tenta-te,
ousa e experimenta-te:
abre-os do lado de cá e do lado de lá
para ultrapassar a cor delas; vê
ao abrir dos olhos que, de cá para lá
de além janelas, se vêem
todas as coisas belas:
porque elas estão do lado de lá
e do lado de cá,
do lado de tudo, o que está aquém e além delas;
e em volta das janelas, no teu lugar comum
onde o horizonte te é revelado por elas,
panoramas - aos teus olhos - imagens
do outro lado de hoje
amanhã janelas...


Joshua M

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

SEMANA DA POESIA III


Decorei todos os instantes à eternidade

Decorei todos os instantes à eternidade
a eternidade é o meu passatempo favorito
Ao mesmo tempo que reconheço conhecê-la
no mais intímo pormenor
vou aprendendo a pouco e pouco
algumas referências suas
A morte afasta-se progressivamente
enquanto a inalterável experiência
diminui dentro de mim
Assim será até ao fim de tudo
a morte distanciando-se cada vez mais visível
para se dissipar na origem do amor


João Belo

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

SEMANA DA POESIA II


AO LONGO DESTA AVENIDA DO ROSTO

eu não sou o meu esquecimento,
mas talvez seja o teu esquecimento; aquele
que te passa todos os dias
pela avenida do rosto onde um carro procura
e um ruy belo sai e declama
um poema que escrevi sobre um decifrar
de corpo e sangue num tempo
sem enunciado ou resolução.
não sou o meu esquecimento, mas talvez 
me esqueça de mim dentro de mim 
quando em ti, quando durmo imediatamente
por baixo do teu sono em picotado
e aí falto de propósito à tua folha em branco,
aos teus lápis de cor.


Sylvia Beirute

terça-feira, 26 de outubro de 2010

SEMANA DA POESIA I


Cerejas

Espero
A comer cerejas
À sombra de um muro com séculos
Na frescura de um sol piedoso

Vejo
As nuvens que desenham
Sobre um rio que chora
Devagarinho

As ondas do vento contam-me segredos
De paixões desmedidas
Com sabor a açafrão
De cores esbatidas
Pelo tempo

Respiro
De olhos fechados
Em ritmo ascendente
De telhados azuis
Com a lua a dormir

Vou
Por caminhos fechados
De estrelas salpicados
Sem bússola nem destino
E não volto.


Berenice Greco

domingo, 24 de outubro de 2010

Provocatio


Dualidade

...tudo é inventado a dois, mas antes disso cada um por si. O real existe assim. A noiva é o estado de qualquer mulher, sem que o saiba.



Ana Santiago

sábado, 23 de outubro de 2010

Crónica Benzodiazepina


Gosto de teimosia!

Gosto de teimosia e de persistência. Gosto de desafios. Gosto do improvável e do absurdo. Gosto da pequena dose de loucura que acompanha todas estas características a que muitos chamam defeitos. Gosto de defeitos. São genuínos, não são politicamente correctos, não são fruto de uma conveniência disfarçada de altruísmo ou de educação. Detesto hipocrisia, adoro humanismo e hoje sei, mais do que nunca, que uma é a antítese do outro. Gosto de tudo isto, gosto de verdades que nunca são absolutas, mas sempre absolutamente subjectivas e portanto verdadeiras e, em abono da verdade, mais absurdo de que a sociedade global, até então construída pela humanidade, não há. Não gosto do jogo, mas gosto de estar viva. Mais absurdo do que conseguirmos mantermo-nos poéticos, nos dias que correm, não há. Mais absurdo do que percebermos que é mais frutífero deixarmos cair objectivos a que nos propusemos do que nos destruirmos para os atingir, sim, há. Temos que gostar de estarmos vivos. Temos que trabalhar para o prazer, com prazer. O sofrimento só faz sentido enquanto meio para atingir um fim que nos dá um prazer supremo e compensador, seja esse prazer altruísta, ou não. Prazer é prazer, tal como a verdade, profundamente subjectivo.
 
 
Lucinda Gray

sexta-feira, 22 de outubro de 2010


O Homem Entrópico

Há muito ruído, há sempre ruído, dentro da minha cabeça, ao lado e por fora. Em toda a volta, como um halo celestial de espinhos aguçados e ruidosos. O ruído é imenso e estende-se a todo o corpo, vibram-me os órgãos mais vitais, os mais essenciais e os outros (de que até posso prescindir). Aleija-me o impacto do ruído nas vísceras primordiais, sobretudo no cérebro – e no fundo nem sequer percebi bem se é da cabeça que vem o ruído. Só quero é dormir, descansar deste cansaço de anos, dormir sem ruído, sem este ruído vindo de dentro. Até posso viver com o ruído existente por fora, mas não com este ruído horrível que exala do fundo do corpo inteiro com um arrepio, como quando o frio das árvores recorta sons agudos ao correr do vento.
É o vento, o Suão, o do Levante, a Nortada e outros que tais. É sempre o vento e o ruído que transporta no imo, a voz que me atordoa por dentro. Um vento translúcido que não sei de onde vem, nem para onde me quer levar, mas sinto-o a prender-me a um estado mental etéreo (e cavernoso), de que não consigo livrar-me, porque não sei ler o mapa da saída, o mapa do canteiro da rosa-dos-ventos. Já inquiri os astrónomos siderais e os geógrafos para-normais, os sábios genéricos da indústria eólica, e nenhum deles me sopra de onde vêm nem para onde vão, ou para onde nos levam, os ventos.
O próprio Senhor D. também ouvia (ouve) os mesmos ruídos, agora não ouve senão ruídos. Não ouve mais nada, só ouve mesmo ruídos, barulhos estranhos, piores que os de um vento qualquer – uma tempestade de ventos. E ainda é sobrevivo. E digo-o não porque ele me tenha dito, mas porque os ouço também quando me aproximo dele.


Joshua M.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010


Impressões de Constantinopla

A cidade espraiava-se acima das águas do Bósforo, revelando a sua inquietude discreta. As águas cintilavam aqui e ali e o lusco-fusco do fim da tarde envolvia a urbe, emprestando tonalidades amarelas-laranjas a um céu que teimava em ser azul. Os seus edifícios, caoticamente acomodados, deixavam antever um bulício a cheirar a especiarias e a esconder vidas que não se queriam revelar. Do lado esquerdo, espreitava de atalaia a Torre da Justiça do Palácio de Topkapi, que tinha a seus pés as torres e os telhados do harém do último sultão. Mais à direita, a magnífica Mesquita Azul, com os seus seis ilustres minaretes, parecia querer impor a sua beleza à antiga Constantinopla rendida a seus pés. As luzes desvendavam já parte da sua magia irresistível. Perto, bem perto, quase inalterável ao rumor dos dias e à ainda sustentável passagem do tempo, erguia-se Santa Sofia numa imagem sedutora. As suas linhas transfiguravam o contorno da cidade, tornando-a única no seu exotismo, com os seus quatro minaretes a servirem de guardiães fiéis. Olhava-se e sentia-se uma agitação própria de uma vida que late. Palpitavam sons, cheiros, movimento, pessoas, fé e religião numa súmula que me causavam um certo fascínio e repulsa ao mesmo tempo.


Berenice Greco

quarta-feira, 20 de outubro de 2010


Onirismo envelhecido

Gosto de olhar o tempo, dizia. Agosto ainda ia a meio e já esperava a chuva. Amanhã chuvisca, dizia, e nem uma nuvem no céu. O certo é que de tanto crer realmente assim acontecia. Era velho, a pele encarquilhada, o olhar fixava pontos que mais ninguém via, a boca entreaberta no alegre espanto inocente da infância. O seu corpo era clausura para uma alma jovem, quase infantil, quase imatura, passando anos em rugas mas nunca em envelhecimento. Porque é só na alma que se envelhece, não no corpo. O corpo é mero vasilhame contendo riachos de corrente brava.
Anos atrás disse-me ter medo de envelhecer. Um temor no seu olhar, como criança que se esconde do escuro a toda a volta. Um terror de ver a vida afunilar em linhas esguias de íngremes subidas. Nesse dia apeteceu-me abraçá-lo, dizer-lhe que a sua alma nunca morre, como nunca morrerá dentro de mim.
Anos atrás, como ontem, um olhar embevecido fitando o céu e tudo o que ele lhe lembra como quem contempla a sétima maravilha do mundo, o santo graal, o elixir da longa vida. Anos atrás, em aventuras desmedidas, saltitando em gargalhadas mais ou menos auto-centradas, sempre vivas, nunca descrentes, nunca adultas.
Hoje, perdido dentro de si, sem consciência do mundo, vivendo o tempo que acredita mudar com as suas mãos. E muda mesmo. Dentro de mim o tempo muda, faz-me sorrir, de cada vez que na sua mente o sol torna a brilhar.


Virginia Machado

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Palavras Versadas


mira cariño

este poema é muito mais importante que a visita do papa
porque se o deus que o director comercial
da igreja vende fosse a sério
há muito tempo
me teria colado a vida à tua boca.
quero lá saber dos peregrinos, miséria
tenho eu de sobra neste coração doutorado em atentados
fora de alcance. maldito
atirador míope
nem com mira telescópica cariño acertaria noutro coração
verdadeiro. é sempre
água
    água
        água
            água
                e eu a morrer de sede de papamóvel ao fundo.
agora a sério: vou fabricar
uma fisga, abrir o catálogo de divindades
disponíveis no (PUB) pingo doce
e rezar-lhes para que tornes a atravessar o meu olhar.
acerto-te, recolho o troféu e não te admires
se te arrastar pelos cabelos
: esta civilização é só publicidade enganosa para nos convencer
a acreditar nas prateleiras do além, mas
no fundo todos mentimos acerca da nossa idade
que é a da pedra.
e se não sabes que o progresso é um boato
mira cariño, é porque há muito tempo não sais da caverna


Bill enGates

sábado, 16 de outubro de 2010

Crónica Benzodiazepina


Vida de Aluguer

Vivemos uma vida de aluguer. O conceito de vida de aluguer, à primeira vista, assusta qualquer um. Nós que procuramos de forma incessante a permanência em tudo. Na riqueza, na beleza, no amor, no poder, no estatuto, no emprego, na própria vida após vida, enfim, em tudo aquilo que queremos acreditar ser nosso por direito e eternamente. Uma ilusão confortável mas perigosa. A vida dá-nos a oportunidade de aprendermos o contrário: perdemos a infância, a frescura total da juventude, eventualmente um ano lectivo, ou um emprego, um casamento, mais tarde ou mais cedo, um pai, uma mãe, tios… São muitas as oportunidades que a vida nos dá para compreendermos o que é perder. O que perdemos? Na verdade absolutamente nada, porque nada é nosso, a não ser a ilusão.
Perder é uma arte que depende da consciência da nossa própria inexistência, do não-ser presente no ser. E a vida de aluguer é apenas isso. A consciência de que tudo é mutável, tudo está em constante transformação, inclusive nós próprios. Se nos adaptarmos bem a esse conceito, tudo se torna mais fácil, porque percebemos que as adversidades também são passageiras. A transformação não atinge somente o bom, mas também o mau se pode transformar em bom. Requer treino, distanciamento, paciência, coragem e resistência, esta adaptação a um sentido da realidade mutante e efémera. Para os povos orientais, é talvez mais fácil pois grande parte da cultura assenta em princípios convergentes. Mas a verdade é que esta noção, à primeira vista assustadora, é a maior libertação que poderemos aspirar atingir.


Lucinda gray

sexta-feira, 15 de outubro de 2010


Penso logo morro

O céu estava cinzento e a melancolia dos últimos dias anunciava o outono nas folhas volantes das árvores caducas. Isto não é como nos livros de heróis imaginários em que o medo maior é a queda do céu sobre as cabeças, porque na realidade dos meus sonhos tudo se abate e me sufoca com um peso de céu de nuvens negras. Podemos reencontrar o amor em todas as estações do ano ou até numa estação de comboio, quando olhamos para um quadro que nos diz que perdemos o último da noite. A vida é como uma partida de carnaval que pregamos a nós próprios, antes de morrermos a rir da imagem que projectamos de nós mesmos. O medo é que nos faz viver para enfrentar o medo. O medo é uma coisa medonha quando visto de dentro de nós, é a morte que nos assombra mesmo quando já não sabemos ter medo. Um dia perdemo-nos de nós e saímos da trincheira; e corremos de espingarda em punho direitos às linhas inimigas com a ideia de que vamos morrer. É a incerteza de deixarmos de ser...
Será que nos damos conta de que já vivemos quando morremos?


Joshua M.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010


Lisboa é uma gaja boa...

... e vaidosa.

Cheia de curvas. Cheia de miradouros para se mirar, num jogo de espelhos narcisista.
O Tejo é um gajo vadio, com muita lábia e temperamental. Tão depressa parece um lago ou um rio muito certinho como o Sena ou o Tamisa, como logo se irrita e agita os pobres 'cacilheiros' que cobiçam a Cidade que protege.
Lisboa é também generosa, dá conversa a todos; Cristãos novos, mouros, celtas, viriatos, portucalenses...
Lisboa é uma bela actriz favorecida pela luz, que lhe disfarça as rugas. Não tem glamour nem griffe, mas tem muito mimo, feito beicinho, e uma falsa modéstia velhaca que lhe dá um certo charme.

Lisboa é mesmo uma gaja boa.


Ana Santiago

quarta-feira, 13 de outubro de 2010


Vens?

A minha vontade é a tua vontade. Será sempre a nossa vontade.
Quando estou sentado abraçado a ti esqueço-me, por vezes, quem sou. Por vezes, também esqueço quem és. Naqueles abraços, não existe espaço para os dois, nem os pulmões caberiam se respirassem cada par para o seu lado, é um só ritmo. Se beijos fossem possíveis, uma só boca uniria as línguas e os corpos fariam um só sexo.
E nunca pára a vontade de extensão, o abraço cada vez maior, mais amplo, mais forte, o respirar da floresta, o azul do mar reflectido no céu, as estrelas engolidas por um só sol.
O amor não cabe neste mundo. Mas, eu não estou neste mundo, nem tu, nem ninguém está. Eu inventei o universo porque desconhecia que estavas dentro de mim. Agora que te encontrei quero voltar para casa, de mão dada contigo e com o mundo que inventámos para poder namorar.


DuArte

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Palavras Versadas


Aparente Perfeição

No todo tudo existe menos o todo
O entendimento tudo é excepto o entendimento
Assim em cada praia todo o mar
Toda a ginástica divina
todo o tempo
Em cada praia todo o espaço
toda a sua alma de praia
toda a sua negação
E em cada grão de areia quase invisível
uma aparente perfeição


João Belo

domingo, 10 de outubro de 2010

Provocatio


liberdade

A liberdade é um pássaro com uma asa ferida. Quando se voa para longe há sempre uma dor que se transporta. Assim tem de ser. Pois então não seria liberdade, seria inconsciência.


Ana Santiago

sábado, 9 de outubro de 2010

Crónica Benzodiazepina


Sete mares de diferença

Entre o bonito e o Belo existem sete mares de diferença. Mais oceanos houvesse neste mundo, entrariam eles também na contabilidade dessa distância.
Há quem confunda o significado destas duas palavras. São primas, é certo. Mas, à semelhança das relações familiares, entre primos, ou irmãos, trata-se de duas naturezas próprias e distintas.
Enquanto que, no bonito, se pressente o ar familiar do Belo, já neste último, nada há necessariamente de bonito. O Belo é Belo e nada mais! Qualquer acréscimo só o diminui.
O Belo nasce frequentemente do feio, tal como o cogumelo ou a trufa brotam de matéria orgânica em decomposição. Assim, é das circunstâncias mais dolorosas, mais frágeis, do quotidiano que, em pequenos/grandes gestos ele se revela.
O Belo, nos nossos dias, encontra-se mais próximo do absurdo do que de qualquer outra coisa que lhe queiram chamar. Conceito perdido no tempo, tal como o Amor, que, pela vulgarização do uso do seu significante partilha desse absurdo contemporâneo – “eu amo batatas fritas”.
Quanto ao Belo, não estou certa de ser capaz de o explicar. Sei apenas que sou capaz de o identificar aqui e ali.
Do bonito e outros demónios, todos sabem. Entre fisionomias mais ou menos requintadas, corpos esculpidos a cinzel, garrafas ou candeeiros design, ou então sorrisos convenientes, roupa acompanhada por um bom penteado, ou ainda, uma atitude politicamente correcta… tudo isto é bonito. E, para que conste, não o estou a menosprezar. É importante rodearmo-nos de coisas bonitas. Ajuda a levar o fardo do dia-a-dia. Ajuda a esquecer a morte, presente em cada tic-tac dos nossos relógios.
O Belo não. Senti-lo ou percepcioná-lo justifica-nos a existência e a dos outros também. Se calhar, só o pressentem aqueles a quem o bonito não basta. Aqueles a quem o fenómeno de respirar não seja, por si só, suficientemente satisfatório, suficientemente justificativo para tudo o que o acompanha.
A vida, para alguns, não é um valor absoluto.
 
 
Lucinda Gray

sexta-feira, 8 de outubro de 2010


Teoria da Decadência

De cada vez que passava por aquela esquina lá estava ele, o filósofo, sempre perto de um raciocínio sobre a vida que não tinha. Sempre à beira da loucura. Ele sabia que não podia ser o que não era. Ele conhecia o tempo passado e o que havia de chegar. Dissertava sobre uma nova juventude envelhecida, sobre um mundo que chegaria muito depois do tempo. Um dia passei e ele disse-me que já não estava ali, só porque já não podia estar – disse o que pensava – vieram uns homens fardados e levaram-no para outra esquina, toda rodeada de muros altos com arame farpado.


Joshua M.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010


Anestesia

Bate-me.
Bate-me, magoa-me, queima-me a pele e os olhos.
Cada golpe, cada queimadura, cada corte é menor
na minha mente até não restar nada de ti. Até não restar nada de mim.
Nada a não ser o vazio maníaco da loucura, da anestesia.
O tempo já não existe, o espaço nada significa,
sou um deus, um titã primordial entregue à sua própria
loucura e à fúria dos elementos, pois após o nada, só o
chaos pode sobrevir.
Bate-me, não sabes o que crias.
 
 
Jonathan Strange

quarta-feira, 6 de outubro de 2010


Sonata de um eterno retorno

Arde, o calor dos passos que não vejo, as palavras ecoando em tudo o que não disse, o rumor de um regresso que não vem.

Arde, e queima, chagas abertas, feridas que não sei sarar.

Arde, como uma espécie de fim adiado, palavra encravada na garganta, lágrima que insiste em não mais cair.

Arde, escrever cartas de um amor suspenso, cartas de um amor temo que se esvaia.

Haverá amor que subsista na ausência de partilha? Haverá amor que não morra em pé, árvore centenária de memórias que ficam, quando se deixa uma história por viver?

Tempo. Uma cara que perde as raízes dentro de nós. Tempo. Uma lembrança que faz sorrir. Tempo. Nada mais a dizer a quem nos via por dentro. Tempo. Aprender a deixar que as velas ardam dentro de nós até ao fim.


Virginia Machado

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Palavras Versadas




momentos antes perderas o fôlego
a rastejar na barriga de deus
ainda de joelhos disseste
foi promessa
à nossa senhora da solidão,
assim soubeste convocar a presença
dos paramédicos no corredor
dos curiosos estacionados à porta fardados
a rigor de estupidez
no dia em que morreste
fui ver-te
com bilhetes para o teatro e
vontade de acreditar em deus


Bill enGates

domingo, 3 de outubro de 2010

Provocatio


Pergunta Mais-que-indirecta

E tu??????

...és livre ou escravo do teu pensamento?

Quem é que te garante que, com as mesmas oportunidades e com o meu cérebro no teu corpo, não serias brilhante?

...ou o contrário?
 
Não me digas que achas isto filosoficamente interessante?
 
 
K. Tan

sábado, 2 de outubro de 2010

Crónica Benzodiazepina


Todo o teatro do mundo

Tristeza. Realidade estabelecida que nos invade com uma brutalidade intravenosa. Impossibilidade de escapar. A tristeza não provém da inteligência, nem da racionalidade. São expectativas previsivelmente frustrantes, contudo incontornáveis, porque sentidas. A revolta muda, em silêncio ensurdecedor se fecha, e na tensa paz dos músculos se instila a nobreza calada, para morrer no coração e no olhar vago de quem adormeceu os sentidos. Assim, um pouco assim, são as mulheres do nosso país. Olham os machos nos seus afazeres. Sempre muito menos atarefados do que o real trabalho a que se submetem. Teatro, todo o teatro do mundo, aquele todo o teatro, o necessário para se sentirem suficientemente seguros de si. Não podem parir, mas governam um mundo, o seu mundinho. É a necessidade de segurança que faz que os mais fortes percam. Percam o amor e a alegria de serem simplesmente quem são. Homens, seres, pessoas. Gente cujo nascimento se dá para que uma, e apenas uma, lição se tire. O sentido da vida. Ser simplesmente feliz. Triste também é aquele que da berma da estrada assiste ao desfile do rei que vai nu.


Lucinda Gray

sexta-feira, 1 de outubro de 2010


A Carta que não te enviarei

Nesta noite de estrelas tremeluzentes, de uma calidez estranha, vejo-me à tua procura, mas não sei onde procurar. Escrevo-te por isso a carta que ficará por enviar.
Sei que não atravesso o teu pensamento nem povoo os teus sonhos de uma noite de Verão. Sei também que tens um peito côncavo, aberto ao calor de quem nele queira morar. Brilha a cor dos teus translúcidos olhos que dizem mais que muitas palavras ditas. E eu esqueço-me nos meandros de umas arestas finas de paredes nuas e frias como se tivesse sido atirada a feras esfomeadas que não reconhecem a mão que as alimenta. Tu surges quando te espero e não menos quando desespero. E, rendida, sinto um paraíso por desbravar no teu ser incógnito.
Dirijo-te estas palavras na ânsia de te reencontrar, como se gritasse em silêncio numa oração laica que reconhecerás. Clamo de novo e de novo até regressares, até sentires que magnetizo mesmo doutro hemisfério. Sentirás o meu chamamento numa noite cálida como esta e perguntarás quem sou. Eu te direi que sou aquela que conhece os teus olhos desde que nasceste e que te escreve cartas que nunca lerás.
Fecha os olhos agora e sentirás os meus nos teus lábios macios por instantes nutridos de emoções com sabor a mar de entardecer.
Espero-te enquanto te procuro entre os lençóis brancos da minha cama.

Até ao próximo olhar.


Berenice Greco