terça-feira, 31 de agosto de 2010

Palavras Versadas


REVELAÇÃO

Pela porta aberta de par em par
suspira o meu bocejo
em plena estrela polar
os alpes do alentejo

Donzelas de pescoço partido
são frio que adormeceu
e deus sabe que é infinito
não sabe ser como eu

Se um cavalo quiser saber
se és de oiro ou de prata
antes de responder
dá-lhe um tiro numa pata

E depois de morrer desperta
num bocejo intermitente
que bela porta aberta
sentir o nada de frente


João Belo

sábado, 28 de agosto de 2010

OS NOSSOS CONVIDADOS - Crónica Benzodiazepina


Gotas Imperfeitas

O tempo passa por nós e poucas vezes nos damos conta dos pequenos pontos brancos ao redor de desejos insatisfeitos.
Quis ir sim, hoje não tenciono voltar. Quiçá um dia me arrependa, mas conhecendo meu ventre como conheço, nem chegarei a desdenhar talvezes.
Somos amados de formas únicas e tangentes, tal como em equilátero ao quadrado, nós vemos as portas de acontecimentos majestosamente caricatos, em nossos desenhos tornados castanhos de árvores.
Nunca trocamos nossas gotas de água por quereres translúcidos. Somos apenas rascunhos do que poderíamos ter sido, se a professora não nos tivesse apanhado a copiar impiedosamente a nossa personalidade.
Carregada de humor negro, lanço-me nesta batalha de decisões ambíguas e desisto de uma atitude barata.
Eis-me aqui, numa serenidade inigualável, em momentos que trepo ondas que se fazem misturar nos galhos secos de uma árvore albina.
Já não somos espantalhos que escolhemos, como deficiência psicológica. Já transpusemos sentidos ligados à intemperança de gases mal triturados e distraídos.

P.S.: Quando não sabemos quantas pernas tem nosso pensamento, deslizamos.


Anja Rakas - Moçambique, Maputo (Blogue "Anja Rakas")

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

OS NOSSOS CONVIDADOS (III)


Insónia

São quatro horas da manhã - ainda não dormi nada, nem tenho tenção de o fazer, não consigo. A minha cabeça está incrivelmente cheia de emoções e pensamentos ridículos, todos eles desarrumados. Fito o tecto do meu quarto, iluminado pela luz ténue dos candeeiros da rua. Nada disto faz sentido, as coisas que me rodeiam parecem-me todas semelhantes, todas monótonas, nem o próprio silêncio que se faz escutar é lógico. Se, eventualmente, pudesse retroceder no tempo não teria feito o que fiz, nem teria dado metade do que dei - afirmo. Levanto-me - vagueio pelo quarto, pela casa. Procuro conforto num insignificante copo de água que vai ficando vazio. Os lençóis, a almofada com o cheiro a lavado não me confortam. Dou voltas na cama - o arrependimento não se some, atormenta-me. Quero sorrir de tudo isto, palavra que quero, mas sinto um enorme mal-estar. Assim passo as noites que nunca mais encontram fim.


Joana SantosPortugal, Porto de Mós (Blogue "Português Suave")

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

OS NOSSOS CONVIDADOS (II)

Segredos

O segredo do amor é a androginia: somos todos, homens e mulheres, masculinos e femininos ao mesmo tempo. É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Sem expulsá-lo por meio de argumentos e contra-razões. Nada mais fatal contra o amor que a resposta rápida. Alfange que decapita. Há pessoas muito velhas cujos ouvidos ainda são virginais: nunca foram penetrados. E é preciso saber falar. Há certas falas que são um estupro. Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir. E, sobretudo, os que se dedicam à difícil arte de adivinhar: adivinhar os mundos adormecidos que habitam os vazios do outro.


Nirma Regina Constantino - Brasil, São Paulo (Blogue "A Arte dos Livres Pensadores")

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

OS NOSSOS CONVIDADOS (I)


ÂNCORAS

Contemplando o oceano das possibilidades infinitas, arrebatados pela maré das indagações
construímos castelos de areia à beira-mar

castelos que ao avançar das ondas se desfazem ao mero toque, partilhando a sina das nossas mais firmes convicções

aos olhos desenhados para a escuridão, desejosos de um vislumbre da luz do dia em technicolor, resta o consolo de um filme mudo em preto e branco, quando muito
... as sombras da "caverna de platão"

em dívida com a certeza, compramos outra noite de sono com a moeda fácil do subterfúgio, subornando a dúvida com as migalhas de realidade de que dispomos
a pergunta que não se cala exige sempre mais desculpas

desculpas dignas de uma cela acolchoada, no mais das vezes

cinco sentidos apenas e uma paleta limitada de cores, a mistura de tintas intuitivas na paisagem da percepção
plástica disforme do mundo exterior, imagem e semelhança do pouco que somos e do muito que pensamos ser lançada sobre tudo que é

e a obra-prima natural necessitaria de retoques?

mente humana: berço e sepultura dos esforços vãos, panteão de deuses efêmeros, alimento perecível da conveniência temporária

na praia segura da razão, tendo à frente as águas turvas do desconhecido, a promessa tentadora do horizonte acena
...a nau da utopia conduzirá a aventura aos muitos portos de escala da desilusão
testando a fronteira final da curiosidade


Rinaldo Leriano - Brasil, Criciúma (Blogue "Parlatório")

terça-feira, 24 de agosto de 2010

OS NOSSOS CONVIDADOS - Palavras Versadas


FOI TARDE!

Soubera eu
Que o inferno era feito de vagas de silêncios
E de verdades que não ousámos admitir

E que nas margens do purgatório
Se deleitavam os ruídos que evitámos
Com os confrontos adiados a fazer-lhes guarda
E que à porta nos abririam os braços
Os amanhãs perdidos

E teria ficado mais tempo a convocar a fúria
E baniria do dicionário íntimo a prudência.


Palas Athena

domingo, 22 de agosto de 2010

Provocatio



IRREVERSÍVEL

Deixara para trás a cidade
há séculos
Dois homens levaram-na aos ombros
e a cidade estava linda

Deixara para trás a cidade
porquê perguntou-me uma cegonha

Porque o destino é cruel
mas aceitável!


João Belo

sábado, 21 de agosto de 2010

Crónica Benzodiazepina


O círculo infindável do amor particular

Deixa-me escrever em vez de discutir. Deixa-me meditar primeiro, antes que a visão fique turva pelos vícios ancestrais e faça do meu discurso um círculo privado.
Foi no Continente que me surgiu a ideia. Foi a capa daquele livro que me chamou a atenção. O título, a contracapa, um cientista em contra corrente a escrever que todos os fenómenos são cíclicos. Todos sem excepção, repetem-se após intervalos aproximados de tempo, manifestando-se em acontecimentos de visibilidade aparentemente igual. Não li muito do livro, porque só lá fomos comprar uns queijos e umas caixas de cereais. Fiquei pela contracapa. Mas ficou a ideia, mais uma.
As minhas ideias surgem assim. Ou é um cartaz a dizer que quem quer experimentar coisas novas compra no LIDL, ou é a capa da Visão, alertando que 70% das doenças do nosso tempo são provocadas pela qualidade da carne que comemos (o que é uma tanga). As minhas fontes são as vossas fontes. Eu leio o que toda a gente lê. Talvez não leia é da mesma forma. Conjugo tudo como se fosse um enorme puzzle. O espaço imaginário que defini como realidade, estilhaçou-se em mil partículas. Cabe-me juntar tudo numa única existência e acabar com o inferno que criei para me deitar.
Voltando ao livro e pelo pouco que li, aparentemente, todos os fenómenos são cíclicos. Das partículas atómicas ao movimento dos planetas, às calças boca de sino, às tendências de música e do yoga, à vida e à morte, aos vírus, às guerras, às crises financeiras, aos títulos do "Futebol Clube do Porto" - tudo manifestações visíveis de repetição. Para uns, isto é o mesmo que encolher os ombros; para mim, é levar com um projector de luz vindo do céu azul.
O círculo infindável do nosso amor particular é mais fácil de compreender; é nosso, é sofrido, é apaixonante, já teve tempo suficiente para dar muitas voltas. Tem todos os ingredientes para ser previsível para os amantes. Para mim, cada vez mais atento, é como se estivesse a repetir uma série televisiva: triste, melancólico, excitado, eufórico, porque prevejo o episódio que se segue, e o seguinte, e o seguinte, e o seguinte... até ao último, antes da série recomeçar de novo. Já estás a ver onde quero chegar!?
A pergunta, que ontem me fiz a mim mesmo, é muito simples:
- Terá que ser sempre assim?
Teremos que morrer sempre que nascemos? Não será a morte, como ele dizia no outro filme, apenas mais uma doença? E se é uma doença, não haverá por aí uma cura? Se o nosso amor particular quer romper para o amor verdadeiro, o eterno e imutável sempre, nunca será através do corpo que envelhece, nem será através das sensações e sentimentos que o cérebro nos proporciona, porque no dia em que o corpo morre, eles vão junto.
A resposta para a pergunta não é facilmente digerível. Mas é a resposta que encontrei dentro, no tal espaço silencioso, cada vez mais silencioso, para onde vou quando fecho os olhos.
Se o corpo morre, se o prazer morre com o corpo, se o amor particular, a alegria, a felicidade estão tão condicionados pelo corpo e pelo seu prazo, então não quero amar-te mais enquanto corpo.

O amor particular como meta, faliu dentro de mim. Nasceu como um pregão, cantei-o, e extinguiu-se por fim.


DuArte

sexta-feira, 20 de agosto de 2010


In Itinere

A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que não te peço?

Ricardo Reis, in Revista Athena, n.º 1 (1924)

Contei todas as estradas até chegar a ti e não tinha perdido um minuto para pensar, para te escutar quando emudecias os gritos, para te soltar a força do que querias ser não sendo – e contado e visto tudo, nada aconteceu que não houvesse previsto. Sempre me quiseste casa sem rua, calcando as pedras sem casas em que não consentias, erigiste muros através do que sou para conter o que quero ser. A voz abafada de quem sobe a montanha para se calar lá no alto, nunca volta sem uma palavra arfada no desconsolo da jornada, como um lamento em apitado contratempo, que se evola pelo ar límpido até ao tecto do vazio.

Somos nós que acendemos fogueiras intermitentes no caminho, que aquecemos os pés batidos contra as estradas mais venais; somos nós que dejectamos as palavras cruas contra os lábios desencontrados, e que nunca nos buscamos; somos nós que já vimos o astro subir despertador e o topámos ao deitar-se poente, cruzando o céu do nosso quarto crescente; somos nós que nos cortamos nos gumes que afiamos contra as pedras que temos de vencer; somos nós e nunca somos, quando fingimos ser o outro que parece ser parecido connosco, e afinal só deixamos de o ser porque o tempo perdido nos atalha e tolhe o tempo devir.

Parti para dentro de ti e fui e vim tão depressa que mal te senti, mas ficaram as presas do teu ser presas nas teias da minha vida, o teu odor penetrante nas sombras que me guiam as mãos, que ficam, no fundo de gestos melífluos, opacas. Custa-me recordar os factos pelo meio do tempo que já perdemos de vez – e é tão nítido o teu ténue voar sobre o meu corpo transverso; é tão sonante o teu querer estar por onde a utopia dos homens tem lugar; é tão belo o teu corpo ao dar o que sente na ânsia de se dar ardente. É tão o nosso fim, que nunca queremos que acabe assim.


Joshua M.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010


Todos somos semente

À semelhança da semente, sentimo-nos por vezes protegidos pela carapaça forte que nos envolve e pelo calor do subsolo que nos protege. É a nossa zona de conforto. É tão difícil romper com ela quanto o é para a semente rasgar a sua carapaça e, através de frágeis caules, abrir canais por entre pedras e torrões de terra rumo à claridade, mas também rumo ao vento, à chuva e aos pés dos transeuntes. Em cada um de nós, há uma potência a realizar em acto, como em cada semente há uma flor em potência. Esta concretização significa a realização do nosso ser, o nosso cumprimento. A concretização plena das nossas capacidades. Potência e acto. Agir fora da zona de conforto significa também experimentar a dor. Deixá-la entrar, assumi-la, para que ela possa cedo partir. Significa sentir receio, verdadeiramente medo e incerteza. É o duvidar de nós. A superação dessa dúvida existencial pode fazer-se com pequenas, mas recompensadoras conquistas, por vezes diárias. É um teste à nossa humildade e à nossa paciência. Somos sempre um projecto do que viremos a ser - em potência somos tudo, em acto somos apenas uma parte.
A paciência deve ser uma das virtudes mais difíceis de gerir. Em excesso, torna-se defeito, porque nos remete para a não-acção. A gestão desse equilíbrio não é fácil, porque tudo tem um tempo próprio, mas essa adequação não nos pode ser dada por nada, nem por ninguém, que não nós próprios. Só cada um de nós poderá ditar o “timing” correcto para agir num determinado sentido, ou noutro. Cada flor faz o seu caminho e a primeira escolha a fazer, ou não, é brotar. Se quiseres caminhar sobre as águas, primeiro tens que sair do bote.


Lucinda Gray

quarta-feira, 18 de agosto de 2010


a vez

aquela vez em que voltaste cabelos soltos pele mais clara para ficar a observar o rio que não sabias que existia o dia 19 sempre 19 e chovia aquela vez em que ficaste e porquê eu não sabia e acho que hoje ainda não sei que naquela vez que só sorriste te cabe no peito o frio lá fora que entra dentro e fica a observar o rio a que voltaste por não saber que existia aquela vez em que voltaste cabelos soltos pele mais clara só mesmo para observar o rio e nele encontraste cabelos que crescem com a luz do dia naquela vez em que ficaste suando frio o amor de dentro aquela vez como qualquer outra aquela vez em que voltaste e ainda hoje não sei porquê aquela vez em que ficaste e de novo brotou de mim cabelo em cada poro aquela vez e ainda crianças brincando lá fora apesar da chuva e a tua mãe ai cala-te aquela vez em que voltaste para me ver ficar e te encontraste mais claro cabelos soltos olhos escuros aquela vez em que o sol é negro o dia é negro e ser negro faz-me feliz aquela vez em que a tua mãe ai cala-te porque gritaste outra vez naquela vez em que voltaste e havia trovoada lá fora e as crianças ainda assim brincavam como se nada fosse aquela vez a tua mãe ai cala-te e tu à janela a ver as crianças lá fora aquela vez dia 19 tudo tão negro crianças lá fora a tua mãe e tu mais claro aquela vez em que feliz voltaste e ficaste para sempre. aquela vez em que o cabelo do dia te tornou noite e assim junto a mim ficaste. aquela vez, quando morremos.


Virginia Machado

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Palavras Versadas

 
Piolho

A menina sabe que pisca os olhos em tiquetaque obsceno?
Bem o sabe. E quer. Não por esgar de elementar pornografia,
tão-pouco por convidar intermitentemente à euforia,
mas porque o mundo acaba no seu olhar pequeno
e consome no jugo das pálpebras a obstipação do dia;
enquanto eu, apenasmente um entupido rapaz
a escrevinhar o mar impossível mergulhando na cidade
numa esconsa mesa de café,
sou incapaz
de libertar na tinta a onda terrífica que me invade
e perco o pé
e insisto em ideias que encontram ricochete na miopia.
Menina, tantos livros que traz...
Vejo que lê os filósofos... veio em busca da verdade?
Partidária da fé ou das conservas em vácuo da universidade?
Não tarde, diga lá quem é.
Alguma vez lhe tingiram de amoras o rodapé?
Como ama, como se chama, como inflama a sua idade?
Costuma ir ao estádio ver chutar a liberdade?
Aproveita as horas vagas para vaguear no salão da dança?
Desacredita da política, que os políticos só enchem a pança?
Tem uma avó paralítica com verrugas na herança?
Decorou Cervantes na quixotesca fase de criança?
Ah!, sente saudades da maternal redoma adornada de faiança
e aos domingos o porco, a providência, a missa, a matança.
Menina, afaste-se da esperança!
(Acaba de entrar na limitação urbana com esplanada para o infinito)
Abafe o seu grito
que não lhe adianta gritar.
Respire fundo, outra vez, e outra, aproveite para respirar.
Aqui cada um vive aflito
imaginando que respira, inventando o próprio ar
como se o ar não fosse um mito.
Eu transpiro essa aflição em cada poro, bem admito.
Mas este café é em todos os hemisférios o único onde o
mundo ainda brilha,
se quiser pode chamar-lhe a ilha
onde atracam erráticos navios quase prestes a sufocar.
E por falar em boca, o seu olhar,
que de pestanejar bruxuleante como quem beija
pode bem beijar como quem pestaneja.
Seja como seja,
afigura-se-me obsceno esse seu viço
e por isso
eis que me atrevo a confessar como é em mim pleno o feitiço,
o quanto desejo obsequiá-la voltando-lhe a página enquanto estuda
e portanto não me importa que leia, releia e permaneça muda.
Basta-me o seu piscar castiço,
a maneira omnisciente e poderosa de obliterar o mundo inteiro
com o seu piscar incessante de miúda,
esse olhar sobranceiro
de quem decide inundar uma viela ou implodir uma praça;
de quem encerra lenta e profundamente a luz como uma ameaça
que o tempo presente não despedaça;
de quem por mera pirraça
mas com intangível graça,
pode decidir no calendário a próxima desgraça
com um simples piscar de olho.
A menina pisca obscenamente e apresenta-se assaz singela
mas não se iluda com a fugaz aguarela:
pode esmagar com a unha o piolho
que embate e insiste contra a vidraça
ou abrir a janela
e confiar na sorte para que de si faça e desfaça.
mas, sabe?, ao contrário do que lhe disseram a vida não é assim tão bela,
— infelizmente ela
resume-se a uma breve piscadela
que dói e nunca mais passa.


Bill enGates

domingo, 15 de agosto de 2010

Provocatio


A Senti-métrica da paixão

O que será preferível para uma mulher:

Que o seu parceiro tenha o pénis pequeno? ou que seja pouco inteligente?

Creio que 99% apreciarão mais a qualidade que dispensam nos (prováveis) amantes.


Joshua M.

sábado, 14 de agosto de 2010

Crónica Benzodiazepina


Vieste às putas?

Sim? Então eu explico.

Nem mais: ilustram as estatísticas que a matilha internética procura lautamente “putas” – entre outros termos oriundos de idêntico hemisfério lexical e que dispensam demais apresentações – nos motores de brusca aparição da ciberaldeia global. Ora, filósofos e fanfarrões que somos, nem sempre nesta ordem, saltitões e a esticar o pescocito esquálido, qual emplastro blogosférico, queremos gritar estou aqui, estou aqui na ribalta da primeira página de resultados dos benfadados google e bing e ask e msn e sapo e redundante parafernália de buscadores a que basta atirar um osso que diga “putas”, ou outra coisa qualquer de vida difícil, para que os moçoilos desatem a esgravatar bytes infindáveis de informação servida a preceito do apetite.

Desde tempos imemoriais, dos quais, convenientemente, não há pois memória, é sabido que onde há putas nunca faltam filósofos embevecidos com a sabedoria dessas mulheres, muito para além do que os costumeiros entreténs de alcova fariam supor. Os fanfarrões, esses então!, fazem parte da mobília estrutural da putalhice filosófica. Se não, reparemos: a república seminua é desgovernada por um conjunto de deputedos…

Ou seja, depreende-se no supracitado que os mais dos que aqui nos visitam querem, na realidade, ir às putas. E sentem-se defraudados, por certo, ao não encontrarem cá as putas que tanto procuram nos interstícios da corrente eléctrica que os liga ao Mundo. Em abono da verdade, e em minha-nossa defesa, devo aqui solenemente confessar que putas é coisa que me agrada sem reservas. Vinho verde também, embora seja um tudo-nada mais ácido. Mas aqui, neste blogue, o que grassa à fartazana são PUeTAS. Aliás, tal como as/os demais correlegionários de filosofice fanfarrónica, o verdadeiro PUeTA aqui sou eu, que tenho a alma à venda nesta esquina à espera daqueles que queiram dar uma voltinha com ela nos recantos obscuros da existência, essa mesma que faz de nós seres preservativos. Acoitamo-nos poeticamente, afinal. E se não fazemos trabalhinhos orais é somente para não falar mal de ninguém à boca-cheia.

Dentro do turbilhão desta fome de putas que percorre internet, consensualmente, putativamente até, decidimos que doravante vamos chamar todas as putas pelos nomes. Para que os radares de pesquisa nos sintonizem nas ondas putanianas é necessário que haja aqui putas com fartura, integradas no meio-ambiente, como população permanente, embora daquela que flutua ao sabor da carne, como é apanágio das putas. E dos filósofos. E dos fanfarrões. Atenção, contudo, que as putas expostas são para consumo na casa.

Não reste dúvida: temos sobremaneira orgulho nestas putas que nos acompanham e que de quando em vez perguntam "quanto é o tombo?". Assim como assim, são as nossas putas e não as trocávamos por quaisquer outras putas. Vivam as nossas putas! As nossas putas ao poder!

Se de facto ainda estás a ler este chorrilho de putalhices é porque não deves ter vindo às putas. Ou se calhar vieste, mas és o tipo de pessoa que gosta de pornografia marada, esquisita ou perversa e então podes enfiar este blogue onde mais gostas, ou seja, nos favoritos.

Se cá vieste ler mesmo qualquer coisita, devo pôr-te de sobreaviso: se obtivermos o desejado desempenho promissor, vulgo page ranking, na área da pornochanchada – putas em termos de core business –, o mais certo é que rapidamente transformemos este blogue numa casa de putas, para pôr, afinal, as nossas putas a render e ir de encontro às expectativas e ansiedades dos infoputanheiros que nos visitam. É negócio. E é sabido que a Poesia não enche barriga a ninguém, sobretudo quando normalmente não tem os ingredientes mais aputecidos, como é o caso.

Já agora, com licença: putas, putas do jet-set, putas boas, as putas ao poder porque os filhos já lá estão, grandes putas, putas velhas, putas de Lisboa, putas à moda do Porto, putas do interior, o interior das putas, vai às putas, põe-te nas putas, o governo adverte que ir às putas dá vontade de fumar, putas e vinho verde (ou será trutas e vinho verde), tão novo e já com putas, suas putas, putas que pariu, putas de vida difícil, duas putas no estômago à queima-roupa, putas tristes, belas putas, zona interdita a putas, sindicato das putas, filho de um comboio de putas, putas take-away, putas by night, putas fever (ah!, os saudosos mano negra...), putas, putas, putas, casa de putas, putas & companhia.

Pronto, este acrescento deve garantir a subida de algumas posições no ranking de putas.

Por último, a césar o que é de césar (ou da irmã dele): desconhecendo se lhe é original ou não, a verdade é que a primeira vez que li a expressão PUeTAS foi num livro do João Pedro Gravato Dias, insigne poeta da nossa praça.

E dito isto agora já podemos ir todos às putas descansados.

Põe-te nas putas.


Bill enGates

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010


Parti de mim

Por vezes, sinto que fugi. Fiz as malas e parti de mim. Não me revejo em sítio algum, nem sequer no espelho, nem no tom de voz, nem no corpo. Não me vejo diferente de quem habitualmente sou. Não me vejo e ponto. Não vejo o mundo material, físico, que me rodeia. Não faço contas de somar, nem de subtrair. Calculo mal as distâncias que separam o meu carro dos passeios. Não vejo quem comigo se cruza. Não me vejo e ponto. Não vejo futuro nem passado. Ausento-me do presente. Fico num limbo sem nome e sem vontade. Não se trata de um estado depressivo. Parece apenas que a alma não está e pendurou uma tabuleta a dizer "volto já". Está provavelmente cansada ou foi requisitada por algo cujo nome não se formula para um "up date". Mecanismo de defesa ou armadilhas do nosso próprio sistema? Entre a cápsula de mim, ou daquilo em que me transformo, e "os outros" parece haver um abismo. Não por sermos diferentes na nossa essência, mas porque estou "desalmada". Não sou gente. O tempo pára a contagem. No limbo não há chuva nem vento, sol, ou tempo. Não há nada.


Lucinda Gray

quarta-feira, 11 de agosto de 2010


A Senhora Isotta

Mas não perdera a calma. Ainda. Sim, pensara ela, porque vou livrar-me desta custe o que custar. Agora eu cá mostrar as minhas partes pudibundas, isso está fora de questão. Deitou então os olhos à praia e um mar de gente polvilhava-se pela areia. Procurara o fato de banho nas imediações. Nada. Uns jovens ariscos banhavam-se a uns metros e a Srª. Isotta não tardou a adivinhar dificuldades acrescidas. Psicótica e calórica, a pobre senhora, apesar de determinada no seu propósito, não lograra nenhum estratagema infalível que a fizesse escapulir com a sua moral ilesa. Dera conta que começara a chover e o mar de gente que antes se espraiava frivolamente indiferente ao seu cataclismo pessoal batia nesse momento em retirada. Esperou como cão fiel pelo seu dono. O espanto caíra-lhe à cara quando se apercebeu então de uma multidão louca a correr mais ou menos na sua direcção. Uns homens fardados, umas bóias vermelhas que pareciam familiares, uns tantos olhos curiosos e metediços despontavam como hienas esfaimadas naquela precisa hora. Lembrara-se. A sua prima, a Srª. Henriqueta, com quem fora à praia, dera conta da sua falta e alertara as autoridades. Ainda crente na sua salvação apoteótica, torneou o pescoço em busca do seu triste farrapo que a abandonara já há mais de uma hora. Nada. Viu-se num beco com uma saída que não queria: caminhar para a areia em direcção à sua toalha e, dessa vez, perante algumas dezenas de olhares aturdidos na certa. Triunfante, psicótica e calórica, renitente mas não contente, a Srª. Isotta saiu da água salgada e enfrentou o inimigo. Estupefacta, a Srª. Henriqueta perguntou-lhe: Então numa praia de nudistas tens vergonha de aparecer como vieste ao mundo?!?!?


Berenice Greco

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Palavras Versadas


LEITURA EXPLÍCITA

{talvez um dia regresse à voz do leitor.}
o leitor morre mais depressa que o poeta.
quero os meus poemas a morrerem
daqui a cem anos
no último fio de voz do primeiro leitor imediato
e numa altura em que todos os livros
subirão aos céus.
não quero o prazer de haver sido distante
num tempo distante. quero o prazer
de ser imediata e soberba
num tempo imediato e arrogante.
quero manufacturar tudo o quanto de pescoço há
na representação.
porque o tempo futuro é um encolher de ombros,
e nos meus poemas as razões se limitam
a retirar razões a outras razões.
 
 
Sylvia Beirute

domingo, 8 de agosto de 2010

sábado, 7 de agosto de 2010

Crónica Benzodiazepina



O medo e outros costumes

Estou a dar-me mal com o dualismo. Cada vez pior. Quero ser uno contigo, com ela, com toda a gente. Cada vez faz mais sentido. Começa a ser a única coisa que faz sentido. O problema é que enquanto existirem mulheres como tu, e ela, e outras igualmente celestiais, a minha mente sente-se ancorada ao desejo. Para existir o vosso corpo, também o meu corpo tem de existir. A minha percepção.
Vivo entre a necessidade de dois mundos. Acabo por viver em nenhum. Sei que qualquer repressão fará a balança pender para o lado que contrario. É quase como a história do bicho que pega quer corras ou fiques parada. Eu sei que não posso estar próximo dela nem de ti, muito menos das duas em simultâneo. Enquanto for eu, não posso. E se eu e ela e a mulher dourada formos um só? Mesmo que para isso tenha que ser uno com gente que transpire demasiado - prefiro. Não são quarenta virgens, mas não deixam de ser muitas mulheres. Portanto assumo-me como um não dualista convicto. Vou vestir um casaco de couro e partir em busca da fórmula. Só peço que se mantenham lindas até que encontre uma solução para unificar tudo.
"- Já Freud dizia: o desejo é aquilo que nos une a todos. O desejo é a mais elementar força."
Concordo plenamente. O desejo foi a força que criou o universo - o desejo de termos uma coisa só nossa. O desejo é sinónimo de movimento e de inconstância. Implicou que se criassem o tempo e o espaço. A permanência é oposta e dispensa o espaço, a eternidade é oposta e dispensa o tempo. Apenas neste universo inventado pelo homem faz sentido o desejo. O desejo é como o medo a mentira e a escuridão. A escuridão é falta de luz. Não tem propriedades exclusivas em si mesma. Sempre que observo o desejo ele desaparece. Tal como o medo quando visto de frente. São exemplos da crença na escassez, da qual só o erro pode proceder. O desejo e o medo dependem da nossa ausência. Tal como o amor particular. Se te sentares de olhos fechados e procurares o amor, ele não está em lado nenhum. É como se entrasses num quarto escuro de vela na mão para observar a escuridão. A luz é como a verdade. Quando deixas de observar o amor, ele volta em pensamentos, ocupando o espaço que deixaste vazio na tua atenção. A escuridão volta sempre que a luz se vai. A escuridão é como a mentira. Só existe na ausência de verdade. Não existe verdadeira mentira. É um paradoxo total. A luz tal como a verdade opõem-se à escuridão porque se validam a si próprias. Não se alimentam da dúvida nem da escassez do oposto. A verdade é sempre abundante, ilumina tudo. A verdade não vacila. Todos os medos e receios derivam da ilusão e da importância que concedemos à dúvida. O amor particular é igual. Quando o procuras por dentro, ele desaparece. Quando te afastas, ele volta em pensamentos. Está tudo tão carregado da nossa mente, essa cortina que nos separa de tudo, que se torna impossível viver para além dela. Os objectos, as pessoas, as sensações, são todos relativos à nossa mente. Esta constatação deixa-me os nervos em frangalhos. Quero livrar-me desse filtro. Estou farto de versões.
"- Mas a percepção que tens dos outros é sempre filtrada por ti. Pelas tuas sensações."
Mesmo as sensações que uso para percepcionar os outros são filtradas por mim. É tudo tão filtrado que começo a achar que sou eu que as crio. Não há nada que possa ser experimentado que não tenha de passar pela recepção. Quem me diz que não adulteram os factos na recepção? Eu gostava mesmo era de estar contigo. Não quero saber da versão que faço de ti. Mesmo que te pinte como uma deusa nórdica, não és tu. Nunca serás quem eu vejo, quem eu cheiro, quem eu toco. Desunho-me todo mas não consigo chegar perto de ti. Pois não.
Mas se formos todos o mesmo e isto não passar de um sonho de separação, bastaria acordar para sermos felizes, eternamente juntos.
Sempre que é falso, é escuro. O inverso tem respondido a todas as minhas dúvidas - sempre que é escuro, é falso.


DuArte

sexta-feira, 6 de agosto de 2010


Veredas Siderais

Voltamos sempre ao início para ver os mesmos sonhos, voltamos para deixar a marca dos nossos pés em terras exploradas pelas sombras. Pelo receio de um dia não vermos a sombra pisada dos nossos passos: somos o medo e a vergonha, somos o cântico contido nas almas que não sabemos ser, a coragem da morte que enfrenta a vida, numa luta que acabamos, cedo ou tarde, por ganhar perdendo. Por isso, os homens inventaram os deuses e os lugares comuns e nunca há palavras bastantes para tudo o que se crê ou se cala.

Anda, como se fosses anjo, dá fulgor às asas e habita comigo o céu de todos os sentidos, anda, dá-me a tua mão cheia de palavras e vamos passear entre as nuvens, que o limbo esperará eternamente por nós. Enlaça bem a tua mão na minha, segura-te que agora vamos subir - olha como a África é pequena, junto àquela pequenina Europa, e as duas deusas juntas, vistas de cá do alto, pouco maiores são. Volta a crer com um "quê" de querer e vem, vamos vaguear pelo universo, visitar as galáxias que se obnubilam por detrás do nosso (in)consciente colectivo. Senta-te placidamente e pensa comigo: como são breves estes momentos em que nos damos, em comunhão com as estrelas.

Anda, vamos a outra galáxia agora, que, de tão distraído que ando, já me aborrecem os velhos mundos que vou descobrindo. O que mais me agrada nas veredas que ainda não percorri é a inesperada companhia de quem nunca encontrei, porque a sua imagem está sempre a meu lado. Ainda bem que te encontrei numa dessas viagens que nunca fiz e tu foste a boa companheira, a que trazia consigo as palavras certas para todos os erros do caminho. Por isso caminhámos, decididamente juntos, com os outros que caminhavam connosco, em direção ao mesmo fim. Dá-me a mão que me deste ou a que me deres, porque nela se escondem todos os segredos que queremos partilhar durante a jornada. No fundo de nós ainda nos restam muitas mãos abertas para dar de afecto.

Um dia destes, crentes na ressurreição de todas as vidas bem vividas, erraremos certos do fim pelas estradas que nos levarão para lá da miragem de Santiago. Seremos romeiros siderais com os olhos postos na via láctea, directos à luz que nos amamenta a ilusão de acreditar ainda mais além. E sempre que o caminho se mostre recto e virmos ao fundo o nosso destino cortado pelo horizonte, veremos para a vida um fim aparente, sem vermos um fim real, esfregaremos os olhos e nunca saberemos se o momento último se esconde por detrás do monte ou do nosso medo de caminhar.

Seguiremos a viajar e seremos sempre retorno; e nunca saberemos quando nos vamos perder ou reencontrar nas cruzes que o mapa não assinala. Sigo a teu lado e tu a meu lado, e nunca sei aonde vais, ou mesmo se existes, mas sinto a tua mão dada por todos caminhos que a sonhar traçamos. Para não me perder dos teus passos, transporto na minha sacola, lá bem no fundo, um mapa à escala planetária, onde o nosso mundo é visto do topo do universo com olhos de buraco negro fotogramétrico. Um mapa, enfeitado de montes e vales de solidão e de silêncios (entrecortados por rios e mares de abraços e palavras urgentes), cuja geografia muda com os passos do trajecto, que vamos desenhando inacabado do início ao fim do mundo.


Joshua M.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010


Às vezes

... vagueio na net a ver casas em Madrid, a procurar empregos em Nova Iorque, a consultar roteiros turísticos em Itália. Por aí. Como se fosse possível fazer a mala hoje e embarcar amanhã. Nem um telefonema, nem um bilhete... Nada. Apenas deixava em segredo o meu destino a meia dúzia de pessoas. Não é possível, mas a simples possibilidade de o fazer liberta-me de tudo o resto que me prende. Lisboa, Portugal, o Tejo, tudo aqui está cada dia mais aborrecido. Preciso de inventar, ou que me inventem, uma nova vida, para eu conseguir viver esta que tenho. Salvam-me os que me amam e me emprestam a deles, todos os dias, um bocadinho. A minha vida está sempre além do presente, renunciando hipocritamente o passado, antecipando sofregamente o futuro. É ou não é uma grande chatice? Às vezes, também estou bem e ando a tempo dos outros todos. Menos mal.


Ana Santiago

quarta-feira, 4 de agosto de 2010


O Não Amor

Mais um trago. Juro que me queima a língua. Confesso que gosto dessa acidez pelas amígdalas. Admito, gosto de me queimar por dentro.
Eis mais um texto que nunca vais ler, mas um pedaço de história que ficou por contar. Há quem construa página a página a sua vida conjugal, nós criamos somente o desamor. Estamos juntos porque gostamos de sentir que temos tudo a perder. Não cremos na verosimilhança do poliamor. Acho que nem mesmo no amor acreditamos. Gostamos de ser presos por vontade. Gostamos de chorar a existência. Gostamos de carpir as mágoas que não temos. Gostamos de cortar todos os tecidos que nos cobrem os órgãos envoltos em músculo flácido.
Não gosto de ti. Quero-te para fingir que não sinto tédio. Quero-te porque preciso de sexo. Ou nem isso. Quero-te porque não sei o que fazer com o tempo que me sobra. E fica-me sempre demasiado tempo…
Ontem voltei a beber. Prometi que nunca mais uma só gota, prometi voltar ao grupo de ajuda, prometi não furtar jóias da casa da minha mãe, prometi sorrir mais vezes a quem se cruza comigo. Nem uma dessas resoluções foi bem sucedida. É a sexta vez que reescrevo as máximas de novo ano. Já estamos no Verão, creio que perdi a todas as desculpas.
Lembro-me que ontem saíste de casa furioso. Lembro-me de hoje acordar com sangue na testa. Lembro-me do olhar de piedade das colegas de trabalho. E não me lembro de mais nada. Voltei a acordar a meio da tarde numa cama de hospital. Recebi mais uma advertência do patrão e acho que deste mês não passa. Não sei como vamos pagar a conta da luz para o mês que vem, mas também não tenho medo do escuro. Se o tivesse, não viveria aqui contigo. Da escuridão brota toda a tua bestialidade, a qual, de tão ébria, já nem sinto.
Mais um texto que não vais ler, mas tenho pena. Porque não sei o que escrevo e talvez tu me explicasses. Sempre gostaste de me explicar o que se passa dentro da minha cabeça, e eu sempre fiquei extasiada com a desconexão entre as tuas doutrinas e a realidade. Nunca to disse. Gosto que penses de mim o que quiseres. Gosto que digas que pensas mal de mim. Na tua visão pérfida sinto-me tão mais poderosa! Sim, o mal traz-nos uma força quase divina. Se soubesses a verdade, se visses o quão frágil sou, já não estarias aqui. E não é que me faças grande falta, creio até que viveria melhor sem ti, mas ajudas-me a ultrapassar o marasmo dos dias. Agora que não tenho mais para onde ir de manhã, agora que não tenho mais a chave da casa dos meus pais, agora que não tenho mais dinheiro ao fim do mês, agora que recebo uma notificação de despejo, agora que te foste embora e às 11 da noite ainda não voltaste, não sei o que fazer.


Virginia Machado

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Palavras Versadas


EQUÍVOCO


Andei enganado
enganado nesta vida
sem saber que o mármore é mármore
e o fogo é fogo
e que o vinho é vinho
e o nada é nada
andei enganado
ignorando que os capacetes dos polícias
são caveiras de candelabro
e que é no rosto do povo
que se refugia a alma dos mundos
Anónimos são os loucos
que se escondem no desejo
desconhecendo que na cidade
as ervas crescem por dentro do asfalto
Tristes são os raros
que semeiam riso na bengala do absinto
enquanto a solidão
com olhos de negras cruzes e garrafas de esperma
memoriza os anos vindouros
em esferas de pó de talco
Magnânimas são as mulheres
desinteressadas à filosofia do cristal
sem se importar com a idade do dono
que é realejo na rua
torre oculta de marfim e fera amestrada
Iludidos são os poetas
que trazem lareiras nas veias
ignorando que o que dói na carne
é o frio do quotidiano
um frio de agulhas geladas
e acácias de aparência
A cerveja é servida quente
e o inverno com os seus frigoríficos
está de serviço
na distribuição obsessiva das carícias
e do café
As palavras há sempre quem as ignore
e a música é o corredor já conhecido
que no escuro labirinto
se sabe não ir dar à superfície
Passa por mim fugazmente
uma esperança de braços cruzados
de que se acenda uma luz qualquer de veludo
em que tilintem metais de vidro
e os ventos devolvam o mar
A morte está escrita nas paredes das universidades
e os meninos de doze anos
com laçarotes de fumo
jogam às cartas no parque de estacionamento proíbido
para que quando os relógios emocionados
derem as quatro da manhã
escorregarem pela retrete


João Belo

domingo, 1 de agosto de 2010

Provocatio


A importância da necessidade no amor

Quando a necessidade e a obsessão pela ajuda se juntam, materializadas em dois seres, cria-se uma estranha solidariedade que jamais, ou dificilmente, é quebrada. Não é amor, mas dá jeito. Também lhe chamo consolo. Há quem a apelide de "um casamento feliz". Não gostava de ser feliz (assim).


Ana Santiago