sábado, 31 de julho de 2010

Crónica Benzodiazepina


Caos e culpa


Por vezes não consigo deixar de considerar estranha a existência do acaso. Minto. Não posso deixar de estranhar a forma como nós, sociedade, humanidade, conseguimos “inventar” uma ordem, legitimá-la, ou não (uma vez que a legitimação de seja o que for pressupõe ordem), obrigamo-nos a cumprir, por vezes, o absurdo, e esquecemo-nos de que tudo o que erguemos assenta no caos. É sobre este caos que elegemos as nossas leis, regras, casas, crenças. Do sussurrado caos, aceita-se a sorte. Como se esta acusasse uma percentagem de caos pequena e ainda passível de ser reconhecível por nós, humanos. E por isso, milhões jogam nas lotarias, uns escapam a acidentes e outros morrem a atravessar a rua. Apesar de dois milhões de anos dessa constatação, espanta-me a forma pouco imaginativa como nos organizamos.
Pergunto-me, porque nos centramos tanto em torno do dinheiro versus prazer? Dinheiro corresponde a trabalho, a filas de trânsito, a sessenta e cinco anos de dores de cabeça… O prazer sabe a sol, a mar, a chás, a coco, a sopa de carne e a chicharrinhos fritos… Quando temos dinheiro, apreciamos verdadeiramente estas coisas?
Não sou preguiçosa, bem pelo contrário, envolvo-me apaixonadamente em cada projecto que abraço. Mas acho que tudo poderia ser bem diferente, caso houvesse uma filosofia do prazer que orientasse económica, política e socialmente a sociedade. Uma organização que apostasse no simples bem-estar. Contudo não poderemos ignorar que este último começa na cabeça de cada um de nós, e, para se ver o efeito de dois mil anos de cultura judaico-cristã, mirai o lugar que o prazer ocupa na nossa escala de valores. Sentado ao lado direito da culpa…
 
 
Lucinda Gray

sexta-feira, 30 de julho de 2010


Um Anjo Sobre a Cidade

Cruzo os passos abertos por entre os muros que invento, sóbrio, sigo e reinvento uma cidade nua, desfeita na cinza do tempo, na embriaguez da noite, uma cidade sem muros. Imagino uma cidade, apenas uma cidade parada nos lugares todos, no azul das ruas calcetadas, por onde a luz reflecte os objectos. Uma cidade com fantasmas de pássaros iluminados. Mas, a cada sonho, tenho sempre de reinventar a cidade, a cada estória que conto à noite, no escuro do meu íntimo devassado pela luz persistente dos candeeiros a gás, reinvento a cidade, porque a cidade nunca foi inventada.

Os homens que habitam a cidade fogem na penumbra, tementes; fogem do silêncio que pragueja contra eles, que cospe frases violentas contra os muros. Eu, limito-me a respirar a cidade, a respirar a cidade com ou sem revolução, escutando sempre na madrugada a marcha dos soldados acender de novo as ruas, porque, ao marchar, as botas partilham as calçadas e os sonhos com os chinelos das varinas, com os pés frios dos pedintes. E as espingardas são engolidas pela cidade.

Todas as mulheres vivem na minha cidade, habitam-na ao alto e em baixo, e são tardias – adormecem no odor das madrugadas, porque o rio não descansa para se fazer ao mar, para se libertar da cidade. E as mulheres sonham a morte dos homens, vivem na saudade, cantam as agruras da saudade, choram de saudade até fazerem erguer um mar de lágrimas, maré-cheia de espuma e luz, a enfeitar as asas da cidade. Morrem de saudade. E a cidade chora os seus mortos; e as carpideiras são as mulheres que já não vivem, que já não cantam, que são a saudade, que são a cidade.

Um dia uma praga apocalíptica cairá sobre a cidade e levará as mulheres e os homens, e levará a cidade para lá, onde as cidades não existem, nem o tempo. Nem a saudade existirá, para lá dos muros da cidade que não existe. Derrubar-se-ão os muros para provar que a cidade nunca existiu, mas a sua luz não se apagará mais e a cidade, iluminada, será uma quimera, uma casa-única, onde caberá toda a luz da cidade.

Porque o tempo trará o futuro – e quando, um dia, deixar de existir o tempo a cidade perdurará para todo o sempre, porque ela é a memória viva e morta de todas as vidas que a viveram; ela é o cruzamento de todos os destinos que a cruzaram; a rua estreita que se alarga ao passo dos transeuntes; a rua que não existe, porque a cidade também não existe para além da sua própria realidade. Todos os sonhos são uma cidade sem realidade. Todos os sonhos são a minha cidade real.

Porque o tempo fez tombar o odor a morte sobre a cidade e assassinou todos os justos, criou recantos onde a cidade sobrevive a todos os injustos. A cidade deve morrer para sobreviver, para se perpetuar. Porque a vida da cidade existe fora dela, sem que ela se aperceba do fim, a vida prossegue nela. No final, restarão algumas luzes apressadas a cruzar ténues os espaços das ruas desertas; os vultos convertidos à luz das madrugadas, auroras de espaços limitados a ensinarem a forma dos muros. No final, não restará senão a cidade, pedra sobre pedra, a cidade a existir nuvem da cidade – o caos, as ruínas...

Todos os caminhos levam à cidade, à minha cidade, onde os cotovelos presos aos joelhos esperam, impacientes, a chegada de um anjo.

Em seguida vi descer do céu um anjo que tinha na mão a chave do Abismo e uma grande cadeia. Subjugou o dragão, a serpente antiga, que é o Demónio, Satanás, e acorrentou-o por mil anos.

Apocalipse, 20, 1


Joshua M.

quinta-feira, 29 de julho de 2010


O Universo dos Amantes

O universo dos amantes é perfeito ou sonha em ser perfeito. Entende-se por amante aquele que ama, acepção que vem do particípio do presente do verbo latino amare, amans. Mais nada.
O universo dos amantes é um cosmo à parte, com leis muito próprias, e os cosmonautas, os amantes, vivem num estado puro de letargia que os deixam inconscientemente embalados. A lucidez de sentidos e a racionalidade ficam afectadas, mas eles pouco se importam com isso. Aliás, eles fazem questão de alimentar esta condição de apatia relativamente ao resto do mundo. É este mandar o mundo à fava que os faz sentir especiais e diferentes, os faz sentir únicos e exclusivos, absolutos e inteiros, se em cisão permanente com o universo dos outros. É o mundo privado e íntimo que vale, o mundo a dois que interessa. É o sonhar a dois o mesmo sonho, o ser capaz de voar em pensamento de mãos dadas para a mesma ilha com a mesma água azul e a mesma areia branca e fina, é beber da mesma música e delirar da mesma forma, é apreciar as mesmas cores, os mesmos sabores, a mesma força da Natureza, é saber esquecer o tempo contra tudo e contra todos, é ter o mesmo ritmo e amar a mesma poesia, é partilhar as mesmas paixões, é saber comunicar pelo olhar, pelo abraço, pelo beijo, pela carícia e até pelo silêncio. É compreender as palavras de uma forma única, é precisar do calor mesmo quando não está frio, é estar em sintonia quando o mundo lá fora gira em arritmia.
Ter o privilégio de entrar nesta esfera privada que vive em unissonância restrita e recatada e saber viver e conviver com as suas regras mais básicas é apanágio para seres excepcionais e os que lá se mantêm por muito tempo passam a um estado quase divino, pois conjugar uma vida em dois universos tão distintos como o dos amantes e o dos outros – por muito que se tente, temos que viver nos dois – é tarefa hercúlea, para além de que combinar tão só no mesmo universo dos amantes com outra alma é missão exclusivamente destinada a seres de alguma forma deificados. Razões estas que ultrapassam a própria cosmologia do amor.


Berenice Greco 

quarta-feira, 28 de julho de 2010


O mundo voltou a assaltar-me

Hoje inventei uma cama para acordar deitado.

Inventei os sonhos para mais uma vez não me lembrar.

Inventei os empregos, o teu horário demasiado cedo, a água a correr do teu banho.

Imaginei que te vestias encostada ao meu rosto, que me pediste um beijo na curva do teu corpo.

Hoje inventei um filho a ocupar o calor do teu lugar, a luz ténue do candeeiro, um livro do Asterix.

Reinventei os meus braços agarrados à almofada, a preguiça, o conforto da chuva lá fora.


DuArte

terça-feira, 27 de julho de 2010

Palavras Versadas


labirinto


o mundo é pequeno,
diz a tremer de frio
o anão
cuja mãe foi outrora um navio
(acaba de falar e aninha-se no porão)

mas eu nunca fui assim
: parti em quimera ao redor de mim
em busca das duas mãos
que me foram abraçadamente prometidas
para conjugar
outras quantas vidas
quando a língua seca de tanto verbo irregular
tentou escapar

ah! as saudades do teu nome desconhecido,
da costumeira falta de luz
aos domingos
antes da romaria ao jesus
nos ter invadido.
houvera verdadeiramente amor naquelas nuvens
que entre tanto negrume e tantos pingos
qualquer um de nós poderia amar
e não somente chorar

o mundo é incomensurável,
definido assim
por um órfão gigante
interminável,
diante
do próprio fim

poderia dizer sei que já não conto,
mas calado
está-se afinal sempre pronto
como importa
para importar ser-se contado

é de solidão um caminho de ouro na rua da prata
no verso do mapa
és a única porta por onde se escapa.
e por ti o filão que sinto
é um labirinto

não quero só o teu pão
de milagre,
quero ainda o teu coração
de vinagre


Bill Engates

sábado, 24 de julho de 2010

Crónica Benzodiazepina


Quase um rosto

A luz da mesinha de cabeceira ainda ficou ligada por mais alguns minutos. Os mesmos minutos que me abraçaram à X. Quando a luz se apagou, rolei o meu corpo, suspenso nas nossas últimas palavras. Eu nunca sei de onde vêm as palavras, os pensamentos que escrevo. Adormeci a olhar os pequenos traços de luz que iluminam a cortina, procurando neles uma resposta para a intuição.
Quando acordei, se sonhei, já não haviam imagens na minha memória. Um guindaste arrancou-me a preguiça da cama. Sentei-me a confirmar que o dia era outro, com uma erecção entre as pernas. Fui assim para a casa de banho, nu, aos olhos da minha companheira, sentada na sanita, meia a dormir. Intrometi-me entre ela e o lavatório, sorrindo maroto, para que me desse um bom dia.
- “Credo...! Que se passa contigo?”
- “Anda lá.. Não te faças difícil.”
Adoro esfregar óleo no meu corpo antes do banho. Gosto do meu corpo, macio e elegante. Sentem-se os músculos. Gosto de os estender, lentamente como um gato, enquanto a pele absorve o óleo. Ela já despira as roupas quando se sentou no meu colo reluzente. Dobrei a insistência do pénis e senti toda a doçura da X. ao encostar-se a mim. Abracei-me a ti.
- “Adoro o teu corpo de menina...”
- “Não me achas demasiado nova? Já agora, é a este corpo que se deve o teu estado?”
- “Sim. Deve-se a ti, a ela, ao estado de coisas que me atormentam a alma.”
- “Bem me parecia...”
- “Talvez seja dos dias estarem tão quentes. O Outono disfarçou-se de Primavera. O pólen disfarçou-se de cocaína e entranhou-se no meu cérebro.”
- “Podes dar-lhe outro nome que eu não me importo.”
Partilhar um duche contigo é como partilhar uma cama com o diabo. A água a correr nos teus seios, no desenho fino do teu sexo. Poder tocar, molhar-me em ti, beber de joelhos a água perfumada do teu desejo.
- “Pensaste nele?”
- “Penso nele sempre que penso em ti. Tortura-me não ter tempo para os amar a todos.”
Nem todas as mulheres sabem a sexo. Tu sabes. Nem sempre, porque o teu corpo não é apenas instinto. É preciso verbalizar para entenderes a primitiva razão. O desejo de perder tudo por uma foda no escuro, encostada a uma porta, no banco de trás de um carro. Com ele, ou com todos os que te assaltam com emoções.
- “Podes dar-lhe outro nome que eu também não me importo. A sério que não me importo.”
Desde que me deixes beber esta água, eu próprio farei as camas, estacionarei o automóvel nos parques escavados, encostado à porta, a abafar as investidas do vosso prazer.
- “Deprime-me que o mundo termine tão cedo. Logo agora que estás assim, tão dócil, que não escondes nada, que me permites ser genuína, mesmo que a verdade afinal, não passe de uma fantasia.”
É sempre ela a ir buscar as toalhas longe demais. Amo os seus passos a pingar água. Os pés delicados, as covas ao fundo das costas.
- “O mundo não vai acabar.”
O mundo não investe contra o pecado, não é uma força independente, não é um deus-todo-poderoso. O universo é tão grande, tão infinitamente inconcebível para as nossas cabecinhas. O universo não é outro que tudo e todos, uma borboleta, um cometa, um pensamento, tudo molas de um mesmo colchão. Deitas-te numa ponta do colchão e todo o colchão mexe. Por vezes muito, por vezes de forma subtil, mas tudo afecta tudo. O nosso mundo está a mudar, agora como nunca, vertiginosamente. Mas tudo se passa cá dentro. A informação espalha-se ao vento. Jesus escreve pelas mãos de uma médium. O “Conselho dos Doze” orienta acerca do que fazer nos tempos que se avizinham. Livros, Heróis, poderes miraculosos. Todos apontam o mesmo caminho.
Somos livres. Somos nós quem governa. Se o universo se revolta, é porque a revolta está a acontecer dentro de mim. O que eu vou mudar, vai mudar tudo. Vou virar isto de pernas para o ar. O que se pede é que soltemos amarras. Que vivamos de forma genuína. Uma festa contínua, feita de alegria e felicidade constantes. Um salto. A condição humana está a armar o salto. É lindo demais para não ir à frente.
E tu, minha querida... Quero-te sempre ao meu lado!


DuArte

sexta-feira, 23 de julho de 2010


the queerest of the queer

Puxar o cabelo para trás, endireitar as costas, mudar de posição num pequeno contorcer das nádegas, maior o aparato do que a real deslocação. Não, não há canetas, hoje teclas. Sinto falta das canetas. De sentir as canetas entre meus dedos flutuando, riscando raiva, amachucando o papel, atirá-lo e nunca cesto no caixote ao fundo. Hoje só teclas. E a falta de sentir algo palpável. Algo que seja além de mim.
Há tanto tempo... outra pessoa que não eu. Agora o espelho a gritar eu, mas já não ser eu. Uma face vazia, uma cara qualquer, tão sisuda e enfadonha, tão nula, tão nada. Se o fracasso tivesse rosto, sei-lo, seria assim. Seria eu.
Em tempos, ouvi dizer que renasceu vida por entre as rochas. Flores à tua volta e assim um novo alguém. Contigo sempre só alguéns. Não sei sequer se temos nome. Acho que sem o saber, certamente sem o querer, alguém me revelou o que calculo que quisesses esconder. Depois de mim o mundo não parou. Sempre tu e o teu astro imaginário em que envolto te vês. Iluminado, julgas tu. Asseguro-te que a lâmpada está fundida. Não emite calor algum. Há muitos anos que, como eu, é somente um nada. Um calor de nada, um sentir de nada, um viver de nada, um amor de nada. Era de ausência de respeito a que se quer chamar amar.
Acabei por descobrir o que significa definhar sem estar doente. Se encosto os dedos uns aos outros descubro inusitadas camadas de gordura; o meu corpo meros ossos segurando a pele manchada de altinhos brancos; já não vejo madeixas de cabelo cair-me no rosto, camadas de empapada oleosidade juntam todas as fibras capilares; se os pés me gelam lá em baixo não quero saber, e a minha cama é o mundo inteiro. Às vezes rompo com a letargia e encontro o abismo. Pesadas camadas de névoa à minha volta, e um pânico crescente em auto-ódio, perder o medo ao tétano e golpear-me furiosamente. Porque mereço. Porque falhei em tudo. Porque me envergonho. Porque agi mal. Porque te perdi. Porque nunca te tive. Porque perdi por ti todo o resto da minha vida. Porque tenho culpa. Culpa de tudo. Porque talvez esta a única coisa que hoje consigo sentir. A dor que não seja por dentro, mas vinda de fora. Porque assim algo é real. Porque custa muito menos.
Queres crescer? Queres secar dentro de mim? Por favor, aceitas corroer-me, destruir-me por dentro? Vem, por favor, eu deixo... Eu juro. Só quero que em ti me mates. Só quero que em mim tu morras.


Virginia Machado

quinta-feira, 22 de julho de 2010


ACORDES... "acordai!"

A vida se altera. Movimento, som, arte, tudo em um só segundo. Uns dizem que sou, outros, que não sou. "O que sou?"

O ambiente está decorado. As paredes sustentam grandes quadros com belos motivos artísticos. A mobília, tapetes, assentos e almofadas enobrecem o colorido jardinal. Lustres, de raro material, iluminam os "mil cantos". "O que sou? Onde estou?"

Ao fundo falam coisas diversas. Poemas, canções, assuntos sem estórias. Trajetórias de vidas e almas em cumplicidade. A luz é intensa. Os perfumes dos corpos e dos tecidos exalam no ar. "O que sou? Onde estou? Por que estou?"

Olho ao redor e vivo o momento. É a magia dos sentidos no Homem que encontra os segredos do mundo. Há um relógio dourado que espera pelo tempo que não existe. Apenas transcorre e funciona impassível. "O que sou? Onde estou? Por que estou? Qual o nome?"

Percebo o chão. Ele existe. Quase me esqueci. O piso é deslumbrante e enigmático. Seus desenhos me transportam para diversas dimensões. Meus pés tocam a geometria do belo e eterno. Estou de sapatos. Calçados, eles estão lá. Apenas pés e pernas que me erguem. As cortinas balançam com o sopro do vento. Grandes janelas abertas ao frescor da primavera. Corro em direção a elas e estou lá. Pés e pernas. "O que sou? Onde estou? Por que estou? Qual o nome? O que faço?"

Uma grande porta se abre e as mãos se tocam frenéticas. Um espelho com moldura reflete o acontecimento. Observo-me, tenho olhos. Sou eu. Pareço-me comigo. Falam de mim. Estou nos papéis, nas tintas, nas letras, nas lendas, nas histórias, nas bocas. Orquestras me entoam. Busco-me nos lugares onde dizem que estou. Olho para cima e talvez, veja o céu. Grito, mas não me ouço. Apenas o som, a melodia e os acordes. As "estórias" e as músicas continuam em meu nome. O Homem, o mito ou deuses? Tudo está perfeito. Sorrisos, lágrimas, indiferenças e muitas narrativas. Assim é hoje e sempre será.

Meus pés se movem em direções opostas. Meu rosto já não é o mesmo. Modifica-se. Transforma-se. Estou confus... Estou exaust... Estou partindo. Não me vêem. Não me percebem. Não me sentem... Pés e pernas se vão!

Os instrumentos e as músicas persistem. É o legado que ficou no meu esquecimento, até o dia em que me verei novamente, em que nos veremos novamente... pés e pernas, por inteiro...


Nirma Regina Constantino

quarta-feira, 21 de julho de 2010


Deuses de papel

Esta noite tive um sonho doloroso. Não direi um pesadelo, mas doloroso. Sonhei que um animal de estimação havia morrido, trespassado por uma estatueta que recebi como prémio de imprensa escrita em 2008. O pequeno animal abraçava o objecto tendo sido obturado por uma saliência angular do mesmo. Jazia assim sob um berço de criança. Chorei e tudo, enquanto dormia. Ao acordar, a imagem do pequeno bicho não me abandonava o pensamento. De forma clara e distinta, visualizava-o com o pêlo em remoinho suado, pequeno e já frio. Com ele ao colo, inerte, mostrava-o em desespero aos meus pais, presentes na penumbra. Estupefacta, comecei a tentar decifrar esse sonho mirabolante. Bebi dois cafés, deambulei de um lado para o outro, fumei dois cigarros, dei uma limpeza à casa… e a imagem sempre lá, com textura e tudo. Subitamente, cheguei a uma conclusão. Vou cometer um assassinato. Literário claro. Matarei deliberadamente e literariamente algo ou alguém que foi alvo dos meus afectos. Esse é o poder da escrita, mais forte do que qualquer arma. Aqui, a preto e branco, com pequenos e concisos movimentos dedilhares, matamos, renascemos, damos vida e morte. Somos pequenos deuses do papel, mesmo que virtual. Resta-me dizer que o referido bicho era um rato cinzento. Sempre gostei de ratos. Fazem-me lembrar esquilos, nervosos com olhos inteligentes. Não que os queira em casa, já aprendi o suficiente para não o desejar. São uma praga. Mas gosto desses pequenos animais. Esta noite, morreu um.
  
Lucinda Gray

terça-feira, 20 de julho de 2010

Palavras Versadas


DISCRIMINAÇÃO DO GÉNERO

{poema para ser lido com recurso à voz de mário cesariny nos anos noventa}

discriminar o género. das palavras. dos dedos. há
uma anatomia para cada membro. para cada gesto.
e há duas casas em casa gesto.
dois inquilinos.
há vizinhança sem anatomia. e depois, claro,
há um exercício de escrita sobre cada gesto, o
que é: um terceiro gesto.
dentro deste gesto há discriminação
do género. das palavras. dos dedos. há um movimento
do corpo e em que o resultado é extra-corporal
e a hermenêutica segue indirectamente
pela submissão degenerativa do caos
que é falar.


Sylvia Beirute

domingo, 18 de julho de 2010

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO LUXURIA (I)


Lux et Voluptas

Tu cheiras tão bem; sabes ainda melhor; nada é verdade e tudo é permitido no lugar que é céu e inferno; o ritmo suado e animalesco ergue-se em crescendo até atingir... a dor ardente de um flagelo; não, ainda não; outra vez do princípio...


Jonathan Strange

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO LUXURIA (II)


Edição de Luxo

Será que a Rita Lee faz uma canção para mim?

Luxúria é solidão. Amor é confusão.
Luxúria é penso rápido. Amor é fisioterapia.
Luxúria é multibanco. Amor é cheque em branco.
Luxúria é pena suspensa. Amor é condenação à liberdade.
Luxúria é foda. Amor é sexo.

Luxúria só tem amor próprio. Amor ama até a luxúria.


Ana Santiago

SETE DIAS SETE PECADOS - A LUXÚRIA (I)


Antília - Princesa da Atlântida (I)

Viajava Zeus pelo Reino da Atlântida quando, assolado pela sede da jornada e embevecido pela soberba paisagem de que desfrutava, resolveu descer até ao fundo de uma cratera onde havia duas lagoas quase geminadas: uma, corada de azul turquesa, e outra, completamente verde. Num relance do olhar, escolheu a azul, na esperança de que a água fosse mais fresca.
Mas, ao abeirar-se da lagoa azul distinguiu nela reflectida um homem que chorava. Não estava ninguém ao lado da lagoa, no entanto a sua figura aparecia reflectida na água. Sem perceber a origem do vulto, aproximou-se da margem da lagoa, até chegar à linha de água e notar que o homem habitava as suas profundezas. Fitou então o infeliz homem por um pouco e, com um ar apiedado, perguntou-lhe: que fazes aí? por que choras assim?
O homem contestou de olhos baixos: Sou Silvano, um simples pastor apaixonado! Perdi um amor... E assim desfiou, uma a uma, todas as suas mágoas: relatou-lhe como havia caído no doce engano de se
apaixonar por uma princesa, com quem passava tardes cálidas correndo pelos campos, tocando flauta e folgando. Assim foram felizes até que, um dia, informado sobre a paixão do pobre pastor e de sua filha, o velho rei destes reinos mais não fez do que proibi-los, para sempre, de se olharem sequer, pelo resto das suas vidas. Conhecedores da cruel sentença, os amantes recolheram-se à tristeza e ao choro, um de cada lado da enorme cratera de um vulcão extinto, ambos deslavados de pena e sulcados de lágrimas. Lado a lado, cresceram assim as duas lagoas: os olhos verdes dela esgotaram-se num grande lago de cor verde; os olhos azuis dele derramaram os desgostos, deixando escorrer uma vasta lagoa azul. De tanto carpirem, os desafortunados amantes imergiram na água das lagoas que eles próprios choraram e não mais voltaram a ser vistos.
Contudo Zeus, conhecido como um deus severo e caçoador, desta vez, comoveu-se com o destino do pastor Silvano, que seguia habitando a lagoa, e resolveu conceder-lhe um desejo. Num tom grave inquiriu-o: vou conceder-te um desejo, o que quiseres... porém presumo que queiras que eu te devolva a vida!? o que não te censuro. Mas, o pastor, em pronta resposta lhe contestou: Para que quero eu a minha vida se ela nada vale sem a vida daquela que amo? A mim, bastar-me-ia ver a minha amada correr feliz pelas margens da lagoa para o resto da minha além existência, para me sentir satisfeito. Condescendente com o pedido do pastor, Zeus rematou: Assim farei, darei vida à tua amada e uma vida eterna e feliz, mas ela só poderá ser feliz neste lugar e tu terás de suportar a sua felicidade. No entanto, pela tua sinceridade, concedo-te a graça de seres um dos preferidos de Pan e devolvo-te a flauta, com ela encantarás a tua amada nas tardes em que ela se vier deleitar com o sol e a água nas margens da lagoa. Tal como a tua amada, ficarás eternamente preso a estas margens, apascentando um rebanho na companhia das ninfas, condenado a vê-la ser feliz, sem lhe poder tocar. E prossegue: De cada vez que caminhares pelas margens da lagoa sob os teus passos brotarão margaridas, a flor que entrançavas nos seus cabelos quando furtivamente se viam por estes campos.
Depois de concedida a graça da vida ao padecente pastor, Zeus prosseguiu o seu caminho e deixou o outrora infeliz pastor dançando e soprando cantigas, sem caber em si de felicidade. A alegria com que pinoteava e aflautava melodias pelo ar contagiava as ninfas que bailavam em seu redor e, em séquito, todos iam andando para a lagoa vizinha. Zeus, que voava sobre os homens, chegou primeiro. Com um sopro encrespou o espelho da lagoa, fazendo com que a bela princesa viesse à tona de água. A visão da sua beleza extasiou Zeus que, como é sabido, sempre ofereceu poucas resistências aos encantos de uma bela mortal. Sabedor das artes do engano, o manhoso deus dos deuses de imediato se transmutou no desdito pastor e, fazendo-se passar por ele, beijou-a nos lábios com fervor. Ela abriu os olhos e reconheceu de imediato o rosto do seu amado, mas, antes que pudesse dizer uma palavra que fosse, Zeus pousou a mão sobre a sua boca e falou-lhe docemente: Sou o teu amado que volta das profundezas, agora condenado a ser um eterno pastor e a viver com as ninfas, contudo não mais vou deixar de velar pela tua felicidade e de soprar na minha flauta as mais belas melodias que já se ouviram nestas paragens. Aqui estarei eternamente para te receber quando vieres...
A princesa Antília vive agora feliz e realizada, vagabundeando pelas sete cidades em redor, sempre em redor da lagoa. Passa os dias contando histórias aos mais novos e, por malas artes de Pan, tornou-se a divina amante de todos os pastores que vagueiam pela região. E desde então, quando pela tarde por vezes a princesa vem, de mão dada com um novo amante, e se rebolam em suculentos beijos e cálidas invasões sobre a relva e as margaridas, o pastor chega risonho a acolhê-los com o seu séquito de ninfas e faz soar a flauta. Quando ela se despe para cada amante e ele para ela, abraçados em ânsias, embalados pelo doce assobio da flauta e acicatados pelas ninfas que dançam nuas em seu redor, dão-se até ao último fôlego, até ao cair do dia. E todos, ninfas e pastores, se despojam do corpo numa amálgama de corpos, num transe colectivo, prestando culto a Pan.


Joshua M.

SETE DIAS SETE PECADOS - A LUXÚRIA (II)


Antília - Princesa da Atlântida (II)

Silvano andava há séculos feliz e tranquilo pelas margens da lagoa verde. Como se vivesse num eterno estado de graça, num sono por vezes morno, como o deve ser o de um guerreiro do amor após longos e lânguidos momentos de prazer. Nada temia, Antillia, a cada amante escolhido, comprovava o seu eterno amor por ele, por ele, Silvano e por mais ninguém. Cada um de seus amantes, correspondia ao seu reflexo. Peles claras, ligeiramente doiradas pelo sol, corpos robustos, próprios de homens que vivem no campo, olhos esverdeados. De cada um deles, por osmose, recebia um intenso prazer proveniente das carícias dedicadas de Antíllia, deleitava-se com a procura dos seus lábios, sôfregos pela exacta cópia dos seus. Via com ternura a forma doce com que os mandava embora, aqueles corpos satisfeitos, amados em seu nome, ou porque alguém com maior semelhança a despertava para outra cruzada, ou porque o próprio tempo, que por ela nunca passava, desvanecia os seus sinais no corpo cansado do seu ultimo amante.
Mas um dia algo mudou. Sentiu-se inquieto e no meio da harmonia dessa sua segunda vida, a inquietude revelava-se como um profundo murro no estômago. À beira da lagoa e nos braços de sua amada, um homem moreno, de olhos profundos, amendoados, beijava-a de forma intensa. Antillia parecia estranha, talvez confusa, mas não desagradada. A volúpia com que tocava naquela pele mate e bronzeada, passeando as mãos ao longo daquelas costas bem delineadas, mostravam-lhe claramente o contrário. Não compreendia o que se estava a passar, aqueles beijos que a sua eterna amada oferecia àquele estranho, não os conseguia sentir, não lhe eram oferecidos a si, não eram seus. Uma onda espuma, enraivecida, inundava-lhe o corpo, veneno em vez de sangue atingia-lhe o cérebro, turvando-lhe em pleno o raciocínio – “Zeus!” – Gritou. Mas, o deus dos deuses não lhe respondia.
Zeus ouvira-o, há muito tempo previra este dia, conhecia a origem daquele uivo. Sabia bem de que veneno nascera. Algo tão simples quanto uma pequena gota do seu próprio odor. No dia em que resgatara Antillia das águas frescas da lagoa, não resistira à sua beleza e transmutado em Silvano, beijara-a devolvendo-a a uma vida edílica mas condicionada. Contudo, cometera um pequeno erro, não sabia se consciente ou inconscientemente, dera por isso pouco depois, mas tarde de mais. Embora todo o seu físico fosse exactamente igual ao de Silvano, envolvia-o o seu cheiro pessoal, suave, subtil, revelando o embuste. Claro que Antillia não se tinha dado imediatamente conta desse detalhe. Mas aquele beijo, o que a resgatara da água e do desgosto, havia sido marcante e determinado a procura de todos os outros. Procurara e encontrara amantes que haviam feito reviver o seu amado pastor, deus dos bosques e do vulcão. Silvano havia reaparecido, ora aqui ora ali, e ao som da sua flauta havia materializado o seu amor por longos e longos anos. Contudo, amante após amante, a busca de Antília refinara-se. Curiosamente, de corpo em corpo, começara a entusiasmá-la as pequenas diferenças: o lábio inferior mais generoso de um, o pequeno desvio do nariz de outro, o sinal nas costas de outro ainda, um pescoço mais alongado e robusto. Não sabia bem porquê, subitamente, já não era realmente a semelhança que a movia mas sim a diferença. Aquilo que fazia com que um corpo fosse único. Essa tendência fora-se acentuando, lentamente. Até que num último corpo, tão igual ao de Silvano que tivera dificuldade em encontrar uma ligeira diferença, sentira -se, pela primeira vez, triste.


Lucinda Gray

sábado, 17 de julho de 2010

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO GULA (I)


Doce Banquete

Chocolate derretido escorre entre os meus dedos percorridos por uma língua que já não me pertence; dentes afundam-se na textura luxuriante da obra prima de um mestre pasteleiro, sem respeito pela sua arte; o meu estômago distende-se até ao seu limite; invoco o vómito...


Jonathan Strange

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO GULA (II)


Hamlet Revisitado

O meu reino por um prato de esparguete!
(e assim se perdem os pequenos poderes...)


Ana Santiago

SETE DIAS SETE PECADOS - A GULA (II)


Vade-mécum da gula (edição de bolso)

Hoje amar-te-ei com mais apetite ainda, aguçado pela abstinência da última sexta-feira que dizem que foi santa.
Deita-te, meu amor, e deixa-me preparar-te. Passarei suavemente pela tua pele um óleo perfumado a desejo e voragem, lascívia amaviada de sonhos meus. Sentirás o toque indulgente da magia por segundos, em laivos inconscientes de prazer depurado. Salpicar-te-ei depois com o roçar dos meus cabelos e far-te-ei adivinhar a sensação da minha pele na tua.
Ao som quase ignorado de Lullaby, temperar-te-ei com o exotismo do açafrão das Índias na busca de uma cura que não desejo e regar-te-ei com grãos do Paraíso moídos num qualquer ritual ancestral desconhecido. Já salivo na ânsia do teu sabor enquanto os teus olhos não me mentem nem me matam.
Ainda esperarás o tempo devido para marinar e então, só depois de atingires o ponto efusivo do limiar da loucura, me sentarei à mesa para pecar contigo, sem guardanapo ao peito.
Passarei as minhas mãos no contorno do teu rosto para mais uma vez sentir a cor dos teus olhos e deixar transpirar a fome de ti. Deixarei escorregá-las pelo teu corpo até o sangue correr em frenesim. E pararei, inconsciente, quando chegar àquele estado de ebulição que me levará quase à suprema satisfação que só o pecado oferta. Entregar-te-ás sem resistência se não queres assistir à extinção do prazer nosso.
Compreende, amor, que és um gourmet de degustação primorosa e exclusiva, com o tempo parado nos ermos do mundo enquanto o nosso ritmo avança, numa clandestinidade deliciosa.
Não olhes para trás que eu só amo à sexta-feira, como os The Cure. Nos outros dias, os de dieta medicamente recomendada, apenas sobrevivo à sede de te amar todos os dias.
E vou querer-te mais que não me contento nem com a cor dos teus olhos nem com o calor do corpo teu.


Berenice Greco

sexta-feira, 16 de julho de 2010

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO AVARITIA (I)


Conta De Rendimento Perpétuo

E o que fez o pedinte quando descobriu que esteve toda a vida sentado a mendigar em cima de um pote de ouro?

Nunca saberemos...


Ana Santiago

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO AVARITIA (II)


Cela Dourada

No escuro, uma única vela; o ouro pede-lhe a luz emprestada e devolve-a com juros; eu sou o que tenho; eu tenho o que sou.


Jonathan Strange

SETE DIAS SETE PECADOS - A AVAREZA (I)


Almanaque doutrinário do avaro

Considere estas indicações como advertências vitais para a sua aridez de espírito.

No dia 1 de cada mês, não prodigalize a sua vontade de partilhar o que possui. Ao quinto dia, reveja o inventário dos haveres que ainda não detém. No décimo dia, reinvente estratégias mesquinhas para fazer render com juros o seu lado mais mofino. Dia 15 é a data ideal para cobrar a onzena aos seus devedores para que estes, caso quebrem o contrato, paguem mais as usuras devidas, – a sua tendência inata de agiota saberá tratar disso no momento. No vigésimo dia do mês, não se esqueça de fazer dobrar os sinos pela generosidade que nunca conheceu nem nunca lhe bateu à porta. Dia 25 é dia de contabilizar as migalhas que encontrou nos bueiros bafientos da cidade desde o passado dia 26.

Entrementes, poderá montar guarda ao cofre em defesa dos bens que trazem o mal aos outros.

Ex nihilo nihil


Berenice Greco

SETE DIAS SETE PECADOS - A AVAREZA (II)


O Apelo de Mammon

Numa fila interminável, espero pela minha única refeição decente do dia. Todos os dias, à mesma hora, repete-se este ritual. É precisamente neste momento que assombra na minha mente o motivo que me levou a esta situação. Enquanto aguardo a minha vez, a história da minha vida desenrola-se como uma fita cinematográfica à velocidade da luz.
Tinha vindo para Nova Iorque trabalhar como bancário na City, a mudança para um dos centros económicos mais importantes do mundo, permitir-me-ia estabelecer contactos com o mundo da alta finança e, assim, enriquecer mais facilmente.
Observava diariamente o modus vivendi da alta burguesia que transpirava glamour e sumptuosidade através da acumulação de fortuna. Era esse o meu sonho, ter para ser respeitado e admirado.
Alguns meses após, conheci, num café em frente ao banco, Lisie, uma bibliotecária. Começámos a sair frequentemente e após algum tempo iniciámos uma relação. Apesar de gostarmos um do outro, tínhamos perspectivas de vida algo diferentes; Lisie não ligava muito ao dinheiro, gostava saber mais e mais, por isso, nunca saia da biblioteca sem requisitar um livro.
Quanto a mim, estava completamente absorvido no mundo dos dólares, e começara a entender de que forma poderia aumentar a minha reserva de ouro sem muito esforço.
Comecei por ir algumas vezes a Wall Street para perceber como funcionava o mercado das acções. Pouco tempo depois, apreendi a lógica deste mercado, muito próspera e rápida. Assim que acumulei algum capital, resolvi começar a investir em acções, e ia diariamente à Bolsa de Valores. Numa das vezes que estava com Lisie, conversava sobre as minhas aplicações financeiras, aliás, era sempre eu a falar da mesma coisa, até que ela, com um sorriso algo irritado, retorquiu: - Mammon tem-te visitado muitas vezes!? Não entendendo aquela afirmação, fiquei algo intrigado, e pedi-lhe que me elucidasse. Após longa explanação acerca daquela criatura, em tom de crítica respondi: - Essas historietas não passam disso mesmo! A sabedoria não dá lucro! Lisie terminou dizendo: - Não há maior riqueza do que a acumulação de conhecimento.
Naquele fatídico dia – 29 de Outubro de 1929 – relembrei aquele diálogo áspero, acabara de perder todas as minhas economias naqueles malfadados títulos da Bolsa. Tudo o que agora possuía era um monte de papéis sem qualquer valor. A crise instalou-se e ambos ficámos desempregados. Lisie voltou para a sua terra natal e eu fiquei a deambular pelas ruas de Nova Iorque esperando por melhores dias.
Agora sentado, com o tabuleiro à minha frente, olho fixamente para uma imagem numa dessas acções que guardei. Sim, é mesmo Mammon com o seu ar imperial a seduzir-me: I want you!

M. Jota

quinta-feira, 15 de julho de 2010

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO PIGNITIA (I)


Trabalhos Cansados

A minha mãe diz que há gente que já nasceu cansada. Parece que a estou a ver a dizer isto com ar de reprovação. Mas também o diz muitas vezes a rir.

Para mim, a preguiça está antes e depois das grandes obras e das grandes ideias. Que venha o primeiro cansaço que não se deveu à preguiça.


Ana Santiago

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO PIGNITIA (II)


Ondas Calmas

Com os olhos fechados oiço as ondas do mar, à distância e saboreio lentamente a ambrósia terrena; O calor e a brisa acariciam o meu corpo; Ocasionalmente, navego com serenidade os reinos de Morpheu; Com tranquilidade, ignoro o choro faminto dos meus filhos.


Jonathan Strange

SETE DIAS SETE PECADOS - A PREGUIÇA (I)


belphegor (morto por viver)

não me apetece. não quero. não volto. desisto. não insisto. não persisto. paro. paro de novo. outra vez. volto a parar. aguento. sento-me. deito-me. viro-me. sem virar. para um lado. para outro. encosto-me. recosto-me. dispo-me. tenho sono. tenho rádio. nao tenho actividade. não tenho. não tenho música. não tenho vontade. não danço. não tenho habilidade. não na verdade. não é mentira. por aqui me fico. por cá me acoito. por aqui fico. por nada. feito em nada. por aqui. daqui a nada. ninguém me tira. daqui por nada. fico por ficar. para não ter. não ter de dar. não ter de ficar. e fico a par. se ela deitar. se ela não ressonar. durmo. ensonado. ao sonhar. a imaginar. o sonhar-te. o sonhar-me. ao sonhar-nos. toco-me. envergonho-me. estico-me. coço-me. espreguiço-me. ressono. tenho sono. fico. fico por ficar. por voltar. volto a ficar. sem fazer. sem intervir. não vou votar. devotamente. eternamente. sem saber. o que fazer. porquê. porque não. para quê, o quê. o que fazer. estar sem fazer. sei fazer. não sei fazer. o que fazer? fico sem saber. não quero saber. não quero ser. não quero estar. só não quero. não ter de estar. não ter de trabalhar. não fugir. não cavar. não ir. não ter de ir. não ir ao fundo. não ir ao mundo. não à vontade. não de verdade. não me vou. não me venho. não tenho. não quero. não lá no fundo. não mergulho. não lá no mundo. não me lavo. fico imundo. fico acostado. fico mesmo suado. mesmo com pecado. mesmo sem pecado. só por um bocado. relaxado. assim refastelado. assim recostado. assim assim. por mim. assim como assim. entre mim e mim. entre ti e mim. entre mim e ti. sou assim. sou sim. não sou não. sou sem vida. sou vida de cão. sou calão. sou mesmo assim. na mesma o mesmo. mesmo assim. quero lá saber. saber de ti. saber de mim. do que quero. do que quer que seja. que me importa a mim. não sentir. não servir. não me vir. não me querer. não me quero vir. quero desistir. quero fingir. não fazer. não me ler. não me escrever. não ler o que escrevo. não mentir. mentir que minto. fingir que leio. fingir que sinto. fingir que minto. deixar de fingir. escrever sem escrever. pensar sem sopesar. só pesar. ficar pesado. sem peso. sem pesar. emagrecer. engordar. estar sem comer. guardar que fazer. e faltar. e faltar que comer. e faltar ao fazer. não pecar. não pecar para não pecar. ficar sem escrever. só por pecar. até pecar enfim. e deixar pecar. e deixar de escrever. porque não sei. não sei ler. não sei o que fazer. nem ser. nem ter. nem escrever. nem querer ser. nem deixar de ser. não me apetece. nem viver... nem morrer!


Joshua M.

SETE DIAS SETE PECADOS - A PREGUIÇA (II)


A virtude da Preguiça

A indústria estava em mutação, as máquinas invadiam as unidades fabris substituindo o operário, provocando uma nova vaga de desempregados e de famintos. Em contrapartida, o aumento da produção engrossava ainda mais os lucros de uma alta burguesia industrial. A sociedade estava fragmentada: a farta riqueza de uns, resultava na miserabilidade de outros. Neste mundo em mudança agudizava-se a questão social, emergiam novos movimentos políticos. As classes trabalhadoras, que entretanto começavam a ter consciência dos seus direitos, entravam em via de colisão com os interesses dos patrões. Nas fábricas e nas praças, eram realizados plenários de trabalhadores para informar e organizar estratégias de luta por um mundo melhor, no qual, a riqueza fosse distribuída mais equitativamente por todos os que se engajavam no processo produtivo.
Bernard ia, pela primeira vez, a uma dessas manifestações em defesa dos direitos dos trabalhadores, estava convicto que as suas reivindicações contra a desumanidade da maquinaria seriam atendidas. Tinha sido convidado por um sindicalista chamado Pierre, que operava na mesma fábrica. Depois de terem caminhado ao longo da avenida gritando palavras de ordem contra a maquinização, chegaram ao local combinado, onde se juntaram a algumas dezenas de companheiros. Mas, para seu espanto, estes vociferavam contra o eminente orador que, discursando no alto de um palanque, ia desfiando algumas frases de sapientes, assumindo uma defesa da maquinaria e da preguiça. Bernard reteve duas delas pelo seu cariz subversivo – a primeira, quando citou Lessing, que aconselhava, “Sejamos preguiçosos em tudo, excepto em amar e em beber, excepto em sermos preguiçosos”; e, uma outra, retirada do Evangelho, em que São Mateus, predicava aos fiéis: ”Contemplai o crescimento dos lírios dos campos, eles não trabalham nem fiam e, todavia, digo-vos, Salomão, em toda a sua glória, não se vestiu com maior brilho”.
Perplexo e confuso com a dissertação do orador, questionava-se: por que razão, em vez de um direito ao trabalho, ele falara apenas num direito ao descanso? Bernard revelava um semblante carregado de dúvidas, a sua cabeça fervilhava, sentindo-se ainda mais confuso após o meeting. Abordou Pierre e questionou-o sobre o que ele pensava das palavras de tão revolucionário orador. No final da jornada de trabalho o seu companheiro prontificou-se em esclarecê-lo mas, era já tarde, quando saíram da fábrica e as incertezas de Bernard teriam de esperar pelo dia seguinte.
Na manhã seguinte, enquanto comiam, sentados sobre um tear mecânico, Pierre retirou da lancheira o periódico L’Egalité, de Maio de 1880, e sugeriu que lesse com muita atenção o artigo de Paul Lafargue. Ficou estupefacto, ao ler nele as palavras que o orador dissera no dia anterior. Lafargue afirmava, no seu artigo, que as grandes civilizações desprezavam o trabalho, como era o caso dos gregos. Na sociedade grega apenas se toleravam dois tipos de actividade: o Otium Philosophandi e o Nec Otium – apenas aos escravos era permitido trabalhar; ao homem livre estavam reservados exercícios físicos, jogos de inteligência, ou o comércio. Os filósofos gregos ensinavam o menosprezo pelo labor, consideravam-no degradante para o homem livre, por oposição, a preguiça era exaltada e cantada pelos poetas. Agora entendia aquela tirada de São Mateus: afinal, até o próprio Cristo tinha pregado na montanha a virtude da preguiça. Afinal, as máquinas não eram inimigas do Homem e o preconceito da escravatura em Aristóteles e Pitágoras estaria agora resolvido sem sacrificar alguns Homens ao interesse de outros, pois, seriam elas a efectuar o trabalho, dispensando-os para a ociosidade. Mas, para que esta realidade fosse alcançada, seria também necessário que os meios de produção fossem geridos por todos, desoprimindo a humanidade, concedendo-lhe assim o verdadeiro Direito à Preguiça.


M. Jota

quarta-feira, 14 de julho de 2010

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO IRA (I)


A Fugaz Chama do Pecado

Sangue quente jorra como água. A minha fúria não conhece limites: porque eu sou o avatar da morte; um turbilhão de fogo e aço mais poderoso que um titã. Até que, gasto o meu fulgor, exaurida a minha loucura, sou menos que nada.


Jonathan Strange

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO IRA (II)


Do catecismo de um mar morto

Deus criou o homem e a mulher. Descansou e tudo, mas depois viu que a obra estava incompleta. Não bastavam a árvore, a maçã e a serpente. Vieram mais homens e muitas mais mulheres. Muitas línguas e poderosos vocábulos. Muita inteligência e sedutoras tecnologias para nos agredirmos. Como o ódio não era suficiente, para nos conhecermos, Deus ensinou-nos a pensar menos e escondeu-nos a razão. E assim nasceu a ira. Deus nunca mais dormiu descansado. Nós nunca mais nos escondemos e às vezes até deixamos de alimentar ódios.


Ana Santiago

SETE DIAS SETE PECADOS - A IRA (I)


Os Dias da Ira

Lembrava-se de forma um pouco atabalhoada o que acontecera momentos antes. Encontrava-se com uns amigos no Pub de Donahue. Os ânimos não estavam grande coisa, mas havia umas miúdas giras ao balcão com as quais talvez pudesse ter sorte. Sabia que no outro dia Claire não tinha ficado satisfeita quando fizeram sexo. Sentiu a falsidade dos seus gemidos ditados para o tranquilizar, ou pior, para o fazer parar. Mas acreditava ser um problema dela, não seu. Achava-se tonificado e forte e nunca nenhuma miúda se havia queixado… nem mesmo Claire.
Deambulava por esses pensamentos como quem navega pelo mar morto e eis que avista ao balcão do “seu” Pub um estrangeiro com a pele cor de mel, olhos brilhantes. - Mas quem é aquele gajo ali ao balcão? Sim... Aquele black, o que está ao lado daquelas miúdas!? – Perguntou aos amigos, cujos olhares recaíram todos sobre o intruso.
A cabeça não parava de rodar e como quem rumina erva amarga constatava em silêncio que o gajo era todo jeitoso. Raios! Eu que até sou um garanhão sinto o meu sexo remexer-se quando o vejo. Sabia que se Claire o visse agora iria mirá-lo, iria comê-lo com os olhos. Tinha a certeza. Ainda por cima esses escurinhos têm fama de serem bons na cama. Se esses tipos fossem para as suas terras era um descanso.
- Olhem! O gajo está a rir-se para as nossas miúdas... Vais pagá-las! Não sabes o que te espera, cabrão... Vais acordar no inferno!

As luzes da ambulância ajudavam a visualizar o chão que aos tombos percorria apressadamente. O que vale é que a casa não é longe e Claire estará lá para ajudar a limpar o sangue das suas mãos e da sua roupa. O filho da mãe sujou-me todo - dizia para com os seus botões. Claire abriu-lhe a porta e olhou-o com horror e desprezo e soltou: – Outra vez, um dia a tua violência ainda te mata!  Desvairado ele, solta em tom de ameaça: - Que queres tu mulher? A culpa foi toda tua! Cabra!

A cinco mil quilómetros do Pub de Donahue, Dolores não queria crer no que ouvia. O seu menino encontrava-se em estado crítico no hospital de Harlington. À medida que as palavras eram proferidas do outro lado do telefone, deixou de perceber qual a cadência do seu próprio ritmo cardíaco e uma substância liquída e fria foi lhe subindo pelo corpo começando pelos dedos dos pés até lhe afogar o olhar. Não sentia o seu próprio corpo. Tudo era uma dor que nem doía, e um escuro forte e potente que aniquilava qualquer lei da física. Sentia-se com uma força inexplicável e uma clarividência absoluta. Largou tudo e saiu em silêncio.

Alguns dias depois, os tablóides noticiam que um homem fora encontrado morto no chão do seu apartamento. As suas entranhas tinham sido comidas pela assassina, uma mulher latina de cerca de cinquenta anos, que ficou sentada ao lado do corpo até a polícia chegar. Este era o homicídio mais bizarro dos últimos cinquenta anos ocorrido na pequena cidade de Darkstone.


Lucinda Gray

SETE DIAS SETE PECADOS - A IRA (II)


A Ira dos Amores

Depois começámos a fumar as beatas que restaram da noite anterior no cinzeiro. Também deixámos de almoçar, e de jantar tarde, como fazíamos, prolongando a noite com medo de adormecermos e estarmos aquelas horas todas sem poder conversar e olhar olhos nos olhos. A nossa sobrevivência, aquilo que verdadeiramente nos impediu de morrer, deveu-se a idas ao frigorífico sem regras, para comer as sobras de um tempo em que elaborávamos menus com muitas calorias que rapidamente consumíamos.
Andámos anos a gerir a raiva, meu amor isto, meu amor aquilo, e quando estávamos zangados íamos para a varanda sozinhos ou dar uma volta com os amigos, ou às compras. Eu passava a vida nas compras. Por isso comprei tantos sapatos vermelhos. O vermelho é a cor da revolta contida, disse-me a minha terapeuta. Fez-me lembrar aquela história da menina dos sapatos vermelhos enfeitiçados que a forçaram a dançar sem parar e que a levaram ao esgotamento físico.
Naquela noite não sei o que aconteceu, mas fizemos sangue. Até me incharam os lábios. Tu ias ficando sem cabelo. Chamámo-nos nomes feios, quando nos achávamos tão bonitos. Foram demasiadas compras, demasiadas festas, demasiados conhecidos, demasiadas fugas e demasiado sexo de uma noite muitas noites seguidas. Mais fodas, menos amor. E assim até comprei o livro “Mais Platão, menos Prozac”, a ver se a filosofia me salvava.
Na descoberta da ira descobrimos aquilo que sempre tememos – o nosso avesso. Aquelas costuras mal feitas que sempre quisemos esconder por baixo da roupa de marca.
Depois começámos a fumar as beatas que restaram da noite anterior no cinzeiro.

Meu amor, vai-me comprar tabaco que eu depois passo no supermercado quando vier do trabalho.


Ana Santiago

terça-feira, 13 de julho de 2010

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO INVIDIA (I)


Invisualidades Electivas

A inveja é, essencialmente, um problema de cegueira: há quem não veja o que tem, porque só quer ver as vantagens daquilo que o outro tem.
Também pode ser apenas uma questão de vista preguiçosa: nestes casos não se é má pessoa de todo.


Ana Santiago

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO INVIDIA (II)


Coração Sem Brilho

Verde e amarga como absinto, insidiosa como a serpente: ela apodrece o coração e deixa no seu lugar um vazio de desespero; porque eu só quero o que não tenho e logo que o tenho deixo de o querer.


Jonathan Strange

SETE DIAS SETE PECADOS - A INVEJA (I)


Se a Inveja matasse...

Se a inveja matasse não tínhamos corpo. As pernas sumiam-se para uma capa de revista, as mamas iam direitinhas, ou caidinhas, para o cirurgião do Norte, o rabo apanhava um voo para o Brasil, a cara afogava-se num mar de botox, a barriga encolhia-se de vergonha numa marquesa.
Se a inveja realmente matasse não tínhamos cérebro. Entrávamos em morte provocada, presos por uma máquina, sem mais pensamentos, nem sofrimentos.
Se a inveja nos matasse o coração parava. Os amigos desapareciam para outras casas, outros jantares, outras festas. Visitariam outros amigos doentes, ofereceriam presentes a outras gentes. Os amantes cairiam da nossa cama. Os rivais não dariam luta, venciam-nos com desprezo.
A inveja não mata. É morte lenta, assistida por nós, e acompanha-nos até à hora do óbito legal.
A inveja não nos mata, faz-nos morrer mais cedo, carregando o corpo, a cabeça e o coração que temos aos tombos, em decomposição às vezes.


Ana Santiago

SETE DIAS SETE PECADOS - A INVEJA (II)


Lacrimosa

Pão e vinho, que deliciosa ironia. Depois de um dia a estacionar carros e a apelar à generosidade alheia, esta figura patética aprecia o pôr-do-sol. Memórias poderosas como vulcões assaltam a sua mente e fazem os seus olhos jorrar lágrimas quentes como lava.
Tem como única companhia o melhor amigo do homem. Um exemplar coxo e sarnento que tal como ele perdeu o jogo da vida.
“Queres ver um truque rapaz.” disse o ancião libertando da sua boca o fétido e amargo cheiro do desespero.
Pega então na sua garrafa de vinho, quase vazia e com um passar das suas mãos, como um ilusionista barato, enche por magia a vasilha vítrea.
“Hah! Ainda tenho um truque ou dois na manga.”
O rafeiro, ouvindo uma voz que lhe faz companhia, deita-se junto ao mendigo e também ele parece apreciar o pôr-do-sol.
“Queres ouvir uma história rapaz?” disse o mendigo.
Tomando o silêncio do animal como assentimento, o mendigo fala então. “Sabes que eu, como todos os outros, não estive sempre aqui. Também já fui um vencedor. A minha luz iluminou o universo, a minha beleza era incomparável, mas não foi suficiente. Queria ser o alfa e o ómega, queria ter toda a humanidade aos meus pés, apenas eu e nenhum outro era digno de tão alto cargo. De ser senhor de Jerusalém, a cidade prateada onde os anjos voam e a o êxtase é eterno. Pelo menos para aqueles que se contentam com isso. Eu, eu sempre quis mais, nada me chegava.”
É neste momento que o rafeiro olha nos olhos do mendigo para aí ver reflectida a passada glória celeste de que ele foi portador. Sem saber o que fazer com tamanha revelação, o rafeiro limita-se a coçar as pulgas e volta a deitar-se.
“Em todo o caso, podes ver como é que isto terminou! Banido do céu! Também eu expulso do paraíso. Sabes, eu já dominei nações inteiras, já ordenei o holocausto de milhões, no auge do meu poder e enlouquecido com a minha própria vaidade, reduzi cidades a cinzas. Mas nada disso me bastou. A guerra, perdi-a, e mesmo que a tivesse ganho ainda assim não teria o que queria.”
O animal olha então olha de novo para o mendigo e inclina ligeiramente a cabeça para o lado, numa expressão de verdadeira interrogação.
“Sabes, eu não invejo Lúcifer por ter ganho a guerra. Invejo-o por ter tido a coragem para me desafiar!”
Sentindo a loucura na voz do homem que foi deus, o animal afasta-se coxeando.
“Tomai e bebei todos!” grita o homem. “Tomai e bebei todos!” grita o deus, “Eu hei-de voltar! Se o cabrão do Lúcifer conseguiu, eu também vou conseguir!” grita o louco.
“Assim que acabar esta garrafa...” murmurou.
 
Jonathan Strange

segunda-feira, 12 de julho de 2010

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO VANITAS (I)


A Soberba de Lúcifer

Era um anjo muito anjo. Que nos punha debaixo das suas asas e nos levava a ver coisas que só ele conhecia. Não nos deixava ficar tristes. Não podíamos chorar. Mas também não nos apetecia chorar. Não nos deixava fazer disparates nem dar erros. Ninguém se chateava connosco, porque nós éramos seres lindos. Os nossos pais diziam que éramos filhos perfeitos. Um dia, caiu da torre da nossa escola e estatelou-se no chão. Havia muito sangue. E as penas das suas asas voavam por todo o lado. A Dona Henriqueta da secretaria disse-nos que deus o castigou, porque ele achou que era o melhor anjo do mundo. O novo anjo lá da escola pede-nos conselhos.

(E agora quem está de castigo sou eu que não fiz os trabalhos de casa)

Ana Santiago

SETE DIAS SETE PECADOS - PROVOCATIO VANITAS (II)


Vanitas Vanitatum Et Omnia Vanitas


Abro as minhas asas de fénix e resplandeço ao sol; abro a minha boca e canto a música das esferas: gostaria de ser outra pessoa, para me poder admirar como eu mereço.
 
Jonathan Strange

SETE DIAS SETE PECADOS - A VAIDADE (I)


Narciso e a Rosa

Narciso acordara um dia já feito homem, desnudo em pleno jardim, porte altivo de quem se espanta de se ver. Narciso nascera brotado de si, de um cruzamento de sol e clorofila, entre o orvalho gelado dos campos. Narciso surgira assim, meio do nada, meio de tudo, como uma espécie de Messias, com a ilusão de com seu toque magnânimo mudar o mundo. Narciso gerou-se a si próprio num corpo de homem, mas na ilusão infantil do mundo lhe pertencer. Narciso era também conhecido na gíria como Peter Pan, porque de facto interiormente nunca quis crescer.
Narciso correu os campos, confiante, mostrando toda a pujança do seu ser. Distribuía sorrisos e vislumbres de encantamento, rasgos sapientes de uma barata filosofia que como eureka lhe surge. O mundo para Narciso era ele, e ele de tal forma entranhado que nem se lhe poderia chamar egoísta. Narciso tentava mudar o mundo, Narciso sorria ao mundo, Narciso procurava conhecer o mundo, mas porque o mundo era seu, e tudo o que consigo se cruzasse a si se adaptaria, e todo o pensamento que formulasse partiria, giraria e acabaria no melhor para si. Narciso era assim um egocêntrico.
Um dia, ao caminhar para o lago onde sempre banhava seu corpo e sua alma (aquele irresistível momento orgásmico em que beija seu próprio corpo), descobriu algo novo entre o campo de flores que de cor conhecia (eram todas suas, todas, as florais memórias que ali jaziam inalteráveis). Era uma rosa, nova rosa vermelha que durante a noite brotara. Ela brilhava tão intensamente, cintilava tão ardentemente, tão diferente lhe parecia daquela paisagem que já conhecia!... A rosa era uma espécie de mistério. Havia sonhado com ela, mas nunca a pedira. Era rúbea, linda, mas tinha espinhos; ao contrário de todas as outras não desfalecia à sua passagem, era forte, indiferente, vivia independente a sua espinhosa força inebriada. Narciso logo se obcecara por aquela nova flor. Desconhecida, aparentemente distante, bela, tinha que tê-la! A rosa seria sua, tinha de ser!
Assim, ao voltar do seu ritual de auto-adulação, Narciso parou junto à rosa. Regou-a, sentou-se junto a ela, observou o sol irradiando em si mil tonalidades de escarlate, sorriu-lhe. Aos poucos foi-se aproximando, acariciou-lhe as pétalas, e de repente já os espinhos desapareciam ao vê-lo, e toda a vulnerabilidade da rosa lhe era visível. A rosa, como qualquer guerreira, é coragem que se mascara de defesas mas que é igualmente frágil por dentro. Narciso não o esperava. Para si o mundo era um prolongamento de adoração, uma batalha travada para afirmar o eu. Narciso viu, beijou, tomou em si a flor, e partiu saciado. A rosa era agora já só mais uma, talvez um pouco mais bonita, no meio de tantas outras. A rosa que nascera sem que ele pedisse era já sua, podia voltar ao rio para se banhar, inchando o peito em mais uma conquista. A rosa, por sua vez, aprendera que somos responsáveis por tudo aquilo que cativamos, e precisava de cativar e cativar-se. A rosa, que é forte, que é por si própria, que sabe partilhar com o mundo o melhor de si, que não vê o mundo à sua imagem mas como algo a que pertence, criara espinhos… Habituara-se havia já muito tempo à crueldade do mundo e o seu medo tornara-se enorme. Mas a rosa nunca resistia a um carinho inesperado... E a Narciso dera parte de si.
Narciso partira, julgando que nada mais teria para conhecer, permanecendo na Terra do Nunca onde não sabe o que significa cativar, onde não sabe o que significa olhar o mundo, onde não sabe amar mais que a sua própria imagem.

Narciso caiu no rio. A rosa, apesar de tudo, ainda chorou.
 
 
Virginia Machado