sexta-feira, 30 de abril de 2010


mitologia

finalmente os olhos começam a pesar. horas contorcendo os lençóis amarrotados, olhando o branco cálido de um espaço sufocante, fitando o nada dos carneiros saltitantes que se contam. horas tentando encontrar uma porta para o outro lado da consciência. peguei num livro. há tanto tempo não lia... foi beckett. foi teatro. foi sentir-me de novo num palco. alegria. parece que mesmo quando escrevo somente corro ficando parada. parece que estando parada estou sempre ainda assim correndo...tal como tu me dizias.
gostava de colar post-it's na parede com tudo o que me lembras...só palavras que te definam, gritem ou sussurrem o que em mim significas. gostava, mas é tão cedo...e gosto de saber que não há pressa. e gosto de saber que ainda dormes ao meu lado amanhã.
chove lá fora. dizem que é a aproximação de um ciclone qualquer. não sei bem porquê, a palavra ciclone sempre me lembrou a palavra centauro; e centauro é em mim a representação de tudo o que é másculo, de todas essas lendas mais ou menos místicas de destemidos heróis e minotauros, de lutas infindavelmente espartanas, de testosterona que sobressai em farta barba. não sei porquê, pensar centauro traz-me à mente a tua imagem. e, sabendo já porquê, sorrio. sorrio enquanto os olhos se contorcem devagar, enquanto os músculos se tornam dormentes, enquanto o livro cai por entre os lençóis vincados de tanto os apertar para lhes espremer o perfume teu que ali ficou. e hoje não tenho medo. sei que ficas em cada raio de luz de cada novo amanhã.

Virginia Machado

quinta-feira, 29 de abril de 2010


fascículo único de auto-elegia esquizóide de um testículo de fisiologia não-fascizóide

dizer o que pensamos é sempre uma asneira. de qualquer maneira, aos quinze anos escrevi people are so fucking stupid sem saber que era impossível escapar impune de qualquer parede uma vez pintada. estrutura de argamassa e botão sem casa é o quanto nos une, e ultrapassado o ranho na cara tristemente lavada cada espécime desenvolve um intelecto que sobrevive à custa de mendicidade sem-abrigo por cima da boca incapaz de se manter deslumbrada. boquiaberto desvendei uma pega que me adestrou na perseguição de coisas com brilho. e a parede foi entretanto renovada. o que não serviu de nada. feito em plural respirámos à vez para sermos um filho. ela herdara o fôlego de um animal, eu apenas pulmões de cabidela bem temperada. naquela altura estava na moda a expressão sou eu que me quilho. era o tempo dos vinte e mais e só pelo gozo apeteceu-me tornar a investir num people are so fucking ridiculous. escapei a custo à urdidura da autoridade. se o coração tinha cada vez mais pernas, a verdade, filha-da-puta da verdade, é que no amor pelo grafíti já me pesava a idade. deixei-me disso. deixei-me de coisas, depois deixei-me de pensamentos, deixei-me de momentos de alucinações de cenas de merdas e de chinfrim. tenho a modesta impressão que pouco depois também me deixei de mim. estava nesta pasmaceira quando algum génio de pila minúscula se lembrou de inventar a bunda larga e me veio cair no colo uma brasileira que me prospectou com a mão pelo buraco da algibeira até à ilharga e lampeira perguntou cê-tá-à-fim? era boa de mais para ser verdadeira e tempus fugit apeteceu-me fazer-lhe logo ali uma oral em latim – não fosse a caganeira teria dito que sim. é bem feito para aprender a não abusar do tinto carrascão. ora, virtude é dizer que não. não há quem te mude, gritava o patrão ao despedir-me agitando o lenço. do senhor lourenço também me despedi com educação levantando-lhe apenas um dedo (por causa da recessão). é o medo, somente o medo que nos faz poupar. mas o que sobrou do tinto eu quis foi gastar em tinta, pois a rondar os quarenta achava que people are so fucking false mas parede jurava a pés-juntos não conheço nenhuma que minta. estava só. o nó, ai o nó no estômago do tamanho de um cão. a espada da azia. o passado é um osso e não há mandíbulas que consigam atingir a mão do dono. apesar da tentação. de tanto querer mordê-lo sobrevem-nos uma avalanche de cansaço. um corpo esponjoso a transbordar de anestesia. talvez por isso o único esperanto do mundo seja o sono ou a saudade que uns inventam do maternal regaço e outros afugentam do universal bagaço. people are so fucking numb foi para aí o meu canto nono. e o buraco do ozono, oh invenção enganosa!, tornou-se um franchising mesmo ao virar da esquina. já não havia nada para respirar, mas o marketing... ah! o marketing insistia! dei por mim a sufocar entre outdoors de oxigénio transgénico importado da argentina com o alto patrocínio do cata vento dezasseis que colocaram no alto do campanário imaginário que não tenho bem a certeza que exista na capela sistina (é que na televisão é tudo inventado!). asfixiado, percebi: agora a religião católica passou a funcionar a energia eólica. antes de me faltar o ar pela dízima vez fui amigar-me da parede e escrevi people are so fucking naive como quem mata a sede. vede, oh vede o milagre da igreja universal que converte a dor em euromilhões!, clamaram no estádio mesmo ali ao lado uns figurões com voz de gatchinhos e sotaque de leões. fui dis-forçadamente afastado, mas ainda bem. mesmo que quisesse investir não me sobrava vintém. e afinal os fenómenos do circo paranormal já me começavam a fazer sentir mal provocando espasmos no pubococcígeo e derrames no hemorroidal. já se vê, estava por aí nos sessenta e etecetera e tal que é aquela fase (ab)surda em que já ninguém nos aguenta e passeamos a transbordar generosamente um cálido hálito de pestilência fecal. não é que se esteja mal: ele há tempo para ler, tempo para maldizer deputados de putedos e primeiros-sinistros engenheiros da desconstrução civil, maldizendo de maneiras mil, e tempo para investir na quadrangulação enigmática milenar da sueca antes do triunfo final da cosa nostra reumática, da ciática ou de doença ainda mais terminal como sejam as pensões de insustentável leveza matemática. o que começa é a deixar de haver maneira de – como referi-lo de forma identificável mas simpática...? - saltar-lhes para a cueca. quer dizer, haver há, mas é uma seca porque depois aqui e acolá sabe-se de uns e outros que esticaram tanto que acabaram por esticar o pernil de pau feito, o que vistas bem as coisas é mais um feitio que um defeito. mas mesmo assim não dá nenhum jeito tamanha carnal paixão na hora fatídica final de cerrar o caixão. além disso, e apesar das grelhas, o que se procura na praia vetusta em ruminante imaginação de aventura são as passarinhas na estreita flor da saúde e não as congéneres velhas definhadinhas e babadas à espera do enfermeiro que as mude. bem sei que é rude, mas é mesmo assim. cresci finalmente e finalmente à parede nunca mais vim. coisa definitiva, mandei em testamento que no irreversível fim após saldar o IVA escrevessem só para mim algo terno em letras carmim: people are so fucking dead. parede demolida, agora já nada me impede - já nem sequer a vida. e, creio que a memória não me falha, se houver lá para os recônditos da infernal movida as apregoadas setenta e duas virgens ou coisa que o valha, sejam elas mal ou bem apessoadas, castanhas amarelas avermelhadas azuladas verdes brancas ou pretas, não haverá nenhum demo de forquilha ou navalha no jardim das tabuletas que me segure. enquanto a coisa dure, com ou sem camisa de vénus e desde sem-fecho-e-de-espada-à-cinta até aos mais obscuros confins de marte, para dizer o menos, cantando escreverei por toda a parte algo que é quase arte se lhe suprimirmos o fim e que basicamente diz assim people are so fucking

(toby continued, exilado para um paraíso cartografado somente nos anuários de publicidade alegadamente enganosa ou talvez)

Bill Engates

quarta-feira, 28 de abril de 2010


Big Bang

A minha primeira vez não se ficou por ali. Mas podia. Porque a minha primeira vez também foi a última. Eu nasci da dúvida. Zilhões de partículas espalharam-se em nada.
Um convite para entrar.
Soubesse no que me metia, não teria dado um passo. Mas como? A quietude anula-me. É a dúvida que faz de mim quem sou.
Eu nasci do desejo. Replico o desejo vezes sem conta. Sou o monstro que come tudo e nunca fica satisfeito. Vivo num limbo de dilemas. Angustia-me a serenidade. Corrói-me a impaciência.
Mato-me (ao monstro), e desejo. Por isso tento não matar-me. Mas sofro, porque tenho vontade. Cansado, não resisto e os desejos fazem-se maiores. Desejos suicidas.
Agora o maior desejo é voltar a estar quieto. Mas como? Querer parar pode ser um desejo, estar parado é a minha morte. Eu não posso parar. Tenho de continuar. Imaginação não me falta. É tão cansativo.
O buraco é tão negro que vai acabar por engolir tudo.
Com um bocado de sorte, acabo morto pelo veneno que me criou.
Ainda bem!

Duarte

terça-feira, 27 de abril de 2010

Palavras Versadas


INTIMIDADE

não se trata de uma sede ser capaz de fazer evaporar
um oceano
ou de uma mentira poder ter absoluta razão, ou que
envaidece a abstracção na oxidação do cansaço estético.
e mesmo que não saibamos de que se trata,
sempre diremos que não consiste a fotografia deste momento
em inevitar a obliteração dos exemplos, de uma
consciência que extravia
colégios de identidade, palácios de consolação, relógios
casuais que dão forma aos pormenores do tempo.
encontramo-nos na orla do círculo, na superfície do branco
após o negro que o percorre e mutila como a
invenção que brota ou o poema que transnomina no ventre
e cujos versos mudam de lugar em caso de fogo
e natureza intacta.
sabemos apenas que o presente
é uma prótese do passado, e talvez isso chegue
para que devamos fechar os olhos, contornar os nossos
corpos sem uma só morte sobrevivente, e deixar que
o momento prossiga em completo vazio.

Sylvia Beirute

domingo, 25 de abril de 2010

sábado, 24 de abril de 2010


Um Destes Dias

Sim. Quis fugir. Era-lhe absolutamente necessário abandonar aquele cenário que cheirava a mesquinhez, burocracia, mediocridade, a papéis inúteis já utilizados que nada diziam.
Fugiu então pelo seu corpo dentro, subiu pelos seus lábios acima, e sem e ignorar uma única esquina, vale ou lomba, percorreu o seu caminho. Já do alto dele, algo cansada, mergulhou. Entrou no portal que procurava. Ali, deixou então o seu corpo, deixou-o assim, sem dificuldade, como serpente que larga a pele.
Quando olhou para trás e viu aqueles dois juntos, fundidos um no outro, criando um novo ser de quatro braços e pernas entrelaçadas, a respirar pelo mesmo pulmão, riu-se, leve. Percebeu que o acto era absolutamente divino e que era por ali.
Seguiu em frente, entrando noutra dimensão, num universo sem temperatura nem forma. No paralelo em que tudo começa e acaba, em que tudo se dissolve e se recompõe. Nadou em líquidos cuja composição desconhecia, contornou sombras que a acariciavam com a flexibilidade de músculos tonificados, generosamente descontraídos. Líquidos etéreos sem temperatura, luz sem fonte, pulmão de água. Perdeu todos os sentidos e ficou suspensa, sem oxigénio, sem cor, sem nome, sem tempo.
Não quis regressar, mas uma força que a sugava impedia-a de ficar. A custo, a pele reocupou a fronteira abandonada e novamente sentiu na carne a doce dor do outro. Depois de habituar os olhos à meia-luz, murmurou – “um destes dias não volto”.

Lucinda Gray

sexta-feira, 23 de abril de 2010


Palavras Encruzilhadas

Cansados de acordar passamos as imagens pelos olhos, como mel pela garganta dorida, e vemos a nossa vida acontecer porvir por entre as pedras que se erigem obstáculos. Nunca é assim, nunca nada é assim, nunca o presente que será futuro se adivinha no momento do salto no escuro. A vertigem de onde caímos sobre a profundidade cibernética do nosso destino deixa-nos sempre de olhos perdidos no ocaso, num horizonte tão fundo que a bússola apenas nos dá o sentido do norte poético. Tão longe que já não podemos ver as luzes que se acendem e se apagam cruzadas pelos vultos, somente os fantasmas inacabados do que vamos ser, do outro lado da ponte imaginada, permanecerão monstrificados no nosso íntimo.
De qualquer modo, os nossos corpos são sempre pedras, tempo em viagem até ser areia, pó e sobressalto, entre o mar que não ousamos e a terra que prometemos a nós mesmos. Somos linhas rasas na maré, a mesma mansidão, e tanto desejo compartilhado: as nossas bocas cortadas pelo vento sagram desejos que lambemos até à inconsciência de ficarmos lúcidos.Tu sabes bem, este é o sabor das coisas que sabemos.
Por vezes, ao anoitecer, ficamos fado e mergulhamos directos ao fundo de naus quiméricas, onde a realidade é o sal a queimar-nos os lábios e a comer-nos os sentidos aos poucos – e abrimos o peito sentido ao sentir, abrindo as feridas cada vez mais abertas. Outras vezes, sóbrios como deuses, subimos ao céu que fica lá no fundo de nós-imo e arrancamos a pele que vestimos para estar, para nos darmos dados nus à sorte em carne viva. Cortando as mentes fechadas, o suplício dos corpetes trespassa, como espada, cruza o corpo em frémito agudo.
As dores e os prazeres são cravos martelados na razão de ser que não existe, nem precisa de existir, porque o bem e o mal não precisam de razões para existir. Tudo são surpresas no país de Alice e a mesma verdade do outro lado do que somos, maravilhas de que não desistimos para não termos de desistir de nós próprios, equivocados.
No fim da estrada, apertados contra os nossos ossos, caminhamos por um labirinto de cartas e vemos ao fundo o nosso cadáver placidamente acomodado numa sala de chá verde a desfiar os cordéis de Ariadne, sem nunca achar o chão de veludo que o trará de volta. Ficamos, só para nos ver, sorvemos os venenos de Afrodite e aspiramos o ar quente vindo de África, bem juntinho ao chão que beijamos.
Ajoelhamos e só vemos as nossas mãos: as mãos estão por todas as partes, em todas as construções que vão cair, as mãos contam o tempo em rugas e cicatrizes, as mãos são a cega coincidência, entre a vida e os muros que só podemos tactear - são os olhos que perscrutam nos papéis cartográficos a vereda que percorremos e a que vem a seguir. E o prazer está em todas as mãos, fecha-se nas mãos nas mãos que trocam segredos cruzados. 
Um dia, pela manhã, perguntas-me se tenho fé? Digo-te: tenho prazer, orgasmos sobre os papéis que ainda não escrevi.  E esta é a minha fé - uma maldição que se faz de mãos dadas de palavras nas encruzilhadas. São palavras, são ternas e duras palavras, estas que se colam aos corpos fugidios que as cruzam...

Joshua M.

quinta-feira, 22 de abril de 2010


esquerdino

hoje sei que nunca compreendi verdadeiramente a voz daquela mulher que tricotava o céu com a lã desvelada do seu amar hipnótico. eu, olhando para baixo, tudo o que conseguia ver era o afã maldito das ovelhas em ruínas. e, com a curiosidade tingida de ciúme, às aves imprevisíveis chamava fugitivas. tirava-lhes fotografias para vender, acreditando que o dinheiro serve para ver mundo. aquela voz falava, antes, cantava de uma flor primaveril, flor para além do tempo caduco. cada um dos seus dedos insistia em transformar-se na mais fina porcelana por entre o rasto aberto nos meus cabelos. o arado mudando para sempre a forma do mar. a sua carícia durava o capricho de um fósforo que alumia eternamente. a pólvora de um beijo. nela, vi-nos pela primeira vez a todos como bombas-relógio made in china que acabarão eventualmente por explodir a um preço módico. mas não quis assim, porque ela ensinou-me a tomar amor de imersão. um dia saí de casa para ganhar dinheiro como um homem a sério, qual um verbo rumo ao presente incondicional adormecendo perto do futuro-mais-que-imperfeito. sinto saudades do teu assalto à mão amada. de ouvir-te a voz incendiada dizer que amar é o nosso único direito. de descompreender que o amor é o nosso único defeito. e que o coração é canhoto, não importa em que peito.

Bill Engates

quarta-feira, 21 de abril de 2010


Diário das memórias por esquecer

10 de Abril de 2008, dia em que me apeteceu dar um espirro e levar o mundo de enxurrada… Dia de batalha acesa e de gargalhada fresca com sabor a amora… Presa num mundo desfeito e desconcertado, num mundo que não me quer, num mundo que eu certamente não compreendo. Tenho sono e não durmo, tenho fome e não me sacio. Vivo assim à espera do dia seguinte. Do dia que me faça desejar o dia que vem depois. Descarrego a minha revolta na cor desta página, procuro uma solução que foge, se esquiva, se esconde… E nada. Tudo desfocado na minha mente e para além dos meus olhos. A música, sinto-a na pele, nos poros e nas entranhas. Leva-me com ela na sua harmonia mesclada de tristeza e desencanto. Tenho medo de falar, sinto-me arguida de um processo que não quis criar e criei. Calo-me doravante, porque tudo o que disser poderá ser usado contra mim. Por isso, deixo-me esquecida no canto, para que ninguém repare na minha insignificância, no meu delito. Estes acordes matam-me, mas deleito-me na revolta e na derrota. Ergo-me de mais uma pancada da vida. Se caio, levanto-me. Não há outro caminho. É este.

Berenice Greco

terça-feira, 20 de abril de 2010

Palavras Versadas



CHOVIA E ERA VERÃO

Esqueci-me de como chove nessa rua quando
os grilos se calam e as margaridas
São apenas murmúrios no olhar
A tua rua toda minha naquele tempo
eram dois passos galgados à pressa
para acabar num odor a rosmaninho
que me deixavas nos beijos
Notei que caiu o número da tua porta
Ou talvez não fosse essa a tua porta
ou a tua rua não recordo

Ainda chove na tua rua ou era
para mim a chuva que caía?

Palas Athena

sábado, 17 de abril de 2010


Seguindo o trilho dos Pássaros

A vertigem nublada do começo, de um novo começo, do fim anunciado de algo. A tristeza e o vazio misturam-se com a saliva do desafio e com os sonhos escondidos na gaveta da mesinha de cabeceira. Mas sinto falta dos meus pássaros, do meu nevoeiro, dos sons da água da lagoa ao sabor dos ventos mais loucos. Sinto falta de ter de travar o carro a fundo para não atropelar uma rã. Sinto falta do cheiro a lenha e do cheiro a mofo também.
Finalmente recebi a mensagem dos pássaros que de tanta forma e feitio me enviaram sinais. Eles voam, migram, eu terei que os seguir...

Lucinda Gray

sexta-feira, 16 de abril de 2010


A Origem dos Afectos


Estavam os dois sozinhos, mas não se conheciam há muito tempo, havia ainda algum embaraço no trato entre ambos, pois ela chegara muito depois dos dias. Estavam ambos numa praia, uma praia deserta, uma daquelas praias frequentadas apenas por naturistas, porventura. Na extensão do areal não se topava mais ninguém, para além destes dois seres completamente nus que se miravam mútua e ternamente. Eu olhava para eles, fixo, mas eles pareciam nem sequer se dar conta da minha presença. Ignoravam-me, como se não existisse. Eu não parava de olhar para o olhar deles, que, ávidos um do outro, se entreolhavam: ela perseguia os movimentos dele, admirava o seu aspecto rude e selvagem; ele tinha o olhar preso ao dela, parecia extasiado com a rara beleza daquela criatura. Ela trazia numa das mãos uma maçã, esticou-lhe o braço, ele agarrou o fruto e trincou-o, devolveu-lho e ela trincou também e assim socializaram durante alguns minutos, até ao fim da fome e dos frutos. Nos olhos dele e dela despontavam mãos e nas mãos nasciam miradas que tocavam e eram tocadas. As primeiras carícias foram subindo e descendo o peito dele , desgrenhando e arrepiando – a sua pele recolhia-se ao toque, enrugava-se. As mãos toscas dele passeavam sobre ela, no rosto, ao lado do carinho dos olhos dela.
Um raio parecia ter caído sobre os dois, e, depois de se terem tocado e dado por todos os lugares durante horas a fio, sem tréguas e sem preconceitos, na ressaca, ela dirigiu-se de novo a uma macieira próxima e trouxe mais um regaço cheio de maçãs, que lhe estendeu e partilharam. Comeram ambos até ficarem saciados. Adormeceram. No meio do sono ele despertou inquieto e lançou o olhar na minha direcção, alertado pelo meu pigarrear. Os cigarros que fumara sem parar e toda a cena que havia presenciado, deixaram-me a garganta seca. Rastejei por alguns metros colado ao chão até desaparecer por detrás de uma duna. Ele escutou o meu rastejar e acalmou-a, dizendo-lhe que era apenas uma serpente, que havia logo fugido só ao sentir os seus passos. Voltou ao seio do abraço dela, cingindo-a no abraço dele, respiravam um no outro o odor de um e de outro, e os dois eram um só. E recomeçou o frenesím dos corpos em festa. Ele acendera uma fogueira ao lado, no meio dela; e o fogo dele e dela ateavam as sombras trémulas da carne que se esvaíam dos movimentos dos seus corpos cálidos e sedentos – até a lareira se fazer em brasas lentas e adormecerem de novo, com as bocas coladas pelos lábios adocicados das maçãs.
Aos primeiros gemidos dela voltei a abeirar-me da linha da duna e ficar a assistir a tudo. Não me movia qualquer instinto de voyeurismo sexual, apenas a curiosidade e o olhar preso nos olhos e nos gestos de afecto que ambos davam um ao outro. O destino interpusera-se nos meus sonhos e fazia de mim a testemunha privilegiada de uma casta cena entre dois amantes que há muito se haviam separado e agora se reencontravam, se uniam enfim, para mitigar uma saudade de séculos. Nem todas as histórias podem acabar com a morte de amantes impossiveis. A realidade de tudo o que presenciara (presenciava ainda) levava-me numa viagem por um outro mundo, um mundo mais puro, mais humano, onde as uniões dos seres eram eternas, onde as histórias eram o oposto dessas histórias tristes: não tinham fim e eram sempre o início. Eu sabia-o...
E voltei a saber deles alguns anos mais tarde, por acaso, numa notícia num jornal: haviam sido encontrados empedernidos de afectos, colados um ao outro num abraço, adormecidos; tinham 17 mil anos e eram feitos de barro rijo e assim se haviam conservado por milénios sob a poeira do deserto. Chamaram-lhes Adão e Eva, e, disseram os sages, são um dos mais bem sucedidos casos de dois, porventura o mais conseguido da humanidade.

Joshua M.

quinta-feira, 15 de abril de 2010


Visões do Japão

Ali estava ela sentada, num banco do átrio, numa espera de quem espera pela hora de entrada. A sua ansiedade reflectia-se no movimento corporal, impaciente. Conhecia-o virtualmente, conhecia a sua imagem a partir de uma fotografia, mas ficou imediatamente apaixonada. Entrou numa sala e ei-lo, o próprio, o célebre, prostrado ali mesmo diante dela. Contemplou-o, durante mais de uma hora, comoveu-se, quase chorou. Era de uma beleza intangível, a sua simplicidade provocou-lhe um sentimento em espiral, que a fez seguir até ao infinito. No final, saiu daquela sala envolta no conforto do esperado encontro, levando apenas consigo o resultado da sua contemplação. Ainda hoje, permanecem gravadas na sua memória, aquelas sensações de que nunca despertou. Foi a primeira vez que viu as cores do mar do Japão: o mestre Katsushika Hokusai, chamou-lhe apenas "A Grande Vaga".

M. Jota

quarta-feira, 14 de abril de 2010


O Louco

Um dia hei-de subir a um banco.
Trago-o de casa e pouso-o no meio da praça.
Faça chuva ou faça vento,
faça um frio de rachar,
eu vou estar de braços eloquentes,
abertos para vos dizer:

- Eu não existo!

E a minha ausência será cantada,
no dia em que, apesar de ser visto,
existirei apenas nas vossas cabeças.

Duarte

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Palavras Versadas


Acerca De Um Poema Que Não Li

Um esboço levemente triste do céu
com casas solitárias sob a proximidade da chuva
A noite finalmente chegara
aquela noite única que eu esperara tanto
Aquela noite aguardada desde sempre
pelos campos frios na sua hora
pelo muro em ruínas
pelas pedras enlameadas recentemente
pelo cão que ladrava cuidadosamente
chamando a chuva
por várias formigas ocasionais
implorando o cão

João Belo

domingo, 11 de abril de 2010

sábado, 10 de abril de 2010


Conchas Desabridas

Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes e vejo uma água límpida numa concha marinha. É sempre um corpo amante e fugidio que canta num mar musical o sangue das vogais.
Ramos Rosa

Dormito levemente, o sol da manhã vai lavando com rasgos de luz os olhos da noite, desponta um novo dia e eu dormito. Cada vez menos pesado, sigo pela matina inerte e conchego a coberta. Imagino o sabor dos nossos beijos e imagino-te, cálida, a meu lado, carne que acende a alma para violar os espíritos diminutos: são os corpos que se perfilam atentos e se unem na amálgama do sono, ávidos de roçar fantasias incontáveis; os pés que se encontram e se afagam ao fundo dos panos; as mãos, que, com ripanço, contam os cabelos desgrenhados, soltos pelas almofadas, e tenaz se agarram aos teus seios e te abrem fenda; as velas, que permanecem acesas como monstros impassíveis, a falarem dos nossos segredos, quando nos entregamos aguilhoados pelo vulto fantástico das sombras; os odores fluidos a escorrer pela prontidão erecta, a espada que te fere os lábios a cada estocada e te arranca dolentes vagidos de prazer; as línguas nossas que se enleiam, únicas, como polvos obstinados contra a rede que os tira à vida, em êxtase... São os nossos sentidos, ambos mergulhados na vertigem do abismo; e tu que, com langorosa assertiva, me cicias: - Quero-te….
Assim velamos, assim fazemos o nosso mar alteroso, até à exaustão de ficarmos presos um no outro e adormecermos como conchas, um contra o outro, fechando todas as pérolas que a noite despertou. Acredito agora, ou sonho, que nunca saíste daqui, que estás ainda memória presente no odor das madrugadas mais reais que em mim despontam.

Joshua M.

sexta-feira, 9 de abril de 2010


Metade de mim

Metade de mim acredita, outra metade pergunta se vale a pena. Metade de mim deseja, outra metade nada quer, a não ser o vazio do conhecimento que nada conhece. Metade de mim quer mudar o mundo, a outra metade quer apenas contemplá-lo. Metade de mim pega ao colo todos os esfomeados sem terra, todas as mães sem mãe, todos os filhos sem pais, outra metade mata os Senhores da Guerra e os hipócritas sem coração. Metade de mim ouve pássaros a chilrear, outra, as bombas longínquas a rebentar. Metade de mim é paz, outra metade é guerra. Sou leão e leoa, caço e devoro, protejo e ataco. Sou Deus e Diabo, zelo pelo bem comum, e mando tudo pelos ares. Metade de mim vive aqui, no meio do Atlântico Norte, outra metade tem as malas feitas para partir rumo ao mundo imenso. Metade de mim é música, outra metade silêncio. Sou a autora de metade das minhas acções, porque das reacções os governos são senhores e donos. Metade de mim grita e escreve o que vai na alma, a outra metade cala e vagueia pelo mundo dos sonhos. Metade de mim chora e ri, a outra metade apenas dói. Metade de mim dá abrigo e carinho, outra metade é só cansaço. Metade de mim vibra com o fulgor dos descobridores intrépidos, enfrenta os dias com a caneta em riste e a agenda aberta, a outra metade senta-se à beira de uma lareira, na escuridão de uma noite sem lua e deseja a solidão divina dos animais. Metade de mim é amizade, é alegria infantil e inocente, outra metade a tristeza de todas as dores da humanidade. Quem sou são duas metades de algo. Metade, conheço, outra é apenas uma estranha sem nome nem morada. Metade de mim é gratidão e amor, a outra pergunta se chegou a nascer. Metade de mim é esperança, a outra metade também.

Lucinda Gray

quinta-feira, 8 de abril de 2010


Elipse

Uma espécie de vertigem. Fechar os olhos e o chão baloiçar. Fechar os olhos e o mundo rodopiando e nós no meio, com uma pressão concentrada em moinha na cabeça. Fechar os olhos à espera que passe. Não sei já por que esperar. Uma adrenalina de tudo o que há para fazer, de todos os problemas latentes e iminentes, de todos os que se vislumbram e os que nunca foram embora. Querer lutar, querer ser melhor, ser mais forte. Uma espécie de zumbido lembrando o caminho a percorrer.
Quantas horas passaram? Parece que foi ontem, parece que há milénios atrás. Quanto tempo desconhecido à minha volta... Caras familiares hoje tão incógnitas. Lutar só mais daqui a um bocadinho, enfrentar só mais daqui a um bocadinho, mover só mais daqui a um bocadinho, ser: só mais daqui a um bocadinho.
Do mundo dos mortos se erguem as maleitas do ciclo que quero fechar. Fast forward e chegar ao fim. Que tudo acabe bem. Que enfim tudo acabe.
Encontro os dedos de novo ensanguentados. Não me lembro de me levantar, não me lembro da lãmina na mão, não me lembro de fibras soltando-se, lassas, ficando prontas a expor a carne. Não lembro manhãs de nevoeiro, que acalmam pela paz estagnada da penumbra.
As horas não deixam, todavia, de passar. E o mundo gira. E a vida prossegue. E gritos e choros distantes por que lutar. E projectos inacabados urgindo uma ânsia de término. E gentes e espaços e rotas e sonhos. O mundo que rodopia numa vertigem. O mundo que se esgota por segundos, no embate do corpo contra o chão, no vermelho dos braços e das pernas, no esvair da ansiedade em flecha. Morrer por momentos e ressuscitar. A vida renovada que permanece imutável.
 
Virginia Machado

quarta-feira, 7 de abril de 2010


A Mulher Vassoura

Perto da minha casa, a casa que não é minha, a casa onde durmo, pelo menos até um dia. Perto dessa casa, existe a rua mais limpa. Todos os dias uma mulher esfrega a vassoura no alcatrão, nos corredores de água, nos riscos que desenham o passeio.
Aquela mulher de traços assexuados, rosto vazio, queimado pelo sol e pelo frio, também ele varrido pelo vento, mantém a rua tão limpa e imaculada de despojos, que ninguém, por mais rápido ali passe, pode ficar indiferente.
Todos os dias que me lembro, e apenas nesses, ela está lá. Apetece-me dizer-lhe: - Pare um pouco, por favor! Por vezes dá tanta pena. É tanta a vontade de a meter no carro, de a enfiar em casa, fazer-lhe um chá, sentá-la no sofá a ver uma novela da "TVI".
Um dia, no ano passado, quando o Outono já dava a mão ao Inverno, vinha de volta para casa, de carro. Chovia que Deus a dava. Aquela chuva que só permite que se veja com as escovas na velocidade máxima. Uma humidade terrível. Ao desfazer uma curva, lá estava ela, ao fundo, indiferente à tempestade. Decidi parar uns cinquenta metros antes. Debrucei-me sobre o guiador, a olhar aquele varrer compulsivo. O que fiz a seguir é segredo até para mim. Saí do carro. A chuva acalmara um pouco. Dei os passos que nos afastavam. O cabelo molhado escorria-lhe copiosamente pelo nariz. A roupa pesada colava-lhe aos ossos. A expressão era sempre a mesma. A mais pura convicção da ausência. Dois ou três carros, devem ter passado entretanto, espalhando spray no espaço, abafando o som repetido da vassoura a esfregar. Ela nunca tirava os olhos do chão, sempre muito abertos. Os lábios tremiam e pareciam querer dizer algo. Inclinei-me para ouvir o que dizia. Quando já estava demasiado próximo para não poder passar despercebido, a mulher vassoura contornou o meu corpo como se fosse um poste, sempre a varrer.
É horrível a loucura. É horrível quando nos afastamos tanto, que já não sabemos como voltar para casa.
Eu voltei para o carro a pensar na minha sorte. O seu azar. A condição a que alguns estão condenados, e, outros tantos, quase todos, parecem não ver como se afastam todos os dias um pouco mais para longe de si mesmos. Afundei-me no conforto do banco e esperei que ela desaparecesse no espelho da porta do passageiro. A varrer. Ela nunca pára de varrer.
Hoje, quando fazia a viagem para o trabalho, lá estava ela. Chega a ser reconfortante, vê-la varrer num dia de sol.
É um padrão - pensei. Eu. Também eu, em momentos de insanidade emocional, tenho tendência para reorganizar a minha vida. Arrumar os meus livros, os meus CD’s. Pagar as contas em atraso. Enfiar numa pasta os documentos que espalhei por todos os lados. Arrumar a ideia que as minhas antigas namoradas fazem de mim, qual Earl a limpar o seu Karma. A Xana, quando destrambelha, arruma o quarto, o roupeiro, tem vontade de atirar metade das coisas pela janela. Outros conheço assim, e são tantos.
Naquela mulher que varre, talvez ainda exista um pixel de memória consciente no seu cérebro. Mas, é tão pouco e tão ténue, e é tal o seu esforço e desespero para trazê-la de volta, que aquele neurónio, o seu verdadeiro Eu, mais não faz, do que varrendo, tentar pôr ordem na sua cabeça.
Ela já não vai lá. Eu posso. Podemos quase todos, mas ela não. Aquela mulher tem um filho. Ultimamente o filho acompanha-a com um apanhador na mão.
Disse-me a minha sogra, que quando os homens da câmara vão buscar os contentores do lixo, aquela mulher que faz do varrer a sua vida, enlouquece.
- Mais!? - Disse-lhe eu - quando eles vão, vem ela. Despeja litros de lixívia no chão, por cima da água mal cheirosa que escorre dos sacos. E esfrega, esfrega, esfrega, esfrega... Como quem lava a alma.

Duarte

terça-feira, 6 de abril de 2010

Palavras Versadas



Trago Comigo As Palavras

Trago comigo as palavras
que foram escritas antes
do princípio do mundo
Até hoje ninguem as decifrou senão eu
e por isso só eu as trago
Como o consegui é segredo
que nem a mim próprio revelo
Foi preciso suportar a angústia
de escrevê-las antes de serem escritas
deixando somente que não fossem iguais
nem diferentes

João Belo

sábado, 3 de abril de 2010


Impressões de uma fuga adiada

Nevoeiro. Praia de Espinho ao lado. Comboio. O areal salpicado de arbustos e não ervas daninhas onde a fertilidade se esvai. Praia. Nevoeiro e maresia. Posso correr? Ali parece respirar-se melhor. Posso nadar? Ali parece que se sente menos. Posso ficar?
Ainda carris e carris a perder de vista, esta força que me puxa segue frenética e não sei mais de onde vem. E de onde venho? Para onde vou? Lá fora tudo tão inerte, uma espécie de selvática natureza virgem, uma espécie de nova cidade a descobrir, um novo mundo.
Pergunto-me se poderei talvez hoje ficar. Parar. Às vezes penso como seria parar o tempo... Congelar um início de acção, o papel que cai fica suspenso, a boca escaqueirada da senhora ao lado, o acidente quase a ocorrer, e eu movendo-me entre a alheia imobilidade tão frágil. Nos filmes esta imagem tem sempre uma certa névoa associada que não entendo, mas parece-me bem o dramatismo. Aqui a neblina é natural,nem preciso de artifícios sofisticados para alargar a imaginação. A imaginação respira maresia, emerge dela, é o tempo parado da praia estática.
A rota traçada quase me leva daqui, e cravo os dedos à imagem da praia de onde não quero sair, cravo os dedos ao tempo nulo que quero que fique, cravo os dedos cerrando os olhos, no meu sonho posso estar onde quiser, no meu sonho posso ser o que quiser, no meu sonho não tenho mais por que fugir.

Virginia Machado

sexta-feira, 2 de abril de 2010


Por Nada...

Ali estava eu, sentado no café, sem saber o que fazer, não esperava nem contava com nada, mas também não me dispunha a sair de onde estava, tal era o peso de estar só por estar, sem ser por nada.
E de resto, o que se pode fazer quando se espera não se sabe bem por quê, senão esperar… observar o mundo e ser observado pelos que nele se entretêm a observar. Assim foi, eu acabei por me fixar no passo apressado dos transeuntes, por lhes tentar adivinhar destinos, por lhes traçar um perfil de vida apreendido pelo passo ou pela marca dos sapatos.
E ficar apenas a pensar: que os homens andam sempre apressados e correm, porque têm sempre qualquer coisa a fazer; e que, quando não têm que fazer, inventam lugares onde ir e sonham coisas para fazer, só para se sentirem vivos. Então porque razão me deixo eu ficar por aqui, no café, só por ficar, sem um objectivo definido, que me traga essa vida apressada que tão interessante parece ser para quem a vive.
Contudo limito-me a ocupar o meu posto de observação, a minha cadeira de abas, lugar comum no meu desabado lugar no mundo, e consolo-me a mim próprio pensando – que todos temos a nossa cadeira de abas, num café qualquer, numa rua assinalada por gente anónima e apressada.
De repente o empregado do café, desperta-me com o cheiro da cafeína, próximo, e serve-me o copo de água que não havia pedido:
" - Muito obrigado", digo distraído e certo. Mas, ele não se fica e contesta-me:
" - De nada, de nada…"
Assim nos sentimos ambos humanos, criaturas reais, a fazer, a dizer… nada!


Joshua M.

quinta-feira, 1 de abril de 2010


Bela Mas Pouco

Cavalgava à velocidade da luz, mas ainda não lhe parecia suficientemente rápido, a julgar pela força com que castigava o seu corcel com os estribos afiados. Um estranho pavor ensombrava o seu belo rosto. Em flashback tentava recapitular as suas acções. Tinha feito tudo a preceito. Matara a bruxa má, após violento duelo. Escalara a torre mais alta, e beijara a sua prometida com todo o seu amor, fervorosamente.
Não conseguia esquecer a visão daquele ser tão frágil quanto belo, ali deitada. Observara em hipnose os movimentos do seu peito, aquela respiração profunda e abandonada era a única coisa que o assegurava não se tratar ela de uma estátua de pedra ricamente decorada. Assim, sem guarda, totalmente exposta pelo seu estado de inconsciência, de pureza cândida, assemelhava-se a uma criança desprotegida. Seus lábios carnudos atraíram os seus como um íman e para seu deleite, ao mais leve toque dois olhos, de um azul profundo se abriram como dois lagos iluminados pelo sol. A Profecia cumprira-se.
Bela deambulava livremente pela terra dos sonhos. Já fora cão, gato, peixe, já conhecera todas as constelações do universo, também conhecera o amor, profundamente e em total liberdade. Assim era há já dezoito anos. A sua forma mudava a seu belo prazer como se fosse feita de nuvens. Voara com águias-reais, caçara como uma pantera durante a noite, já tivera até filhos que nunca choravam e eram eternamente pequenos. Era feliz no sono morno que constituía toda a sua vida. Um dia, algo de estranho aconteceu, um calor vindo do além inundara os seus lábios. Uma espécie de febre aqueceu lentamente o seu sangue, como se de um veneno se tratasse, obrigando-a a abrir os olhos para a fonte desse estímulo, para outro mundo. Foi com um espanto atordoado que se apercebeu da face colada à sua de um homem extremamente belo. O calor da sua pele contaminava o seu sangue, mas assim que este se distanciava um pouco, à semelhança de um fósforo que após ser acendido o fogo diminui de intensidade, também o seu corpo pela primeira vez experimentava o frio. Bela, que nunca antes tinha sofrido qualquer estímulo desagradável, lutava pelo recobro da sua consciência naquele novo mundo e pelo domínio do seu próprio corpo, agora de carne e osso.
Já haviam passado umas horas quando conseguiu colocar pela primeira vez um pé no chão. Durante esse tempo, o Príncipe nunca a largou, tratando-a zelosamente. As dores foram imensuráveis, mas resistiu. Lentamente, materializava-se.
Cheio de ternura assistia ao milagre do renascimento da sua amada. Bela ainda não proferira uma única palavra. Saberia falar? Apesar de desperta ainda não recuperara totalmente os sentidos. Com todo o seu amor velava-a tentando aquecê-la. Com o coração aos pulos assistiu aos seus primeiros passos. Sempre silenciosa e frágil, encantadora. Sentaram-se então, ele a seus pés, onde expressivamente e sem a certeza de que Bela estaria a compreender, explicava-lhe toda a história da bruxa má, da decisão inquieta de seus pais, o rei e a rainha, do zelo das fadas… Subitamente, reparou que os olhos azuis da sua amada se haviam esverdeado, entre as suas delicadas sobrancelhas um vinco se formou, e de seus lábios carnudos uma voz profunda se soltou: Ide-vos... ou arrancar-lhe-ei o coração com as minhas próprias mãos!

Lucinda Gray