sexta-feira, 31 de dezembro de 2010


Viva o recomeço

Eu cá estou que nem Antero, acredito em fadas. Umas são velhas e feias, outras lindas de pasmar... Acredito que a magia acontece quando nos levamos ao limite sem perder a dignidade. Quando acreditamos que nada mais há a fazer, mas não fazemos o que não está correcto porque não o equacionamos sequer. Então, ali, à beira do abismo, uma forte rajada de ar lança-nos para terra, ou surtindo o efeito de muralha de vento, impede-nos de cair. Voltamos a sentir-nos tão vulneráveis quanto crianças, entregues aos cuidados de algo maior. É curioso o processo. Mas pelo menos na minha vida é assim que se tem manifestado. Cai o ego, o orgulho, não a dignidade. Damo-nos por vencidos, em relação àquela batalha e olhamos ao redor já com todo o desinteresse pelo efémero quando, subitamente, vindo do mundo do fantástico, um duende ou uma fada, nos bate à porta do destino com uma caixa de bombons. Tudo recomeça a movimentar-se de novo. Primeiro, num passo lento, como que a puxar pelo nosso corpo e espírito, exaustos pela última batalha e depois, lentamente, vai-se ganhando novo ritmo, novo alento, novo sopro. Viva o recomeço! O mais dificil é enterrar definitivamente o que é velho, largar antigas esperanças e sonhos inadequados. A analogia entre a nossa vivência e a informática é cada vez mais adequada. Reeniciar um processo pode implicar uma limpeza no sistema.


Lucinda Gray

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010


A Chave

“É para ti meu amor”, disse eu como se tivesse feito uma escolha. Nesse dia passei na “Feira de Ladra” e comprei-a sem saber por que a comprava, sabendo apenas que um dia ela iria ter um préstimo. “ E pensaste em mim, quando a compraste?”, perguntava ela como se quisesse comfirmar a certeza do meu amor. Às vezes somos amados e não temos a certeza porque sabemos que o amor nunca o é ao certo para a eternidade. “Nunca me tinham oferecido nada assim”, acrescentava ela com a certeza de estar satisfeita nos olhos. “Vai ficar naquele móvel que se esconde por debaixo de todas aquelas fotografias”, afirmava segurando a chave com as duas mãos vazias. Eu passava as mãos pelos cabelos dela embevecido com o seu ar de criança enquanto ela me sussurava: “Foste a primeira pessoa que me deu uma chave sem porta”. “Pois é, tens de descobrir a tua porta no edifício dos afectos, descobrindo-te a cada dia”, - digo eu, em jeito de sentença, pondo um ponto final numa conversa que nunca passou daquele momento que a memória guardou fechado à chave.


Joshua M.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


A noite é outra coisa

As madrugadas quase não se dá por elas. Antes passasse mais tempo nelas e com elas. Mas geralmente, durmo. E a dormir como chego a saber se é madrugada, se não é madrugada?

As vozes que melhor cantam as madrugadas são as que mentem, cantando a verdade. Têm aquelas quebras, falta-lhes sono. Oiço cantar na rádio: “querem matar a madrugada… “ (lembra o Manuel Alegre…, mas não é).

Nem consigo bem dizer quanto tempo ao certo dura uma madrugada.
Não é noite. A noite é outra coisa.
É o anúncio do fim da noite. Sem ser, ainda, o fim da noite.

(quando tenho insónias insulto as madrugadas. Porque me lembram que não vale a pena insistir no sono, não tarda é manhã)

Fora isso, deixo-as brincar comigo.
(acordem-me, se me encontrarem a dormir)


Iolanda Bárria

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Palavras Versadas


som do cotovelo

a pele apela
ris-te tão bela
cabelo capela
que endeuso com zelo
nem mastro nem vela
mas um mar capelo
água aguarela
amara na tela
a tinta de tê-lo
ondulante pincela
o gesto de um pêlo
de amar amarela
a cor do novelo
— fio da novela?
episódio perdê-lo!
antes teu ele meu ela
o nós com desvelo
o amor na lapela
o sentir da flanela
o som do cotovelo
pela vida sem selo
e a carta sem sela
e a casa não-cela
nem rédea nem trela
e como fazê-lo?
a passear na viela
beber sem cautela
a pregar sem martelo
a cortar sem cutelo
avistar sem janela
o leão sem castela
o postal sem castelo
e esse rires singela
qual fugir da gazela
ser eu só a sabê-lo
o teu brilho de estrela
que no olhar constela
o querer de querê-lo
 
 
Bill enGates

domingo, 26 de dezembro de 2010

Provocatio


Natal dos simples

Com o objectivo de aumentar a taxa de natalidade, o governo decretou que o natal será quando um homem e uma mulher quiserem.


M. Jota

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010


deus não existe sozinho

Nunca somos só Um, aquém do queremos crer; nunca somos mais do que Um, senão quando somos além-ser. Somos sempre o todo, só por acaso nos parecemos com Um, que é um Um qualquer. Somos identidade X ou Y ou Z e somos nós, por nos sabermos e os outros saberem que somos nós. E ai de quem que não saiba! Acaba sendo mais Um, aprisionado na teia de ignorar que é Um deles, Um dos que com ele próprio coabita.

É dessa teia que vos quero falar:

Um dia estava fehado no quarto, só, completamente só, porque a minha mãe me havia dito que estava só. Tinha sete anos, estava fechado à chave por dentro, com medo de estar por fora e por dentro. Inquiri a sapiência materna, perguntei se ela também estava só e ela dissse que sim; e que a minha irmã também estava só (ali connosco). E ali estávamos os três sós, todos juntos. Havia guerra, havia tiros, era natal. O homem grande da família estava de serviço no quartel. Por isso, ela dizia que era uma pena estarmos sós, porque faltava Um de Nós. Nunca fui bom em aritméticas sociais, mas para mim estávamos sempre todos, mesmo que faltasse Um de nós. Por vezes, poderia parecer que resultávamos imcompletos quando Um de nós estava só, separado dos outros, ou quando estávamos todos e nos faltava só Um que fosse. Afinal, estávamos aparentemente sós. Mas, depois reparávamos que, estando todos ou faltando Um de nós, o nosso Um só fazia sentido se aferido pelo todo. Só poderíamos ser, sendo cada Um de nós,  Um pelo(s) Outro(s).

Assim continuámos a ser: ainda que Um de nós não estivesse ele estava em nós através de cada Um de nós, isto porque não é nem nunca foi Um só, mas apenas Um pouco (mais ou menos) de cada Um de nós. E, por isso mesmo, apenas sentimos poder ser só Um enquanto somos todos e cada Um de nós; enquanto somos cada Um de nós e todos, – porque mesmo quando falta Um de nós estamos todos, por isso nunca Um de nós está só, Um sem o Outro, e estamos sempre todos. Esta foi a minha primeira ideia da Comunidade.


Joshua M.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010


Um

Adoro estar só. Não! Não é necessariamente sozinha, é só! Só é simples.

É um acompanhamento à distância certa, de outro qualquer “um”. É um liberto seguro de si. Gosto da tranquilidade que o “um” e apenas o “um”, proporciona. Um “um” constituído por uma consciência unificante do Ser, que considera cruamente todos os elementos com os quais se compõe.

Gosto desse “um” que exige mais a si próprio do que a todos os outros, mas que também permite mais do que ninguém. Gosto desse “um” que se cuida, não é cuidado, ou se maltrata, sem contudo ouvir repreensão que não provenha de si próprio.

Não me refiro a um “um” egoísta”, “egocêntrico”.

Refiro-me àquele “um” que muitos temem. Àquele que não tem rede, nem encontra desculpa fácil nos outros. Àquele que não teme o silêncio, ou os quartos da casa vazios. Àquele que não teme o barulho do vento, o nevoeiro, a vida ou a morte. A esse “um” que é o reflexo nu e cru vindo do espelho vital ao qual não se atribui defeito, quer se goste, quer não, do que se vê.

É o “um” do corpo que entre as suas entranhas recônditas se encontra com a alma e percebe que, mesmo no meio da maior multidão, antes de todos, ela está lá para ele, com ele, dentro dele. Creio que só assim será possível estar verdadeiramente na companhia de alguém. Sendo “um”.


Lucinda Gray

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010


De como as aparências podem iludir, mesmo tratando-se de aves

Consultei algumas personalidades aqui da vila sobre a algazarra que as gaivotas fazem por volta cinco da manhã, em alguns períodos do ano. Com, ou sem tempestade no mar. Na verdade, na maior parte das vezes, sem motivo aparente.
Puxei conversa desinteressadamente entre bom dia, boa tarde e sem dar a entender o que verdadeiramente penso sobre as gaivotas e o barulho que fazem, o destino que lhes desejo e o fim que lhes daria, se tivesse essa faculdade...

Eles:

1) que é da "porcaria da marina que pr’ali construíram e dos barcos que as expulsaram!!! (o Sr. Manuel, da mercearia);
2) que é da falta de peixe no mar, que as obriga a procurar alimentos em terra!!! (a Sr.ª que me vende peixe, no mercado);
3) que andam perdidas e intoxicadas, por causa da poluição!!! (o Sr. do quiosque).

Nada do que ouvi me convenceu e, na verdade, fiquei um pouco surpreendida com a falta de lucidez das explicações, mas também com a ligeireza com que me responderam, dando ideia que sim, ouvem o barulho, mas nada de extraordinário! Afinal, trata-se de um bando de aves a guinchar descontroladamente a partir das cinco da manhã!

Na verdade, eu tenho as minhas suspeitas sobre o assunto (temos sempre) mas…

Estava convencida que alguém me fosse dizer, “são umas desavergonhadas, piores que os coelhos”, ao que eu responderia logo: ”sim, de facto, é o que parece, embora excessivamente entusiasmadas, para aves...”. Mas como ninguém aludiu sequer a tal (e tratando-se de gente que conhece os hábitos e costumes das gaivotas), escusei-me a entrar por aí. Não fossem começar com olhares esquisitos.

Enfim!

Alguém se encantou um dia com um bando de gaivotas em voo e vislumbrou ali uma ideia de liberdade, que muitos outros foram confirmando e afirmando (nada de politiquices se faz favor). Já eu, oiço um bando delas a guinchar tresloucadas em alta voz, madrugada após madrugada, e se alguém me disser que existem aves no inferno, eu asseguro que só podem ser gaivotas.

Acho que “tudo se resume a bons e a maus encontros” , como diz a velha máxima de Spinoza.

Eu e as gaivotas não temos bons encontros! E como gosto muito de viver por aqui, terão de ir guinchar assim para outras paragens.

(amanhã de madrugada informo-as).


Iolanda Bárria

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Palavras Versadas


ROTINA

É simples preencher uma tarde
como quem preenche uma folha de papel
Tudo se baseia no princípio que ocorreu
divinamente ao criador quando inundou
o chão de formigas e o mar de ostras marinhas
A tarde sempre nos espera como a morte
braços cruzados erguidos
em sinal de vitória
E lá estamos nós a sair para o emprego
depois do almoço
ou a divagar pelas ruas olhando
para as mesmas montras de sempre
ou para os mesmos rostos anónimos
que nunca são os mesmos
Em suma contando os segundos
os minutos as horas lendo um
romance de aventuras ou fazendo
ou fazendo riscos absurdos numa folha
de papel com uma caneta oferecida pelos anos
Aprisionados pelas implacáveis sombras
da noite que se avizinha
não conseguimos escapar de nós mesmos


João Belo

domingo, 19 de dezembro de 2010

Provocatio


ideias que acompanham bem chá verde e torradas com compota de frutos vermelhos

O que farão os livros à vida das pessoas que não os lêem?
Como viverão os livros na vida das pessoas que não os lêem?
Como convivem as pessoas com os livros que não lêem?
Como é que a literatura muda a vida de quem não lê


Iolanda Bárria

sábado, 18 de dezembro de 2010

Crónica Benzodiazepina


O Homem das Letras

Hoje vou falar-vos do homem das letras. O homem das letras passeia-se de pasta, como o antigo “Homem da Regisconta”, usa fato e sapatos pretos. Bebe sempre o café na praça, junto à porta envidraçada, para que todos o vejam escrever. Quando se senta, larga uma farpa: palavras feridas de sangue e dor, palavras que não são suas. As palavras colam-se-lhe ao corpo sempre que dá um passeio pelo emaranhado das palavras dos outros, na rádio ou na tv, e solta-as mais tarde ao gosto de ideias politicas; ideias sem dono nem destino.
Depois há o outro homem das letras. Veste casual. Anda sempre com um dicionário debaixo do braço, três gramáticas entre as pernas e um livro de poemas no bolso de trás das calças. Vai torto, a tentar segurar o cigarro que lhe inclina o corpo. Traz o cabelo despenteado e um esgar amarelo no rosto. É o poeta revolucionário. Pede de comer para poder continuar a escrever. Usa palavras românticas mesmo quando sofre ou quer morrer.
Acabam-se-me as ideias na moderna escritora. Elegante, puta fina, usa palavras frescas que intervala com imagens de soutiens e calcinhas bonitas. Escreve por amor à arte e à coluna de revista. Não se coibindo nunca de plagiar, encobre as limitações da escrita numa mala repleta de maquilhagem, um portátil e telefones de ecrã táctil. Tem página no facebook. E mais não digo... Pffffft!


DuArte

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010


Encontro

Ao dobrar a esquina, sempre aérea como me é caracteristico, cruzei-me comigo própria. A princípio não me reconheci, em abono da verdade, nem me vi, fiz como aquelas pessoas que acusam os homeless de passar pelo próximo como se este fosse transparente. Foi assim que passei por mim, como se fosse transparente, inexistente para ser mais exacta. Alguns segundos mais tarde, olhei sobre o meu ombro e lá estava eu. Olhei-me com olhos crus. Agradeci interiormente o facto de ter por defeito ou feitio a tolerância, o respeito pela diferença, de dar a margem de dúvida necessária para que o outro se revele aos poucos, caso contrário ter-me-ia visto como alguém fechado sobre si, autista, ou pior, muito pior... Alguém que já não acredita no mundo, na humanidade. Alguem que se protege na ausência subtil da presença aparente.

Voltei para trás, olhei-me nos olhos, encarei-me de frente. Não foram precisas palavras. Mas ainda balbuciei em tom encorajador – "tenta!"


Lucinda Gray

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010


Voltando a Istambul...

Como se não bastasse a moldura fria da pedra, da mesquita que se impõe, do bazar que se insinua, como se não bastassem as crianças perdidas nos seus gritos inquisidores, as mulheres veladas, as pombas acinzentadas, os homens que olham em rasgos inquietos de sorrisos secretos, como se não bastasse o cromatismo harmonioso das especiarias que se revelam na curiosidade discreta, como se não bastasse o rumor dos passos apressados, movidos e ritmados de pessoas ignoradas, do sincretismo escondido, da similitude de destinos, como se não bastasse a força da fé raiada nos rostos, do panteísmo perdido das árvores abraçadas ao vento leve que bate na pedra fria da moldura da mesquita e deixa esquecida a praça ao som do tempo que emana desgarrado do chão sagrado da Yeni Camii.


Berenice Greco

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010


Não há como os russos, ah isso não!

Não há como os russos para nos golpearem o estômago. Andam ali às voltas, parece tudo inofensivo, mas é o tanas! Se é sobre o espírito humano, está lá tudo.

Ivan Ilitch, por exemplo. Vivemos-lhe a doença... tudo à volta, sem sombra de uma ocorrência brutal. É sobre a morte ou, pelo contrário, nega a morte?
 "Ivan Ilitch sabia que estava a morrer, mas não estava habituado a isso", escreve Tolstoi.
Lembrava-se com frequência daquele exemplo de silogismo que tinha aprendido na lógica de Kizevetter: "Caio é homem, os homens são mortais, portanto Caio é mortal", contudo, isso pareceu-lhe em toda a sua vida justo apenas em relação a Caio!


Iolanda Bárria

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Palavras Versadas


aumento dos combustíveis

viajantes no cobertor
em mecanismos amplexos
os corpos ao dispor
labirintos côncavos, monumentos convexos
desligado o motor
adormecemos perplexos

mas antes do estertor
no afã de mil engenhos conexos
o combustível fulgor
insustentável na combustão dos sexos
sexos
seja como for,
e não o amor
que carrega em demasia anexos
: a dor
ora a privação
e novamente o calor
da separação.
à merda dínamos tão complexos


Bill enGates

domingo, 12 de dezembro de 2010

Provocatio


Let go...

Tu é que defines o caminho que tens que fazer até chegar a casa. Podes ir hoje ou num processo lento de 200 anos, dividido por três vindas à Terra. Podes demorar mais ainda, se preferires. Serão sempre as tuas crenças a intervalar o processo e a definir o método. Há quem goste de ascender degrau a degrau e há quem goste de transcender tudo de uma vez. Eu sou dos últimos e gosto de caminhos bem curtos, tipo Vaptxi-Vuptxi.

No sexo gosto de tudo muito mais lento. Gosto de prolongar o prazer até que o corpo se venha por mim.


duArte

sábado, 11 de dezembro de 2010

Crónica Benzodiazepina


SEITA DO SONHO

Não vale a pena assitirmos à destruição domiciliária dos sentimentos. Afinal, de que vale andarmos a desmanchar o amor para ver como funciona por dentro?

"Talvez seja necessário despojarmo-nos de muitas coisas e tornar a vestir as vestes da inocência para que o amor nos possa ser revelado."

Olho ao meu redor e assisto a relações que terminam, outras que começam, e ainda a outras que nunca deveriam ter começado... Sinto que mais uma vez estou só a segurar nas mãos as interrogações de sempre. Não estão TODAS as relações destinadas a um fim? Não é verdade que tudo o que começa acaba? Não é real que tudo o que nasce morre? Não sabemos todos que andamos a adiar a vida que queremos viver? E que nem sempre corresponde à vida que vivemos?

Pois, concluo que tudo o que tem valor vem até mim, "devagarinho, do lado do coração"... são os afectos, são as amizades, é o amor, coisa que eu ainda não sei descrever ao pormenor. Porque falhei...?! Porque os grandes amores acabam inevitavelmente mal?! Porque após a fúria da paixão, resta pouco, muito pouco?! Porque as pessoas se magoam?! Porque as pessoas não aceitam quando alguém decide partir?! Não sei... já não sei... Mas sonho que um dia as relações acabam e resta uma sincera e verdadeira amizade, daquelas que não se partem nem se quebram por mais violenta que a tempestade seja.

Mas as nossas rotinas andam misturadas com os nossos sonhos e assim não consigo prever um bom final. Pressinto que as minhas amarguras vão acompanhar-me vida fora...

Só quero dizer-te isto:

GOSTO DE TI PORQUE ÉS MINHA IRMÃ NA SEITA DO SONHO!


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010


Perdas Soltas

Gostava de a admirar com as meias rotas pousadas nos cotovelos.

Ela era vida e vontade e lida; e eu apenas corpo que escorria do seu corpo.

Ela habitava languidamente os muros que envolviam todas as ruas, pedras soltas por onde batia os meus velhos passos sempre batidos.

Tinha no porte o sabor embalado das gôndolas levadas pelo destino, num mote de andar por andar à deriva da aceitação social.

Partia a horas e ficava. Restava e repartia –

E por ela me sumia num solilóquio apartado:

Os amantes ficam partidos ao meio, por terem outra metade;

Os amantes comem chocolates com pontos negros, num regime de açucares lentos presos aos lábios, e restam prenhes de radicais desejos completamente livres.

Num dia claro um grito libertou-se de uma boca cerrada e fugiu por uma quelha apertada.

Não posso escrever chuva sobre as linhas do caderno diário, sem antever uma tempestade de palavras.

Só escrevo porque não posso parar de ler, de caminhar por cima do mundo, para o entender de todas as formas que os outros não podem ver de olhos vendados.

Sigo, falo e falo, falo por mim falando por falácias, e nunca me calo sem me dizer o que quero ouvir.

E agora conto uma estória: As galinhas não têm ética e chocam os novos.

Fico aborrecido quando o mundo se acaba, muito aborrecido com a falta de existência.

"Só sábios éramos sete, só sábios éramos sete": Dizia o Zeca, entre os passos da turba, à malta.

Sou eterna pedra para rolar, rolo a empedernir. Sempre o retorno num cambaio de Sísifo para ludíbrio de Tanatos.

Ainda gosto de a sonhar com as meias rotas pousadas nos cotovelos e o ar de quem não sabe de onde vêm as gaivotas, simplesmente porque não viu o filme até ao fim.

Ainda fico sem caminho e com os sentidos em franjas, finas fitas de lata, quando ela me olha com olhos de faca amolada.

Como quando ela vem e volta em revolta:

Ela canta e come pevides de abóbora menina; empurra a voz com ideias politicamente correctas e cospe as películas directas ao rosto dos ataráxicos.

Mas quando ambos ficamos surdos e não falamos, vem o conflito entre a vida e o olvido.

Ficamos como duas pedras dispersas, entre a morte e a Pérsia.

Como ovos estrelados sobre a carne em pose, a morte é o contínuo escorrer dos fluidos a cobrir de amarelo gema a pele clara desmaiada.

E quando ela diz persa, fico aguado até ao golfo, lá onde arde a guerra ao troar dos milhões.


Joshua M.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010


Natureza morta com diospiro

Não como pão sem sal...

(Mas sei que há quem coma. Até por precaução e receio de acidentes cardiovasculares)

O Outono é curioso, mas ainda estou à espera da chegada dos diospiros.
Atenção aos diospiros quase maduros,
têm um cheiro excessivamente delicado. Quase nada.

Prefiro cheiros tóxicos,
no início.

É uma cor linda, a dos diospíros, mas por estranho que pareça considero o verde a cor mais inusitada que existe. Dependendo da tonalidade, tanto pode ser enfadonho, como sedutor e muito luxuriante, até. Mas nunca vulgar.
O meu preferido é o verde corpulento das folhas de japoneira, quando brilham à luz das manhãs geladas de Inverno.

Não é nada fácil vestir verde.
Não é nada fácil comer um diospiro.


Roo, de roer!

Nestes dias, em que aprendi a reconhecer o verdadeiro valor dos diospiros passo algum tempo a apreciá-los. Já não os desprezo, nem um olhar sequer como dantes, são eles que me chamam,
- Olha aqui! Não gostavas, não era?
O ódio que lhes tinha!
Enojavam-me!

E agora a querer vê-los por dentro, a desmanchá-los para espreitar as entranhas, gomos e polpa viscosa, que escorre pelos dedos. Engulo-os!

Os de roer são mais contidos! Reconheço-os pela aparência, mas também por um certo recato.
O que fazes?
Roo um diospiro!
- Esta conversa toda só para escrever a palavra roo!


Iolanda Bárria

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010


Graus de vida

Vida. Graus, ou degraus de vida. Quando sinto a vida a abandonar-me o corpo e a mente, como um veleiro abandona o cais, lento e silencioso, olho-me de fora, de cima, e analiso-me desapaixonadamente. Vejo-me como quem observa um rato na sua lide absurda. Pouco ou nada faz sentido. Nem o bom, tão pouco o mal. A vida pulula ao redor, mas não me pertence. Vejo os adolescentes na sua histeria habitual, os senhores e as senhoras das actividades, os empresários das lutas e as crianças no esforço sobre-humano de aprender a andar. Vejo o meu corpo ali, pelo meio, mas é como se não fosse meu, não me pertence realmente. É apenas uma massa patética que se move, obrigada pelas leis da física. Fico mais próxima das montanhas. Identifico-me mais com elas. Assim, quietas, obstinadas, passivas, imóveis. Aí, a vida está para mim como o nevoeiro está para elas. Um manto branco que por vezes nos cobre, molhando apenas a superfície. Dentro, no interior, milhões de anos de vida e morte solidificada, edificada, absolutamente indiferente ao mar, ao sol ou à Lua, aos Homens.
A terra atrai. Tem um íman que nos suga, como quem por nós chama para que regresse a si. Creio que reclama a sua propriedade. Dou por mim a perguntar-me se este fenómeno será velhice. Percebo que sim. Não se trata de uma velhice de corpo, mas sim de alma. Em criança, deitava-me sobre a relva e sentia-me afundar nela, aninhava-me, tão reconfortada como se estivesse no colo da minha mãe. Sentia que de mim cresceria mais relva e, aí sim, era parte integrante de um todo. Este fenómeno não tinha nada de mórbido. Não se tratava de um desejo de morte, mas sim de vida no seu estado mais bruto, puro, vital. Um regresso à essência, à matéria-prima. Adorava o seu cheiro húmido e fertilizante, tão parecido ao sangue, cujo sabor também me agradava muito. A vida dos Homens, já nessa altura, me parecia monótona, repetitiva, previsível, desinteressante, cansativa e, o pior de tudo, inútil. Engraçado chegarmos à conclusão que vivemos quarenta anos e o que aprendemos é que tínhamos razão aos cinco anos. Com essa idade já sabíamos tudo o que era digno de se saber.
 
 
Lucinda Gray

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Palavras Versadas


S.O.S.

Ela escrevia nos papéis
em que os náufragos escrevem
palavras próprias dos náufragos
É certo que sempre tentou
dissimular o desespero
Mas as palavras tinham tradução
em todas as línguas
E o papel era transparente
como o vidro de uma garrafa


João Belo

domingo, 5 de dezembro de 2010

Provocatio


SUSPEITA

O mundo é uma suspeita e o nosso amor nem isso
Depois de vários anos talvez impossíveis
somos felizes perguntas se somos felizes
e eu digo-te não sei
Beijamo-nos perguntas se nos beijamos
e eu respondo talvez


João Belo

sábado, 4 de dezembro de 2010

Crónica Benzodiazepina


da vida dos livros

Certos livros têm até muita sorte em ir parar a uma prateleira. E aguentarem-se por lá, com aquela vizinhança toda.

Cheguei à conclusão que a mesinha de cabeceira não é o local mais apropriado para os livros. Ou, pelo menos, para todos os livros, indistintamente. Há que avaliar as suas naturezas e singularidades dos seus temperamentos antes de os sujeitar a isso.
Certos livros alteram-se na mesinha de cabeceira e nunca voltam ao que eram.

Há uma atracção irresistível entre lareiras e livros . Ser consumido numa (ou, por uma) lareira é a grande oportunidade de vida para muitos livros. É o êxtase!
Há livros que nunca chegam a ser consumidos. Podem até ser lidos vezes sem conta, mas nunca chegam a ser verdadeiramente consumidos. Não é terrível? Não é dramático?
Com uma lareira por perto isso nunca acontece. É uma segurança.


Iolanda Bárria

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010


Sem Assunto

Olho para o papel em branco e percebo que as minhas deixas no teatro da vida estão gravadas naquele guião. Sou um actor sem papel previamente definido, salto para o palco e lá decido se rio ou não choro, se sou ou não estou vivo. Vivo como se reinventasse uma cena que não é mais que uma outra minha vida. Sou um diabo quase santo, um anjo renegado em busca do gosto do pecado. Beatifico-me, martirizo-me e fico por ficar, na mesma mesa como toda a resma: tenho a vida de cinco centenas de folhas em branco. São sete ou nove ou não interessa quantas as pancadas, Moliére já morreu e a minha aritmética da pancada certa não acerta contas com o relógio que marca o subir do pano – esta é uma representação em que os actores são pessoas sérias com vidas a sério, aquém do cemitério onde vão acabar como figurantes esquecidos no meio de uma cena sem juizo a final.

No dia em que morrer haverá música, folia e palmas e breves orações. Cada um dos quinhentos circunstantes receberá o mesmo papel em branco com as deixas que não deve dizer, débeis murmúrios de preces de silêncio, desditas em segundos por bocas amarradas ao compromisso de não trautear canções de perecer. A festa, para ser festa, tem de terminar com um fogo fátuo de artifício, explodindo em lágrimas de todas cores entre a abóboda celeste e a terrugem do chão. É sempre um chão daninho que se aproxima de nós em cada guerra, para nos esmagar os ideais com notas floridas e um pranto de pólvora. Restarão o calor e os vermes vorazes que tudo devoram até restar só calor, tudo em atmosfera festiva. Restará um pouco menos de nada, apenas um séquito com um acólito calado, porque a sua folha foi roubada à resma e arroteada com palavras proíbidas, sob o título “Sem Assunto”.


Joshua M.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010


Táxi!!!

Façam um exercício comigo. Imaginem uma enorme vontade de trazer o céu à Terra. Imaginem uma vontade tão forte, que o próprio deus duvida das certezas que o fazem único e se apaixona. Imaginem um mundo tão belo, repleto e cheio de alegria, que nada vos impede de serem felizes e acreditar que sim; o amor quando chega, afinal chega para todos. Eu acreditei até às últimas consequências que ser feliz pode contagiar o mundo. Acreditei como um tolo patético e fui esmagado pelo mundo que ainda se ri enquanto escrevo estas linhas. Ri e rebola e revolta, que neste mundo não cabe tamanha empreitada. Talvez até tenha razão, o mundo, sabendo como sei, de onde vem e quem o inspira. O mundo quer que o aceitemos pelo que nos mostra. Argumenta e com razão, que o poder foi-lhe concedido pelo autor que o idolatra. Falso ou não, o mundo continua a puxar dos galões e abana-me que sem ele eu não sou nada. Que verdade tão falsa e apesar de tudo tão verdadeira. Eu não sou de facto este corpo que tecla, nem sou o nome por que me chamam, nem um passado de memórias que faz uma história; mas neste mundo é isso que eu sou. E não sou. O que sou eu, afinal?

Sou tudo, e nesse todo não cabe o mundo. É uma pena.. É uma pena que na verdade não caibam o amor e o ódio ao mesmo tempo, nem a vida e a morte, a alegria e a tristeza. Miséria se entre o falso e o verdadeiro apenas um o seja, e na vontade de termos ambos, perdemos tudo. É uma miséria pegada. É uma miséria miserável quando sabemos de antemão o que nos espera no final do sonho, e ainda assim...

Decidir viver para além de mim mesmo foi sem dúvida uma experiência muito mal conseguida.


DuArte

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010


Tudo de Novo

Sim. Quis fugir. Era-lhe absolutamente necessário abandonar aquele cenário que cheirava a mesquinhez, burocracia, mediocridade, a papéis inúteis já utilizados que nada diziam.
Fugiu então pelo seu corpo dentro, subiu pelos seus lábios acima, e sem e ignorar uma única esquina, vale ou lomba percorreu o seu caminho. Já do alto dele, algo cansada, mergulhou. Entrou no portal que procurava. Ali, deixou então o seu corpo, deixou-o assim, sem dificuldade, como serpente que larga a pele.
Quando olhou para trás e viu aqueles dois juntos, fundidos um no outro criando um novo ser de quatro braços e pernas entrelaçadas, a respirar pelo mesmo pulmão, riu-se, leve. Percebeu que o acto era absolutamente divino e que era por ali.
Seguiu em frente, entrando noutra dimensão, num universo sem temperatura nem forma. No paralelo em que tudo começa e acaba, em que tudo se dissolve e se recompõe. Nadou em líquidos cuja composição desconhecia, contornou sombras que a acariciavam com a flexibilidade de músculos tonificados, generosamente descontraídos. Líquidos etéreos sem temperatura, luz sem fonte, pulmão de água. Perdeu todos os sentidos e ficou suspensa, sem oxigénio, sem cor, sem nome, sem tempo.
Não quis regressar, mas uma força que a sugava impedia-a de ficar. A custo, a pele reocupou a fronteira abandonada e novamente sentiu na carne a dor doce do outro. Depois de habituar os olhos à meia-luz, murmurou – “um destes dias não volto.”


Lucinda Gray

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Palavras Versadas


e fuga

carros que atropelam passadeiras
rolantes que atravessam o coração
nunca havemos de parar para ver
se os ferimentos são graves

a nossa velocidade é excessiva
no sonho encarnado ao rubro
no choro intermitente da laranja
na raiva verde da desesperança
e tudo isto nos é igual
nada disto nos suscita emergência
na vida de ambulância vital
continuaremos a cometer todos os crimes
que nos impelem a seguir em frente
continuaremos a invadir cruzamentos
em colisão desmedida
enquanto houver um deus sinaleiro
que confunde os sentidos e nos
atropela e foge


Bill enGates

domingo, 28 de novembro de 2010

Provocatio


Pode ser

-Pode dizer-se que seja um coração grosseiro?
-Não, que brutalidade! Não é aceitável, sequer.
-Mas é tão pigmentado e cheio!
-Creio que pode ser um coração farto, mas não é nada comum.


Iolanda Bárria

sábado, 27 de novembro de 2010

Crónica Benzodiazepina


A anormalidade da norma

Normas. É normal as normas não funcionarem a favor do indivíduo. É normal as normas não funcionarem a favor do colectivo. É normal as normas não funcionarem e ponto. Tudo o que é considerado normal, desde sempre, com as respectivas actualizações da dita “vida moderna” me causam espanto, por vezes asco, revolta e, ou ainda, vontade de rir.
É normal não confiar nos nossos governos, nem nos partidos que lhes fazem oposição. É normal não confiar nas instituições, é normal sentirmo-nos roubados por ambos, nunca, ou raramente, ajudados. É normal não podermos ficar a dever um cêntimo a uma instituição pública, mas é normal, essa mesma instituição, poder ficar-nos a dever dinheiro, ou cometer irregularidades por tempo indeterminado.
É normal as taxas de juro subirem três vezes por ano. É normal o preço do petróleo subir para valores nunca antes pensados. É normal as empresas fecharem e falirem porque os bancos retraem os créditos sem aviso prévio, após incentivarem o uso dos mesmos.
É normal culparem-se os patrões, é normal ficar-se no desemprego.
É normal, uma mulher separar-se e ficar em maus lençóis, caso tenha filhos – ou porque as despesas “reais” da educação dos mesmos acabam por ser suportadas apenas por ela, ou porque os progenitores masculinos passam por “crises de identidade” e vão à procura da sua eterna “juventude”, esquecendo que, quem deixaram atrás, não foi uma mulher, mas sim filhos (claro que com as devidas e respeitosas excepções). É normal vermos miúdos de onze, quinze, dezoito anos, suicidarem-se. É normal pais exigirem dos filhos o que não foram capazes de fazer com as suas próprias vidas. É normal sermos odiados por quem não nos conhece, invejados por quem nos conhece, maltratados por quem nos está mais próximo. É normal desejar-mos fugir. É normal acharmos que o nosso país é o pior de todos. É normal não gostarmos dos nossos poetas, dos nossos actores, dos nossos filósofos e de nós próprios.
Penso que não é segredo ter por hábito perder-me em considerações pouco pragmáticas. Na realidade, não consigo deixar de me espantar com o estado da civilização. Com a forma pouco humana e redutora como nos organizamos, social e economicamente. Não gosto das nossas normas, nem das nossas normalidades. Mas isso, em mim, já é normal.
 
 
Lucinda Gray

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


A Primeira Ilusão

Ficamos ainda mais pequenos do que somos, nessas alturas. Ficamos lá no fundo ao olharmos para o topo do mundo que nos roubaram, sem sabermos se é o vazio que vai preencher o lugar de tudo o que perdemos. “Vou morar para outra terra!”, foi a última coisa que a L. me disse, alguns segundos antes de partir e uns minutos depois de me beijar. E fiquei do tamanho de um grão, uma ínfima semente incapaz de sentir de novo a dor de fazer brotar e crescer uma nova afeição. É sempre assim a dor da separação, quando tememos que seja a última.

Gostava das suas mãos, elas lembravam-me as mãos que traziam os carinhos perdidos nas horas de que não podemos prescindir. Agora já não sei se gosto, mas tenho a certeza de que gostava delas naquele momento. Estou cá há tantos desgostos... Foi há tanto e tanto tempo, que nem compreendo porque me estou a lembrar disto agora, – ela tinha sete anos feitos naquele dia, eu tinha sete anos e mais alguns meses. Ainda não sabíamos que o afecto se escrevia de tantas maneiras.


Joshua M.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010


Corpo estranho

Tropecei no teu corpo. Esse empecilho persistente de odor viciante. Nego-te diariamente, mas tu ali, sempre ali, deitado à espera que te usufrua como se fosses uma fruta num cesto de cozinha. – “Vais apodrecer”, aviso. Mas fazes ouvidos moucos, incauto. Desejo-te mas apenas como se a química desse teu corpo equilibrasse o meu. Como se fossemos um bio-composto que, se incompleto, se tornasse letal e completo, curasse. Reconheço a minha própria necessidade de equilíbrio, por isso deixo-te estar aí deitado, inútil, à espera do impossível porque nem sabes como tornar seja o que for possível. Desse modo, secretamente, tenho a esperança de me vacinar dessa tua falta. Tenho a esperança de, tal como um vírus mutante, adquirir a forma necessária para sobreviver à tua ausência. Mas sei que te deveria varrer e pôr na cave das recordações remotas e distantes. Como se esses teus restos fossem desperdício de uma construção mal concebida. Talvez um desses dias tenhas essa coragem. Não te quero mal, só te quero fora do chão do meu quarto, da minha sala de jantar, da minha vida interior.


Lucinda Gray

quarta-feira, 24 de novembro de 2010


"até no que se inventa não vale apenas o que seria"

A noite chega-me sempre tão claramente... por entre as portas fechadas, em candeeiros por acender, em trancas a portas e janelas, por tábuas sobre vidros colocadas. A noite chega-me sempre quando não quero, e quando quero também. Não gosto de o dizer muito alto (talvez por medo de me ouvir dizê-lo), mas acho mesmo que ela nunca se vai embora. E é no rescaldo do assombro da sua chegada que procuro uma outra noite, uma outra porta, uma outra casa, um outro ser. Uma imagem que alguém crie, cheia de luz, cheia de vida. Uma imagem que seja distante, que me faça longe, que me seja longínqua, uma qualquer imagem que não seja eu.
Hoje foi Clarisse quem ma trouxe. Leio e releio uma mesma frase. Leio e releio: "até no que se inventa não vale apenas o que seria..."
Quatro da manhã. Significa que já é dia? Sveglia, dizia ela, Sveglia toca e toca e toca, Sveglia: o tempo. Sveglia toda a Humanidade e o que a atormenta. Sveglia, de ceifa na mão, mais ou menos cadavérica, mais ou menos diabólica, Sveglia em elixir, Sveglia em ponteiros que não conseguimos travar, Sveglia de olhos postos em tudo o que fazemos.
Para mim Sveglia tem outro nome. Sveglia que me persegues, que sei seres tu a destapar-me noite fora, a sussurrar acorda ; Sveglia a invadir-me de ansiedade e de esperança, a projectar-me fantasias que nunca fui, Sveglia em tantos corpos, sob tantas formas, permanente na sua mudança ao longo dos anos, e nunca, absolutamente nunca, lhe posso chamar devir. Sveglia em mim és tu.
Quanto tempo passou desde que um raio de luz sobreviveu aqui dentro? Por mais de dois segundos? Há quanto tempo foi? Já não me lembro... Há quantos anos me chega Sveglia e entra e sai de mim sem que eu te sinta? Há quantos anos de sedas, de cabedais, de dedos escorregando em ligas e corpetes e adereços mais ou menos burlescos, mais ou menos vazios? Há quantos anos tudo o que queiras, levando tudo de mim? Há quantos anos sugares-me a vida devagar, sofregamente, entre meigo e agressivo, entre homem e máquina, entre outras e outros vícios, entre trancas à porta do meu quarto e empurrões entre paredes, esborrachada até esguichar, quantos? Há quantos anos de novo flores, de novo dias, de novo voltares após meses ausente, de novo sorrisos, de novo homem que sinto em cada poro, de novo reflexo de vida? Há quantos anos talvez sim, talvez volte, talvez fique, talvez não mais agrilhoada, talvez nenhuma outra, talvez nenhuma marca, talvez nenhuma garrafa, talvez nenhum serviço? Há quantos anos serviços em que me vendes? E gostas de ver-me ser comprada e recomprada em cada noite mais carnívora. Mas sem as ligas, sem as plumas, sem fantasias nem disfarces, que esses são o que eu sou para ti, o manequim, e neles sou eu despojada de tudo, até de dignidade, neles eu ainda marioneta tua, mas eu em todas as minhas imperfeições. E ademais rentável.
Há quantos anos doentiamente ainda quero que fiques? Há quantos anos esperando o dia, o dia... as minhas próprias fantasias reais... as minhas fantasias... não, meu Sveglia, nem mesmo nelas vale apenas o que seria.


Virginia Machado

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Palavras Versadas


Insónia Marítima

Os meus olhos, companheiros íntimos do mar
falam com os habitantes do silêncio,
todos eles passageiros do vento
que a tarde trouxe.
A minha busca incessante
é descobrir um desejo possível
a partir do êxtase.
Percorrer a tarefa louca de lembrar-me
que existe um amor a partir do próprio amor.
Quem mo disse foi um avô colectivo
oriundo do povo em que nasci.
O mesmo que me ensinou
a absorver a chuva com o corpo
quando no horizonte se fecha uma penumbra
de tornar as aves próximas.
Os meus passos cada vez mais bêbados
ainda escutam incrédulos
essa hipótese de existir no próprio mar
um continente marítimo.
Eles são o tracejado solitário
na praia húmida.
Espelham-se nas pegadas
que as asas dos pássaros deixaram lá em cima,
contabilizadores das horas da minha insónia.
Da esplanada velha
chega-me um rumor a maresia.
Murmúrios breves, as palavras sábias
dessas aves incríveis:
Genuínos habitantes da noite
para quem o silêncio
é a soma de todas as coisas.


João Belo

domingo, 21 de novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

Crónica Benzodiazepina


Esperanto, esperança…

As conversas de café estão muito mal vistas, mal cotadas e até conotadas com uma certa futilidade, mas a verdade é que volta e meia são essas conversas que nos transportam para ricos universos desconhecidos ou esquecidos. Há poucos dias, estava eu no café, quando uma senhora estrangeira fez questão de se sentar ao meu lado. Acontece que cerca de 24 horas antes, num outro sitio qualquer, ela me tinha pedido uma informação corriqueira e eu tinha-lhe respondido em francês. Na qualidade de francófona, escolheu-me então para companhia. Tão simples quanto isso. A referida senhora, com um ar simpático e comum, veio a revelar-se uma caixinha de surpresas. Descobri, encantada, que para além da sua língua natal, dominava ela, não o Inglês, mas o Esperanto. O Esperanto é uma língua planificada, criada com o objectivo de se tornar um idioma auxiliar para a comunicação internacional. Pensada sob o desejo de quebrar assim as barreiras linguísticas entre as nações. É uma língua poética, na minha opinião, até mesmo porque as nações não a adoptaram, tendo o inglês ocupado a função. A primeira pessoa a colocar-me em contacto com esse universo foi o meu pai, que adorava o conceito em si. Contagiou-me, claro. Mas de uma forma algo romântica, dizia-me ele, que se tratava de um projecto falhado pela inércia da comunidade internacional. Era um projecto demasiado vasto para ser exequível, etc. etc.
Para surpresa minha, a senhora não só falava e escrevia em Esperanto, como ainda me revelou que há uma extensa comunidade internacional que domina aquela sui generis forma de comunicação. Já viajou pelo mundo inteiro, tendo ficado em casa de “esperantistas” existentes em sítios tão exóticos como o Congo, o Japão, Austrália e muitos outros. Fiquei literalmente pasma. Não fazia a mais pequena ideia. Informou-me ainda tratar-se de uma língua de fácil aprendizagem e que existem bons cursos, gratuitos on-line. Fui conferir. É verdade.


Lucinda Gray

sexta-feira, 19 de novembro de 2010


Od(io) ao campo

-Não há no campo maior verdade do que a que sai dos tubos de escape em hora de ponta, disse-lhe, em diversas ocasiões.

Ah, a vida no campo!

-Tanto ar puro e tu de nariz entupido!, disse-me, em muitas ocasiões.

Há uma cantilena que vem do campo para nos salvar (levar)… estende-se até onde encontrar a vida de uma cidade. Assobia virtudes, irresistíveis até para quem aprecia arte contemporânea. Contudo, não se ouvem da autoestrada. É seguir por aí e não ceder a desvios.

- Não há no campo uma paz profunda, como a que invade o asfalto das autoestradas e vias rápidas de longo percurso. Zzzzzzzzzzzzzzzzzzz… Benditas!

Para que diabo nos quer o campo?

O que nos quererá, que já não tenha levado?


Iolanda Bárria

quinta-feira, 18 de novembro de 2010



O vazio de todos os tempos

Somos todos filhos de um tempo. Reclamamos, em silêncio, todo um vazio, o vazio do nosso tempo, seja o nosso qual for. Apercebo-me da existência e persistência desse vazio que, de forma diacrónica, surge implacável e subtil. O vazio que, inteiro, de pé, surge mudo, estabelecendo-se como referência. Um vazio que de forma reptiliana se opõe à pintura que elaboramos com as tintas das nossas circunstâncias.
Agarramo-nos à história, ao passado, agarramo-nos ao futuro. Prendemo-nos às interpretações políticas e económicas, do nosso tempo e do tempo dos outros, tentando sempre preencher algo que não sabemos exactamente o que é… Silencioso, majestoso e irredutível, contudo passivo, tal como vírgulas num texto, ou aquele pequeno espaço branco que separa as palavras escritas e as ditas também, encontra-se o vazio a rir-se de nós. Criámos deuses para o preencher, demónios também. Colorimos histórias de encantar e monocromatizamos o desencanto, escavando a dor e o prazer, só para o preencher. Podemos ainda ignorá-lo. Podemos ignorá-lo tanto, tanto, que quase acreditamos que ele, afinal, não existe. Podemos respeitá-lo e, deixar assim, o cepticismo e o relativismo apoderarem-se do nosso juízo. Podemos amá-lo e, ao fazê-lo, refinar o nosso humor, enegrecendo-o por vezes, ou tornando-o mais cínico.
O que não podemos é fugir-lhe.
Julguei que esse vazio era meu. Pertencia ao meu tempo. Ao crescer, conheci os meus pais, quem eram eles, antes de mim. Encontrei-lhes o vazio, o deles e o do tempo deles. Os meus filhos cresceram e, eu, conheci-os. Fui surpreendida com o registo desse meu velho amigo, presente também no tempo deles. Pensei para os meus botões, karma familiar! Depois os meus amigos vieram, de todos os tempos… mais velhos, mais novos, alguns até vieram em forma de livro, de prosa. Conheci-os. E ele… sempre lá. Cego, surdo e mudo. Morno. Cão sem dono. O vazio.
 
 
Lucinda Gray

quarta-feira, 17 de novembro de 2010


My suffering will be legendary, even in the hell...

Quando alguém morre, deviam morrer os dias tristes, as discussões, a vontade de sermos os maiores. No dia seguinte deviam abrir as cortinas ao sol. Encher os automóveis de crianças, baldes, pás e estrelas do mar. Homens na mão de crianças, a correrem das ondas, para as ondas, aos tropeções, numa embrulhada de carinho, espuma e algas.
Quando alguém morre deviam fazer piqueniques nos jardins da natureza. Jogos de bola, jogos de malha, jogos de sueca. Churrascadas suculentas regadas a bom vinho. Homens gordos deitados em mantas de barriga para o ar a sorrirem para as suas mulheres.
Quando alguém morre deviam desligar as televisões, as internetes, cobrir as mesas de poker, fechar as portas dos estádios, dos parlamentos, tudo o que nos possa afastar.
Sempre que morre alguém, morre uma oportunidade. Se não morre é porque esse alguém não morre. E então?
Então é igual. Acabem com os dias tristes.


duArte

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Palavras Versadas


gato sobrevivente

ao jantar os meus filhos
perguntam-me quanto tempo falta para o mundo acabar.
os filhos perguntam quanto tempo falta
para o pai acabar.
perguntam-me quanto tempo falta para acabarem.
em resposta faço-lhes o prato
com vegetais e peixe e hidratos de imprecisão,
dou-lhes palavras que nunca mais acabam palavras
oleosas, emaranhadas nas facas, nos garfos
que deixam marca nos copos e nos guardanapos,
digo-lhes que se despachem,
que já falta pouco tempo para fecharem os olhos
e eu desejar poder mergulhar nos seus peitos minúsculos
para lhes polir o coração que nunca acaba.

os meus filhos perguntam-me qual é o rating da vida
qual é o spread do amor
em que clube joga o fmi
quando entrará em erupção o primeiro-ministro
por que é que os vulcões não pagam portagem
de que lado ficam o máximo e o mínimo do oriente médio
se algum dia as estrelas serão condenadas
por trazerem cancro à alma dos meninos condenados
e que investigador descobrirá uma cura a sério
ou que cura descobrirá um investigador a sério, porque
os meus filhos gostam de brincar com as palavras
que nunca acabam, e se um dia lhes poderei
comprar as possibilidades que viram num anúncio
no intervalo das certezas.
ao jantar os meus filhos perguntam-me se o destino
também é corrupto, se aceita subornos.
durante as imagens de uma ambulância incandescente
e de um curioso gato que não morreu
os filhos perguntam depois da morte o que há de sobremesa
 
 
Bill enGates

domingo, 14 de novembro de 2010

Provocatio


vida têxtil

nesta morada de inferno
o trabalho corre bem:
há bagaço, é inverno,
dentro de casa também.

os senhores são astutos
os patrões são sábios:
matam os pais e aos putos
cosem a madrugada aos lábios.


Bill enGates