sexta-feira, 9 de agosto de 2013

MÁRIO DE CESARINY - 9 de Agosto de 1923 / 26 de Novembro de 2006

 

POEMA PARA MÁRIO CESARINY 

era uma coisa e depois disse que era outra.
tinha uma profissão esquisita.
consistia em desvendar a inspiração no interior da frase.
desvendar mas sem partir.
sem quebrar o passo e o ritmo.
e depois ele disse que via as estrelas das coisas,
todo o cinema e brilho secreto no espaço difuso.
um dia falou-me em paradoxos metafóricos
e eu assustei-me como se visse vísceras
no tabuleiro da vida.
e foi então que comecei a escrever.
peguei numa palavra e depois noutra e depois noutra.
as palavras não tinham grande significado para mim.
eram como pedras e possibilidades.
escrevi um poema. dois. três. muitos.
e um dia ele me roubou as grandes frases e deixou
as miudezas; tirou-me o macroscópio
e deu-me o seu microscópio de uma só lente
para que visse as células e demais estruturas minúsculas.
escrevi um poema sobre mim
com o poder de me fazer uma coisa e depois outra
e depois outra.
hoje pergunto-me quem sou
e de cada vez que o faço
um poema nasce. por si só. como que para o mestre
que nunca dorme em mim.


Sylvia Beirute

domingo, 7 de abril de 2013

Provocatio


Aprendizagem

Ela aprendeu a calar as mágoas e trancar as lágrimas, seguindo o seu caminho como se nada lhe custasse e tudo fosse fácil.


Carmo Miranda Machado

quinta-feira, 21 de março de 2013

DIA MUNDIAL DA POESIA - 21 de Março de 2013


Aconteceu poesia

A poesia não é tão rara como parece.
Na mais ínfima das coisas
A poesia acontece.
Aconteceu poesia
Quando nos teus olhos cor do céu
Vi um pedaço de céu que me cabia.
Aconteceu poesia
Quando as tuas mãos numa carícia vaga
Moldaram no meu rosto ar de angústia
Que o tempo não apaga.
Aconteceu poesia
Quando nos teus olhos cor do céu
Vi um pedaço de céu que me fugia.
Até no dia em que morreste, Mãe,
Aconteceu poesia.


Fernando Vieira

DIA MUNDIAL DA POESIA - 21 de Março de 2013

 

RESOLUÇÃO

agora escreve um poema bonito.
e daqui a pouco
olha para uma coisa desagradável.
agora constrói uma janela no poema
com vista para uma coisa compreensível.
vale a pena olhar.
o tempo aqui é instrutivo,
os olhos parecem formar um outro limite, um
limite mais elegante, sem pausas
e que se autotranspõe.
agora a sua profundidade afunda-se em ti.
os teus olhos alcançam a segurança
de um videopoema, as imagens
contêm as ilusões do mundo
e ainda se propõem à sua adolescência.
agora é tudo muito confuso,
a resolução das coisas nunca foi tão nítida.


Sylvia Beirute

sexta-feira, 8 de março de 2013

DIA INTERNACIONAL DA MULHER - 8 de Março de 2013


Por um mundo maior

Fui dar uma espreitadela na lista de dias mundiais e internacionais. São, por norma, uma chamada de atenção para a desigualdade, para a necessidade de auxílio, para nos darmos conta de problemas ou de doenças. Portanto, o facto de ainda haver um dia internacional da mulher, significa que ainda existe discriminação de géneros e que as mulheres ainda são tratadas com diferença. Fico pasma ao olhar para a História e perceber que temos direito ao voto há menos de um século, que sempre fomos consideradas seres inferiores e, pelos crentes, desprovidas de alma. E fico triste, por perceber que hoje em dia, por todo o mundo, há mulheres que continuam a ser vítimas de sociedades predominantemente machistas, que são abusadas, castigadas e que não têm direitos. Um mundo que não considere todas as pessoas iguais em direitos, que não respeite as diferenças (quando realmente existem), que não trate com bondade, gentileza e respeito todas as outras espécies, ainda é um mundo menor.


Missanga

terça-feira, 5 de março de 2013

3º Aniversário de "O Filósofo e o Fanfarrão" - Provocatio

Depois de mil dias, mil imagens e mil textos publicados, o Filósofo e o Fanfarrão vão de férias.


O exercício da contestação, pelo humor e pela razão, segue dentro de momentos (de crise)...

Com o devido abraço de gratidão aos nossos imprescindíveis leitores:

Até sempre!


O Editor

sábado, 2 de março de 2013

Crónica Benzodiazepina

 

Os Portugueses e a Síndrome de Estocolmo 

Ouvir cantar novamente a canção “Grândola Vila Morena” impediu-me de acreditar que o povo português estava a sofrer claramente da Síndrome de Estocolmo.
Tal como acontece com as vítimas de Estocolmo, também muitos portugueses pareciam estar a criar laços afectivos com os próprios políticos raptores.
A relação actualmente existente entre os nossos (des)governantes e o povo é uma relação de total e severo desequilíbrio de poderes.
Esta cambada de ditadores da nova era que passo a designar como “políticos raptores” ditam aquilo a que o “povo prisioneiro” pode ou não fazer.
Roubam-nos os sonhos, roubam-nos os amigos, roubam-nos os direitos adquiridos, roubam-nos, roubam-nos, roubam-nos!
O não cumprimento das tão famosas metas impostas pelos políticos raptores estão a levar uns ao suicídio, outros ao desespero e outros a graves danos físicos.
E nós, prisioneiros desses políticos raptores e das suas medidas, começamos a desenvolver o instinto de auto preservação.
Está escuro e estamos em casa com os olhos colados na televisão.
O silêncio é total. De repente surgem novos dados referentes ao número de desempregados e…
A porta bate repentinamente. A respiração acelera. O coração dispara. Os músculos enrijam.
Mas, pronto, ainda não é desta que somos nós…
Afinal o barulho que ouvimos na nossa porta não era o desemprego a atingir-nos! Não era o vento!
Está em jogo a vida das pessoas.
Por favor percebam de uma vez por todas que é a vida das pessoas que está em jogo!
A continuarmos assim, primeiro seremos reduzidos à pobreza. Depois farão de nós o que bem lhes aprouver.
O descrédito pela política que se vive neste momento é devidamente assumido por todos e por cada um de nós.
Todos os dias aguardamos que seja parida mais uma torrente de medidas que só nos desiludem e nos afogam.
É, no mínimo, macabro o projecto do governo para cortar, de uma penada e com consequências trágicas para todos os portugueses, os 4 mil milhões de despesas públicas.
Os nossos “raptores políticos” são uma cambada de interesseiros e manipuladores que têm refinado o seu comportamento ao longo dos meses, sempre na sombra dos senhores da troika, outros raptores, ampla e sobejamente conhecidos pela perversidade das medidas drásticas nos impõem sem dó nem piedade.
Eu não sou saudosista. Mas confesso que me entristece profundamente saber que em tempos desvendámos o mundo e que actualmente somos uns "paus mandados".
Sim, uns "paus mandados" de um trio que impõe medidas com um total desprezo pelas obrigações sociais dos nossos, das normas sociais, incapazes de qualquer afecto duradouro, especialista em racionalizar e culpar os outros.
O estado a que se chegou neste país só pode ser fruto de um grande transtorno de personalidade dos nossos “raptores políticos” e do trio perverso que nos impingiram, que com a sua capacidade de sedução nos permite encontrar explicações plausíveis para todos os seus actos, mesmo os mais torpes. Genericamente reina a desinformação e a confusão e por vezes fica a sensação de que entre os raptores políticos e as suas vítimas até existia uma verdadeira relação de cumplicidade.
Mas ao ouvir novamente cantar “Grândola Vila Morena” fica a esperança de não nos termos deixado apanhar pela síndrome da Estocolmo!


Maria Paula Elvas

sexta-feira, 1 de março de 2013

PALAVRA EXPERIMENTAL (XVIII)

 

Vê-los passar

Numa outra ocasião, sentámo-nos num daqueles conjuntos de mesinhas e cadeiras que coxeiam e que estão à beira de estrada, onde se pode beber um refresco e ver pessoas com sacos de plástico, a passar. Dali podem-se apreciar automóveis. Ouvir a sua maquinaria inteligente, uns para lá, outros para cá...

"Nunca conduzi um automóvel", comentou Bristol, emocionada. E explicou-me detalhadamente o quanto detestaria ter de o fazer.
"Mas sei bem que os automóveis não são todos iguais", disse ela, ao que acrescentou entre parênteses: "(talvez até por isso...).  Nada mais ingénuo e desprevenido do que considerar que os automóveis são todos iguais."


Iolanda Bárria

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013


O medo

Vou-me. Não é de ti que me afasto ou estaria a afastar-me da verdade. É para não correr esse risco que eu me vou, antes que comece a encetar buscas onde não estás ou dê por mim a olhar para alguém que tu nunca vais ser.
Se esta não é a nossa dimensão, apesar de termos começado aqui a reencontrar quem somos, que sentido haveria em insistir no engano do medo e da culpa, agora que o ultrapassámos.
Eu não quero retornar para o medo, para a ideia que posso enganar ou ser enganado, quando é sempre de mim próprio que fujo.
Poderia dizer-te, antes de ir, que te amo acima de tudo, mas porquê, se não há mais nada para além deste amor? Ter medo é reconhecer que há. E são esses pensamentos que eu não quero mais permitir sob pena de me negar a mim próprio.
Vou, mas não vou para longe. É da mentira que eu me afasto, da irrealidade, dos sonhos assustados, dos abraços envergonhados, cabisbaixos, como se fossem indignos.
Se eu quero conhecer o amor, não posso ter medo. O medo não irá, nunca, conhecer o amor.



DuArte

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013


Como explicar? 

Como explicar a quem não entende ou a quem não transporta consigo este "terrível" gene, esta sensação de vazio que se apodera de nós nestes dias de Inverno sem cor, esta inexplicável dificuldade em simplesmente acordar?

Como explicar a quem acorda todos os dias à mesma hora e repete todos os dias o mesmo local de trabalho, as mesmas pessoas e os mesmos rituais, que o simples facto de trabalhar sete dias seguidos no mesmo sítio já é suficiente para me sentir incomodada?

Ou, como explicar que a simples visão do arco-íris, ontem, após a chuva ter parado, me fez desatar a chorar...?


Carmo Miranda Machado

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013


Espejo de letras muertas 

Odios como lápidas acogen
y rozan letras de combate
a veces razón, otras sin pena;
llorando en pantano que no es edén
ni pesadilla que yo entienda. Yo, solo yo, que soy
Y tu que siento entre mis piernas olvidadas...
¡olvido de gruesa fantasía!
¡olvido de amores que revierto!
¡olvido de fuertes que no besan la vida!

¡Dibuja-me alas de ángel caído
que me llenen de colores!
Odios que ríen en el cárcel
derrumbando los cuerpos propicios
por los caminos de mi cuerpo.

Y la alegría que se me ahorra...
como pájaro herido que no sabe escribir
canciones de dolor, ni siquiera
prosas de amor.


Joshua Magellan

 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Provocatio


Sempre mais

Deixo pedaços de mim por todos os sítios onde passo, em todos os amigos que amo, a todos os amantes que tenho. Partilho-me e tenho cada vez mais, sempre acrescentada de tudo o que vivo…


Missanga

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Crónica Benzodiazepina


Aos senhores da furda!

Isto que estamos presenciando é que não pode continuar. Isto termina fatalmente por um crime ou por uma revolução”
Júlio de Vilhena (1907) 

Esta é a democracia de uma Europa encarcerada num redil de teutões. A democracia da europa-quintal daquela senhora com ar de nazi mascarado de demo-tecno-crata. Da eurocracia e dos milhões gastos por Bruxelas. Esta é a democracia do faz-te-à-vida, do atropela quem quiseres para chegar a um lugar destacado na roubalheira nacional ou até europeia. Esta é a democarcia dos neo-liberais, dos privados, dos capitalistas. Dos especuladores e dos arrivistas. Esta é a democracia dos corruptos, dos acumuladores de riquezas à custa do erário público e da fome do povo. Dos que roubam milhões impunemente, em proveito próprio. Esta é a democracia dos ladrões de cartola, dos que roubam sem pistola. Dos que ameaçam, dos que prejudicam, dos que mandam a polícia carregar sobre os que não estão de acordo. Esta é democracia onde se discutem pintelhos, onde se manda tomar no cu sem pedir factura. Onde cada um dos mandadores tem um papel de seda para limpar a cara de cu de quem toma ares de poder. Esta é a democracia da refundação do fascismo, da implosão do estado social. Do desespero e da pobreza, da raiva cada vez menos contida. Da constituição ultrajada e do sonho socialista desfeito. Esta é a democracia dos cavacos, do bolo-rei colado aos dentes, dos mexericos entre-dentes. Esta é a democracia dos lobies obscuros, dos apadrinhados e dos padrinhos. Dos tachos e dos arranjinhos, para os filhos, para os netos, para os afilhados e para os sobrinhos. Esta é a democracia dos boçais, da Maria e do senhor Silva. Dos Jotinhas que desde imberbes aprendem a sugar nas maminhas do Estado. Este é o triunfo dos porcos. Eles são os senhores da furda, e a seu cargo e desmando têm uma larga vara de leitões de engorda. Esta é a democracia dos senhores da porcaria. Dos incompetentes. Dos bandos de malfeitores de banca, dos traficantes de favores do avental e da obra divina. É o reino onde já não há rei nem roque e tudo está posto em cheque. Esta é a democracia da selva. Do coelho armado em caçador, da ervas daninhas que se dizem relvas. Esta é a democracia dos indigentes políticos. Esta é a democracia possível, dizem eles. Pois, isto, isto não é nenhuma democracia. Nem a sua aparência, ao menos. Não é a minha democracia, não é a nossa democracia. Esta não é a democracia que vinha no menu quando votámos. Esta não é a democracia de ninguém. Esta não é a Democracia: esta é a cracia do demo, um poder satânico e maléfico. Esta massa viscosa e de mau odor, não é sequer um débil ensaio de uma democracia. Numa Democracia o povo manda e não é explorado por um governo de malas artes. Numa verdadeira Democracia estes políticos serão julgados pelos graves crimes que já cometeram e continuam a cometer contra o seu povo. Contra os que confiaram neles.
Só no patíbulo – e edificada sobre os vossos cadáveres –, senhores da furda*, se fará a Democracia, a verdadeira Democracia! E por último, vos digo que sigais o conselho do culto secretário desavindo: Ide tomar no cu para longe, enquanto ainda tendes pescoço! Basta! 

*Furda – curral tipíco da Beira Baixa onde vivem os bácoros. 


Joshua Magellan

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013


A vida é um milagre 

Mesmo quando tudo se desmorona à nossa volta, os entes queridos partem, os familiares adoecem irreversivelmente, as relações se deterioram e morrem, os outros nos parecem subitamente estranhos e o mundo continua a agredir-se ilimitadamente. Sinto em mim uma vontade visceral de ir em frente, de derrubar barreiras, de enfrentar as minhas tantas fraquezas.
É algo de epidérmico. Basta acordar e ver um raio de sol para que me sinta renascer. Basta depois procurar o mar, observá-lo por breves instantes ou um tarde inteira para que perceba a magia que é estar. AQUI. AGORA. HOJE. E então regresso, cabelos ao vento, música no máximo, cantando o mais alto que puder, para que lá em cima, quem nos olha, perceba que valeu a pena. Porque tudo, sempre, vale a pena!


Carmo Miranda Machado

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


Se só o presente existe...

Se só o presente existe, então, todos os instantes, passados ou futuros, têm de estar a acontecer em simultâneo. Tinha piada se assim fosse, aliás, tal como acontece no cinema. No cinema a história aparece-nos no ecrã, mas aquilo que vemos são apenas sombras projectadas pela luz a atravessar uma película. A acontecer alguma coisa, foi antes, na cabina do projeccionista, e aí, já está tudo previsto. Se tivéssemos vontade, poderíamos pedir ao projeccionista, e ele mostrar-nos-ia que todos os instantes estão, desde logo, disponíveis dentro da bobine. Se quiséssemos, poderíamos ver o filme de trás para a frente, aos saltos, ou do meio para os lados. Não há nada que o impeça. Aparentemente, nos filmes, tal como na vida, a nossa escolha é a de que a história nos seja apresentada de forma mais ou menos linear.
Isto remete-nos para uma outra questão. Quando vemos um filme, apesar de termos liberdade para escolher o que ver em cada instante, ainda assim, não podemos fugir do seu argumento. Ou seja, a história é aquela e não temos como fugir dela. Para que a história fosse outra, teríamos de pedir ao projeccionista para trocar de bobine.
Voltando ao filme da minha vida, ao aceitar o presente como único tempo existente, arrisco também afirmar que, afinal, o livre arbítrio não passa pelo que decido fazer em cada instante, mas pela escolha da parte da vida que quero ver agora. A vida já está lá, do princípio ao fim. Para que o argumento da minha vida fosse outro, teria de ir algures à minha mente, trocar o sistema de pensamento que aceitei como meu, e mudar aquilo que não me canso de projectar. Sem isso, ainda que possa escolher o que ver em cada instante, a história de fundo será sempre a mesma. É uma seca. 


DuArte

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Palavras Versadas


raiz

já falámos de mais
e de mais é uma árvore sem tempo
de florir

as estações sobrevoam-nos com asas prateadas
de aves formidáveis e rápidas
que nos povoam os sonhos
sem adormecer
e nós partimos do inverno enquanto dormimos
rachamos a noite em silêncio
ao encontro da memória ágil e quente
que nos aprende a voar
sem a ciência de um rumo dizível
e nos cerca
como uma casa de sombra que brilha
por dentro da sombra
de uma mansão maior que se apaga
no interruptor da primavera

já falámos de mais
e de mais é uma árvore sem vento
de partir

há aves que ficam
à espera
do seu tempo obscuro
quando todas as penas condenam ao sol
e migram
há estações que desfalecem e se vergam
à brisa derradeira
viciantemente fresca da solidão
no cair das folhas

o lugar plantado que somos tem uma só porta
um só chão incerto
onde se abre uma fenda de incerteza
na construção da raiz

mandei-te a chave por um pombo-correio
esquece a primavera


Renato Filipe Cardoso

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Provocatio

 

Do espanto 

Dizem que à medida que crescemos vamos perdendo a capacidade fantástica de nos espantarmos com o mundo. Porém, eu ainda me espanto, muitas vezes. Sobretudo com pessoas, para o bem e para mal. E com as cores impossíveis de um poente, quase sempre.


Missanga

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Crónica Benzodiazepina


FELICIDADE

Por vezes, penso que sou feliz. Hoje, por exemplo, acordei com sol, o que à partida é meio caminho andado para a felicidade; celebrei o aniversário da minha mãe, o que também me deixa radiante; e até consegui, com relativa facilidade, antever uns dias de férias. Possuo, desta forma, e de acordo com as mentes mais pragmáticas, todos os ingredientes necessários para a dita cuja.
Ora bem, a verdade é que tenho dias. Como a Cecília Meireles, tenho fases, tal como a lua. E tanto posso acordar com a sensação de que as torres gémeas voltaram a cair, como com a ideia de que tudo é fácil, porque para mim tudo é possível.
Uma vez confessei sentir-me feliz. Foi um desabafo, num daqueles dias em que acordo plena de energia e grata ao universo por existir. E leve. Extremamente leve (o que para mim é um grande sinal de felicidade). Mas alguém me disse (não me lembro já quem) para ter cuidado com o que dizia. É verdade que há pessoas que cultivam a tristeza. Mas, não é bem o meu caso. Nada me agrada mais que umas boas gargalhadas decorrentes de uma boa dose de non sense. E tenho, felizmente, alguns amigos/amigas peritos nisso. Confesso, porém, que há dias em que sinto escurecer por dentro. Mas faço sempre o possível (e o impossível) por renascer no dia seguinte, logo de manhãzinha.


Carmo Miranda Machado

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

PALAVRA EXPERIMENTAL (XVI)


Af(l)orismos

O povo diz: “Se queres ver o teu corpo, abre o teu porco”;

Digo eu: Se não queres ser visto pelo teu povo, fecha o teu corpo;

Sejamos: Se queres fazer viver o teu corpo, vive como um porco;

Diz que se diz: Se queres vender o teu corpo, há sempre um porco que compre;

Eles dizem: Se queres ver onde está o porco, pergunta quem manda no povo;

Dizemos nós: Se queremos manter o corpo, lá teremos de abrir o porco.

E o povo, pá, faz o que diz o São Martinho: Mata o seu porquinho e festeja com cravos e vinho...


Joshua Magellan

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

TUDO POR AMOR - 14 de Fevereiro de 2013


DIA DOS NAMORADOS

o amor
passou-se no tempo em que não havia medo.
não havia paredes subidas.
as manhãs eram remotas como rosas.
os ontens uma mitologia condigna.
a pátria era tão labiríntica quanto uma lágrima.
tão imprevisível quanto o ofício de um deus.
o amor passou-se no tempo em que ainda não tinha nome,
em que os segundos eram uma espécie de sangue,
e a tarde podia ser uma só palavra
na órbita de uma outra palavra.
o amor passou-se neste poema para pessoas sós,
passou-se como mera reprodução de um tempo
em que não havia corpos, logo
corações distantes.
mas ainda assim o amor existe: mesmo sendo
um ontem, mesmo sendo uma lágrima,
mesmo sendo uma rosa esquecida
num quarto azul.


Sylvia Beirute

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


Dualidades: eu e o outro que ama 

Existem dois em mim. Um deles é uma decepção. Ele nada sabe: não sabe estar, não sabe dizer, não sabe escrever, não faz a mínima ideia do que quer que seja. E talvez fosse essa a sua única virtude, porque, ao assumir-se vazio, deixou espaço para o outro que agora te apresento. Este tem tudo e, ainda assim, nada tem nada que tu não tenhas, nem poderá ser alguma coisa que tu também não sejas. Dele vem a paz, a possibilidade do Amor, porque quem tem tudo pode atrever-se a amar, estar ainda mais atento àquilo que já é seu, estendendo ao outro o que também é dele, acrescentando de nós ao que é nosso, a quem somos, e, quem sabe, a outros que se atrevam a amar connosco o que também é deles.
Este, que agora te digo, ele pouco falará de si, a menos que aprendas a escutá-lo também em ti. Será que te atreves a isso? Escutar no teu silêncio o meu silêncio?
É que nunca poderei ouvir-te ou olhar para ti de outra forma. Posso ver coisas que não és, escutar coisas que não dizes, posso imaginar-te noutras tantas que entretanto já se cruzaram comigo. Mas é a ti, quem eu quero, só assim poderei conhecer, dentro, onde me falas tão docemente com o teu silêncio.



DuArte

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Palavras Versadas


no crepúsculo do sonho

entras devagar
na casa
caiada de fresco
ternas reminiscências
(assim me pareceram na infância)
travestidas de risos e brancuras
de doces olhares
(assim me pareceram, de cores garridas)
desabam agora com o fim do dia
madeiras apodrecidas
tardes fúngicas
eclodem em apoteótica loucura
como alucinações
imagens silvantes e frias
pressentidas
naquelas manhãs que não amanheciam e se transformavam
em dias, em meses, em anos
e tu beliscavas-te uma, outra e outra vez
até que o sangue jorrava das tuas veias frágeis
e teimavas, teimavas em não acreditar
que tinhas sido sempre tu
sonâmbula
que tinhas traçado o caminho de todos os naufrágios
não, não abras a janela
não deixes que a luz se derrame sobre a vergonha
deixa que o tempo pare
ao imaginar por um momento
que todos os amores são possíveis
não toques em nada, fica imóvel
não respires
finge que se trata de um acto solene
deixa que as correntes do passado tomem o sono
e que em posição fetal
entre o amarfanhado morno dos lençóis
me abandone.


Catarina Pina

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Provocatio


A sua mensagem foi publicada com sucesso!

Recebeu aquela mensagem centenas de vezes. Não podia estar enganado quanto ao seu real "sucesso". Na suposição deste, continuou a escrever as mesmas merdas - que ninguém lia - durante séculos. Até que foi banido para as páginas em branco, quando um crítico iletrado descobriu a sua falta de talento e o denunciou a um proeminente e severo "e-ditador".


Joshua Magellan

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Crónica Benzodiazepina


Celebrar a vida

Uma das coisas que me atrai na filosofia budista é a sua relação com a morte, o modo como vivem com a consciência de que ao nascermos iniciamos de imediato o percurso que nos levará a esse fim inevitável. No ocidente, a não ser que sejamos muito prematuramente confrontados com a morte, crescemos com a sensação de que esta é algo que só acontece aos outros, aos desconhecidos. Crescemos com a sensação de que somos imortais e sentimento só passa quando, por fim, vemos a morte acontecer perto de nós.
Para os tibetanos a morte é tão natural como a vida, é mesmo a sua continuação. Crescem sabendo que a vida é apenas uma passagem e pensar na morte é para eles tão natural como respirar. Consequentemente, valorizam a vida de um modo totalmente diferente. Vivem-na serenamente, alheando-se de mesquinharias.
No espaço de um ano perdi três pessoas muito importantes para mim. Não conseguirei nunca ter a postura da filosofia tibetana, porque não foi enraizada no meu espírito. Contudo, a aceitação, conseguir ultrapassar o desespero, ajuda. Não é fácil. Estas três mortes fizeram-me repensar muitos aspectos da minha vida. Saber que caminho para um fim, faz-me querer viver mais plenamente, mais intensamente. Não quero com isto dizer que preciso de viver tudo o mais depressa possível. Apenas que tudo aquilo que me proponho fazer, seja fruto de vontade inequívoca. Quando me voltar a apaixonar, mesmo já tendo experimentado o desalento e a dor, entregar-me-ei sem reservas a essa paixão e correrei os riscos que tiver de correr. Estou com os amigos e familiares que amo sempre por inteiro. Deixei de fazer fretes, porque simplesmente não me apetece. Quando algo ou alguém me faz infeliz ou magoa, reclamo. A vida tem de ser vivida por inteiro e não com medos e receios. Viver pela metade, com medo de sofrer, não é viver. Viver é celebrar, sempre.


Missanga


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

PALAVRA EXPERIMENTAL (XV)


POEMA DE BOM DIA

bom dia.
bom dia mas poder trabalhar a ideia de um não poder estar
de memória num lugar escuso, apartados do uso de uma
diferença de dedos mentais, sentidos quebrados nos actos
das estrelas, desastre sobre uma mudança impessoal.
e digo bom dia. um bom dia sobre a linha feita da minha lógica,
o infinito material do mundo seguro e compreensível.
bom dia porque não tenho comparações e quem não as tem
não tem justificação para a liberdade de não ser livre.
e por isso bom dia. aos pássaros. à humanidade metafísica da
noite que sai de olhos cegos como as imagens cinematográficas
da adaptação de um livro de josé saramago.
bom dia à saudade de uma arte que consiste em fazer saudade.
uma saudade que envelhece como aqueles que regressam
apenas com a mente e a desusam na virgindade perdida de uma du-
pla existência, uma dupla alegria falhada na capacidade de espera.
bom dia à visibilidade do invisível. ao fmi. ao banco mundial.
à cimeira da nato. ao primeiro ministro, aos despedidos da
groundforce numa espécie de vigília em mangas de camisa, em
mangas de gestos e pânico nas faces que modernamente duvidam.
bom dia a um mark zuckerberg tenacíssimo a olhar para um
mundo azul e branco sobre uma inocência reprimida
pela desolação da vida fictícia, isolamento do próprio corpo
como uma leitura distante, um coração moral.
bom dia ao projecto humano de vulnerabilidade, instabilidade
do plano, do desejo, da livre associação de ideias. bom dia
às ideias de animalização da sexualidade por bento xvi,
de importanticidade das emoções e absurdo absoluto,
infra-absurdo, infra-inspiração, infra-exercício através da
propagação do nervo económico em hélice.
bom dia a fernando pessoa, a maiakovski, bertolt brecht, a
antónio ramos rosa, a jovens poetas de língua portuguesa como o
domingues ou o domeneck; que escrevam pelo instinto do
intervalo não lúcido da lentidão ocasional entre dois medos distintos,
entre a justificação da causa e o ideal da sobreposição.
bom dia às coisas análogas na diagonal do concreto heterogéneo,
na vontade vaga de falar o abstracto, o indefinido social
de uma seriedade superior. bom dia ao esquecimento
que lambe as feridas que o silêncio recolhe.



Sylvia Beirute

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


À porta da ilusão 

Depois de atravessada uma porta ilusória, é muito difícil voltar. Portas que abrem para o nada têm uma só face, desaparecendo ainda antes de se fecharem nas nossas costas.
Daí em diante, a única saída é manter a ilusão, defendendo-a com unhas e dentes, ou então, cair de joelhos perante a desilusão de nada conseguirmos de real. E é por isso que viver intensamente e sem freio estreita o caminho para fora do universo dos sonhos. Aqueles que, como eu, vivem amarrados a uma casota, ladrando a tudo e a todos, podem sempre pensar: "se eu fizesse isto, se eu fizesse aquilo, se ao menos vivesse com aquela mulher, se ao menos a vida tivesse sido um pouco mais justa comigo..." Amarrado aos “ses”, posso sempre manter a ilusão de que o mundo, de alguma forma, poderia dar certo.
"Ó pá, e se eu fosse mais alto, se eu tivesse cabelo a cobrir-me a cabeça toda, uma barriga mais desenhada, se eu não fizesse ruídos estranhos com a garganta, se tivesse um pouco mais de charme, tenho a certeza que ela iria olhar para mim! Olha! Se não for nesta vida, pode ser que aconteça numa próxima..."
Os outros, poucos, quase nenhuns, os que arriscam atirar-se a toda a velocidade contra a parede, indo a tudo e a todas, como se não houvesse uma segunda oportunidade. Esses percebem mais cedo, que nada, mas nada, dá certo neste mundo. E já não é preciso uma porta da saída, nem tirar as muitas máscaras, porque elas só existem para manter e proteger a nossa ilha imaginária, a nossa ilusão, o nosso sonho. Um dia, tudo isso cai como por magia do desencanto.



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